EUA e Irã brigam por inspeção nuclear, e Teerã diz que controlará Hormuz em acordo

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta terça-feira (23) que o Irã concordou em permitir inspeções nucleares permanentes, mas Teerã negou a existência de qualquer acordo nesse sentido, reacendendo divergências sobre os termos das negociações para encerrar o conflito no Oriente Médio.

O republicano ameaçou suspender as conversas. Em um post na rede Truth Social, Trump disse que o Irã concordou em permitir a entrada de inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), ligada à ONU, “por um longo período no futuro (para sempre!)”.

“Isso garantirá a ‘honestidade nuclear’. Se eles não tivessem concordado com isso, não haveria novas negociações”, escreveu Trump. O presidente disse ainda que só aceitou retirar o bloqueio naval que a Marinha dos EUA mantinha no estreito de Hormuz porque negociadores iranianos teriam aceitado as vistorias nucleares.

Mais cedo nesta terça-feira (23), Teerã já tinha negado a versão dada por Washington. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, declarou que a agência vinculada às Nações Unidas não estava autorizada a inspecionar as instalações nucleares bombardeadas pelos EUA e por Israel.

Na véspera, o vice-presidente dos Estados Unidos, J. D. Vance, já havia dito que o Irã concordara com a entrada de inspetores nucleares da AIEA.

No ano passado, em apoio à guerra de 12 dias lançada por Tel Aviv, os EUA bombardearam pela primeira vez instalações nucleares iranianas, incluindo Fordow, Natanz e Isfahan. A AIEA sempre se queixou de não ter tido acesso completo às instalações desde então.

A extensão dos danos continua desconhecida. Baghaei disse que não há protocolo para esse tipo de inspeção, acrescentando que o Irã continuará cumprindo suas obrigações atuais como membro do Tratado de Não Proliferação Nuclear.

A desconfiança dos EUA e de outras nações ocidentais de que o Irã possa estar buscando construir bombas nucleares existe há décadas, mas a nação persa vem afirmando que seu programa existe apenas para fins pacíficos.

A disputa de narrativa em torno da questão nuclear ocorre após a primeira rodada de negociações na Suíça. Em paralelo, o principal negociador iraniano afirmou que o estreito de Hormuz não voltará às condições de livre navegação existentes antes da guerra.

Ainda assim, 35 navios transportadores de commodities atravessaram a via marítima na segunda-feira (22), um recorde desde o início da guerra, segundo a empresa de monitoramento marítimo Kpler.

Na semana passada, o regime persa afirmou que o passaria a impor o que chamou de “taxas de serviços marítimos” para a travessia.

Em uma declaração conjunta nesta terça, Irã e Omã reafirmaram que têm direitos soberanos sobre suas águas territoriais. Os dois países criarão um grupo de trabalho conjunto para negociar a futura administração da navegação no estreito, incluindo os serviços a serem oferecidos e os custos associados, seguindo padrões internacionais. Omã disse que não haverá pedágio

A Organização Marítima Internacional (OMI), agência vinculada à ONU, anunciou nesta terça um plano de evacuação para os mais de 11 mil marinheiros que continuam retidos na região de Hormuz.

O secretário-geral da OMI, o panamenho Arsenio Domínguez, afirmou que a a operação será realizada em cooperação com Irã, Omã, os demais países costeiros da região, os Estados Unidos e o setor marítimo.

Como parte do acordo em negociação, Washington concordou em liberar US$ 12 bilhões em recursos congelados para o Irã, informou a mídia estatal iraniana nesta terça-feira, além de suspender temporariamente as sanções sobre o petróleo proveniente da República Islâmica.

Trump disse, também nesta terça-feira, que os recursos serão mantidos em uma conta de custódia sob controle americano e utilizados exclusivamente para a compra de alimentos e suprimentos médicos dos EUA, incluindo milho, trigo e soja.

“Esses são itens dos quais o Irã necessita desesperadamente. Esta é uma crise humanitária, e considero necessário ajudar agora, antes que seja tarde demais”, escreveu Trump.

O embaixador de Teerã na ONU, Ali Bahreini, mais uma vez divergiu do presidente americano. Ele disse nesta terça que somente Teerã decidirá como utilizar o montante.

Após as negociações na Suíça, o chefe da diplomacia de Washington, Marco Rubio, segue para os Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Bahrein, todos atacados pelo Irã durante a guerra, para discutir o acordo com Teerã e a situação em Hormuz.

Ele voltou a afirmar nesta quarta que Teerã não poderá cobrar pedágios na via marítima como parte de qualquer acordo final com os EUA, dizendo que tal arranjo seria contrário ao direito internacional.

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