Moretti diz que fim de subsídio do diesel será lento para evitar choque de preços

BRASÍLIA, 2 Jul (Reuters) – A extinção do subsídio implementado pelo governo para ⁠o diesel será mais lenta que a da gasolina pela avaliação de que mesmo após o recuo da cotação internacional ⁠do petróleo, o processo precisa ser feito com cautela para evitar um choque de preços no país ou desabastecimento, afirmou o ministro do Planejamento e Orçamento, ‌Bruno Moretti.

Em entrevista à Reuters nesta quinta-feira, Moretti argumentou que a estratégia de gradualismo na retirada do benefício manterá a premissa de neutralidade fiscal, prevendo que esses desembolsos pagos às empresas serão compensados por receitas extraordinárias que o governo ainda tem a receber, enquanto avalia eventual manutenção do imposto de exportação sobre petróleo, mas com alíquota mais baixa.

O governo ‌anunciou na terça-feira a eliminação de subsídio de R$0,35 por litro de diesel a partir de 1º de julho e disse que outras subvenções estavam em análise para retirada gradual.

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Segundo Moretti, o fim da subvenção de R$0,44 por litro de gasolina, a ser anunciada nos próximos dias, será feito em prazo “bem menor”, enquanto a extinção do benefício adicional de R$1,12 por litro de diesel será “gradual para não afetar não só o preço como o abastecimento”.

O ministro justificou que o recuo da cotação do petróleo de mais de US$100 durante a guerra no Oriente Médio para cerca de US$70 agora não foi integralmente repassado aos preços pagos pelo consumidor final, que subiriam de forma abrupta se a subvenção fosse extinta rapidamente.

Em outra frente de preocupação, ele citou ⁠uma previsão ‌de aumento sazonal da demanda internacional por diesel no segundo semestre deste ano, questão levada em conta pelo governo já que o Brasil importa cerca de 30% do diesel consumido internamente.

“Esse ⁠gradualismo é coerente com a nossa capacidade de entregar a meta fiscal ao fim do ano… também olhando para a necessidade de o mercado de combustíveis, de diesel, ter a previsibilidade necessária para fazer as suas operações e abastecer a sociedade”, disse.

Em relação ao imposto sobre a exportação de petróleo, instituído em março para reforçar o caixa do governo e desestimular as vendas externas num momento em que as empresas lucravam com a alta acelerada do preço da commodity, Moretti afirmou que a alíquota de 12% não será mantida com o preço do barril no atual patamar.

“Com o Brent a US$70, não se justifica uma alíquota de 12% e certamente nós não ​vamos mantê-la no cenário atual. A discussão é… se a gente baixa progressivamente ou se a gente retira imediatamente,” afirmou ele.

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A medida provisória (MP) que instituiu a cobrança expira na próxima semana, mas o ministro pontuou que, como se trata de um imposto regulatório, o governo poderá manter a taxação com uma possível alíquota mais baixa por meio ​de decisão administrativa do Comitê-Executivo de Gestão (Gecex) da Câmara de Comércio Exterior.

DIVIDENDOS FRUSTRADOS

Em meio à baixa arrecadação do governo com a taxação sobre dividendos, implementada desde janeiro para compensar o aumento da isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$5 mil por mês, Moretti afirmou que o governo não precisará lançar mão de novas medidas para fazer frente à frustração de receitas.

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De janeiro a maio, o governo levantou R$1,5 bilhão com a cobrança de 10% sobre dividendos remetidos para fora e sobre proventos acima de R$50 mil distribuídos no país, apenas 5% dos R$30 bilhões estimados para o ano.

Moretti ponderou que o governo vem arrecadando acima do esperado em outras frentes, que não especificou, limitando-se a dizer que essas ‌receitas vão assegurar a compensação.

“Nosso cenário deve indicar tranquilamente o cumprimento da meta fiscal sem qualquer medida adicional. Na pior ​das hipóteses, uma dificuldade de cumprimento dessa meta remeteria a um contingenciamento, que nós faríamos”, disse.

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Segundo o ministro, o próximo relatório bimestral de avaliação fiscal, a ser apresentado ao fim deste mês, mostrará compatibilidade com o atingimento da meta de superávit primário de 0,25% do Produto Interno Bruto (PIB) este ano.

Como o alvo tem uma banda de tolerância de 0,25 ponto percentual e permite a dedução de uma série de despesas para fins de ⁠aferição de cumprimento, o governo na prática pode registrar um déficit primário de ​até 0,5% do PIB este ano.

O governo opera ​o orçamento desde maio com um bloqueio de R$23,7 bilhões em verbas de ministérios diante de pressões em despesas obrigatórias. De acordo com o ministro, a equipe econômica não observa no momento uma descompressão nas contas, sendo possível ⁠uma redução apenas parcial desse corte neste mês. Um aumento da contenção não está no cenário ​do governo, acrescentou.

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COMPROMISSO FISCAL

Moretti fez uma defesa enfática do compromisso do governo em melhorar a trajetória fiscal, pontuando que o terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva será marcado pela entrega de uma melhora de 2 pontos percentuais do PIB no resultado primário, após o primeiro ano da administração ter terminado com déficit de 2,4% do PIB.

Diante de questionamentos do mercado sobre a necessidade de maior disciplina ​fiscal num momento em que o governo paga juros reais acima de 8% ao ano para financiar seus gastos, ritmo que pressiona o crescimento da sua pesada dívida pública, o ministro afirmou que o governo já se comprometeu com isso ao definir metas fiscais mais ambiciosas para 2027 em diante.

No ​projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias do próximo ano, o ⁠governo Lula propôs uma meta de superávit primário de 0,5% do PIB em 2027, indicando superávits de 1,0% em 2028, 1,25% em 2029 e 1,5% em 2030.

“Ali nós nos comprometemos com uma trajetória de aceleração da consolidação fiscal que muito ⁠ajudará a um processo de estabilização da dívida num prazo mais rápido. E, para isso, nós vamos manter o nosso limite de despesa e perseguir as metas que estão ali colocadas,” ele respondeu.

Sobre possíveis pressões inflacionárias geradas por medidas recentes do governo, o ministro argumentou que linhas de crédito subsidiadas para veículos são pontuais e não pressionam a demanda agregada, enquanto o Desenrola reduz a renda disponível de famílias que agora terão que pagar dívidas que antes não eram pagas.

“O que nós temos que fazer para ajudar o Banco Central é dar toda a segurança de que nós vamos seguir com uma política restritiva do ponto de vista fiscal, com um bloqueio necessário para cumprir o limite de gastos, com as ações necessárias para cumprir a nossa meta fiscal”, disse.

(Edição de Isabel ​Versiani)

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