Uma semana após cerca de 72 mil migrantes entrarem em Ceuta a nado ou a pé, homens jovens acampam no cemitério da cidade da Espanha no norte da África. Os centros de acolhimento enfrentam dificuldades para lidar com a crise migratória.
“Viemos para cá como migrantes ilegais e planejamos, se Deus quiser, atravessar para a terra feliz. Queremos encontrar trabalho e ajudar nossos pais”, diz o marroquino Yaser, 21. “Gostamos daqui. É bonito. Queremos ter uma vida boa. Estamos aqui há uma semana sofrendo. Esperamos que encontrem uma solução para nós, para que possamos ir à Europa, se Deus quiser.”
Os jovens dormem sobre cobertores no cimento ou na grama entre as lápides, onde também mantêm seus pertences em sacolas plásticas.
Na segunda-feira (3), centenas de migrantes montaram um acampamento improvisado em uma praia do exclave espanhol. Muitos também estão alojados em instalações improvisadas em armazéns ou dormindo em parques.
“Ainda há menores em nossas ruas, e isso é uma prioridade, uma grande preocupação”, afirmou nesta quarta-feira (5) o representante do governo na cidade autônoma, Miguel Ángel Pérez.
O presidente de Ceuta, Juan Jesús Vivas, por sua vez, disse que é insustentável a quantidade de migrantes menores de 18 anos que permanecem na cidade autônoma. Ele estima em cerca de 1.100 o número de crianças e adolescentes acolhidos.
Aproximadamente 70 mil migrantes já retornaram ao vizinho Marrocos, segundo dados das autoridades espanholas, mas centenas de menores desacompanhados permanecem em Ceuta. Líderes locais confirmaram que pretendem transferi-los para a Espanha continental.
“Neste momento, a ocupação da capacidade de acolhimento de menores em Ceuta está 2.600% acima de seu limite crítico”, afirmou Vivas à televisão pública. O presidente de Ceuta integra o Partido Popular, principal legenda de oposição ao governo espanhol liderado pelo socialista Pedro Sánchez.
Vivas, que afirmou que Ceuta continua “com o coração na mão”, pediu ajuda ao restante da Espanha.
“Ceuta vive uma situação absolutamente extrema e pedimos socorro, pedimos a ajuda do restante da Espanha por meio de quem tem as competências executivas, que é o governo nacional, para que responda ao que foi —e todos reconhecem, inclusive o próprio presidente do governo— um ataque, uma violação da integridade territorial da Espanha”, disse.
De acordo com a legislação espanhola, as comunidades autônomas, como Ceuta, devem ajudar a acolher menores de idade provenientes de áreas em situação de tensão extraordinária. No entanto, essa norma esbarra na resistência de algumas regiões onde o Partido Popular governa em coalizão com o partido de extrema direita Vox, contrário a esse acolhimento e favorável a políticas migratórias restritivas.
“O Partido Popular e os governos administrados pelo Partido Popular têm de cumprir a lei, assim como os demais”, ressaltou, no entanto, o primeiro vice-presidente do governo espanhol e ministro da Economia, Carlos Cuerpo, à televisão pública.
Questionado sobre uma possível falta de planejamento, da qual algumas vozes acusam o Executivo nacional, o ministro Cuerpo destacou o “caráter excepcional” do ocorrido, que, “à luz dos relatórios disponíveis, era totalmente imprevisível”.
Vivas afirmou, porém, que, dias antes da crise, alertou o governo central de que “estava ocorrendo um intenso fluxo de entradas em Ceuta” e que chegou até mesmo a pedir a decretação de emergência nacional. Segundo ele, o Executivo rejeitou o pedido porque “não era juridicamente viável”.
“Demos indicações suficientes para deixar claro que a situação estava ficando muito tensa e que era necessária a adoção de medidas excepcionais”, disse.

