Lula usa palco do G7 para criticar retração da solidariedade internacional e protecionismo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) usou nesta terça-feira (16) a sessão ampliada da cúpula do G7 para cobrar dos países ricos o que chamou de omissão diante da crise global de desenvolvimento —e para criticar, sem citar nomes, tanto o neoliberalismo quanto o protecionismo que marca a política comercial do governo de Donald Trump, um dos participantes do evento.

“Os desafios se multiplicam, mas a solidariedade internacional encolhe”, afirmou Lula no discurso proferido na sessão dedicada ao tema “Firmar novas parcerias e reconstruir a solidariedade internacional”, em Évian.

Lula defendeu ainda o combate ao crime organizado transnacional, mas com uma condição: “Esse esforço deve levar em conta o respeito à soberania dos Estados.”

Disse que o narcotráfico “aterroriza comunidades e desvia recursos públicos que deveriam ser direcionados para a construção de escolas, hospitais e estradas” e que seu enfrentamento “não pode ser dissociado de outros ilícitos como a lavagem de dinheiro e o tráfico de armas.”

Em 28 de maio, o Departamento de Estado americano designou o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras —decisão anunciada pelo secretário de Estado Marco Rubio e que entrou em vigor em 5 de junho. A medida foi tomada dias após o senador Flávio Bolsonaro se reunir com Trump na Casa Branca e pedir pessoalmente a medida.

O governo Lula rejeitou a classificação, argumentando que os grupos são organizações criminosas com fins lucrativos, não terroristas.

Ao defender em Évian que o combate ao narcotráfico deve respeitar “a soberania dos Estados” e ocorrer por meio de “cooperação institucional, inclusive por meio da Interpol”, Lula deu outro recado a Trump.

Na quarta-feira (17), Lula deve se deslocar a Genebra para encontro com Valdecy Urquiza, secretário-geral da Interpol —o primeiro brasileiro a ocupar o cargo na história da organização— acompanhado do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. O encontro ocorre num momento em que o Brasil busca fortalecer a cooperação policial internacional como alternativa à pressão americana para aceitar uma intervenção direta no combate às facções brasileiras.

Esta foi a décima participação do presidente brasileiro em cúpulas do G7 ou G8 —a primeira também nesta cidade francesa, em 2003. “Desde aquele ano estive em outras nove cúpulas do G8 ou G7. Em todas elas nos defrontamos com crises e desafios que afetam milhões de pessoas ao redor do mundo. Mas em nenhuma conseguimos construir respostas coletivas e duradouras”, disse.

Em seu discurso, Lula fez uma avaliação crítica das últimas décadas de política econômica global. Ele afirmou que os países “ficaram aprisionados em dogmas que defendem a desregulamentação de mercados, Estado mínimo e austeridade fiscal como fins em si mesmos” e que “o neoliberalismo agravou a desigualdade econômica e a crise política que hoje assolam as democracias”.

Voltando-se para o cenário atual, disse que “o protecionismo e o unilateralismo ressurgem como respostas falaciosas para a complexidade dos nossos problemas.”

Lula citou uma série de dados para ilustrar o que chamou de retrocesso na cooperação internacional. Segundo ele, a ajuda oficial ao desenvolvimento registrou queda histórica de 23% no ano passado; o Programa Mundial de Alimentos perdeu cerca de 40% de seu financiamento; e a Organização Mundial da Saúde e o Unicef reduziram os orçamentos em mais de 20%.

“Não são cifras abstratas. Elas impactam diretamente o cotidiano dos habitantes de países em desenvolvimento”, disse.

Os dois primeiros números estão corretos. A queda de 23% na ajuda ao desenvolvimento foi confirmada pela OCDE em abril de 2026 —a maior contração anual já registrada—, com os Estados Unidos respondendo por três quartos do declínio. O corte de 40% no Programa Mundial de Alimentos foi confirmado pela própria agência da ONU.

Já o dado sobre OMS e Unicef é parcialmente correto: relatórios internacionais confirmam cortes de até 20% no Unicef e em outras agências humanitárias, mas os números variam por fonte e o impacto sobre a OMS especificamente não está consolidado.

A retórica mirava, sem nomear, os cortes promovidos pelo governo Trump na ajuda externa americana desde o início de seu segundo mandato —uma das mudanças mais abruptas na política externa dos Estados Unidos em décadas.

Lula também defendeu uma redistribuição mais ampla de recursos. “O mundo em desenvolvimento transfere US$ 1,4 trilhão por ano em serviço da dívida, valor sete vezes superior à ajuda recebida dos países ricos”, afirmou. E cobrou um sistema financeiro diferente: “Precisamos de um sistema no qual os países não sejam obrigados a escolher entre pagar credores e alimentar suas crianças.”

Na área climática, defendeu que o financiamento global seja ampliado para ao menos US$ 1,3 trilhão ao ano, e criticou o ritmo de implementação do Acordo de Paris. “A COP30 voltou a evidenciar a distância entre os compromissos assumidos pelos países desenvolvidos e os recursos efetivamente mobilizados para cumpri-los”, disse.

O presidente citou iniciativas brasileiras como o Fundo Florestas Tropicais para Sempre e a Aliança Global contra a Fome, e defendeu que países detentores de minerais críticos participem das etapas de maior valor agregado das cadeias produtivas ligadas à inteligência artificial e à transição energética.

O discurso com recados a Trump e críticas ao unilateralismo e ao protecionismo, mas sem menções diretas ao americano, já era esperado. Já um encontro com o presidente dos EUA está descartado. A avaliação do Planalto é de que não faria sentido promover uma nova reunião apenas para reiterar posições já apresentadas —inclusive sobre o tarifaço imposto sobre produtos brasileiros.

Ainda nesta terça, Lula tinha previsto para às 17h20 locais (12h20 em Brasília) uma reunião com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e com o presidente do Conselho Europeu, António Costa —o encontro mais aguardado pelo lado brasileiro em Évian.

A reunião ocorreria em meio à tensão com Bruxelas pela suspensão das importações de carne brasileira pela União Europeia. Na véspera, Costa disse que o bloco mantém um “diálogo construtivo” com o Brasil sobre o tema, mas ressaltou que “as normas sanitárias têm de ser cumpridas” —deixando para Von der Leyen qualquer posição mais concreta após o encontro.

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