Desabamentos de prédios da era Hugo Chávez em terremotos na Venezuela eram tragédia anunciada

Os arranha-céus imponentes entre a montanha e o mar foram construídos pelo ex-presidente da Venezuela, Hugo Chávez, como uma promessa de abrigar os pobres com dignidade.

Mas agora, enquanto os moradores reviram os escombros dos edifícios após terremotos consecutivos, muitos voltaram sua raiva contra o regime, acusando-o de construir apartamentos de má qualidade para obter ganhos políticos.

Quando os terremotos atingiram a costa norte da Venezuela no último dia 24, as habitações populares no estado de La Guaira, uma porta de entrada para a capital, Caracas, tornaram-se alguns dos pontos de maior concentração de mortes.

Edifícios maciços, que abrigavam milhares de pessoas, desabaram, deixando vales de poeira e destruição. Casas geminadas em um complexo de grande extensão que leva o nome de Chávez desmoronaram como casas de brinquedo. Algumas pegaram fogo.

A devastação levantou questionamentos sobre o papel do regime na perda de tantas vidas em estruturas que especialistas em construção alertavam há anos que não resistiriam a um grande terremoto.

Especialistas em construção que conhecem La Guaira reviveram preocupações antigas sobre o terreno onde os complexos foram construídos, a qualidade de seus materiais e a integridade de seu projeto. Os planos para os edifícios começaram em 2011, pouco antes de uma eleição, e a construção prosseguiu às pressas, com detalhes do projeto e informações sobre testes de solo amplamente sonegados do público.

Em 2017, Enzo Betancourt, então presidente do Colégio de Engenheiros da Venezuela, chamou a integridade estrutural das unidades construídas pelo regime de “um segredo de Estado”.

Dois dias após os tremores, Juan Manuel Chirinos estava na borda de uma torre que desabou em uma unidade habitacional, procurando por seu filho, também chamado Juan Manuel, 32. Ao seu redor, pessoas martelavam os escombros, tentando desesperadamente encontrar sinais de vida.

“Essas pessoas não foram mortas pelo desastre”, disse Chirinos, que também procurava pela mulher de seu filho e pelos dois filhos do casal. “Eles foram mortos pelo governo, porque esses edifícios foram construídos como lixo.”

Os apartamentos foram construídos sob um programa estatal chamado Misión Vivienda. Era a vitrine da revolução de Chávez, destinada a “quebrar a lógica capitalista que mercantilizou a moradia”, de acordo com um site do governo.

O regime venezuelano, agora liderado por Delcy Rodríguez, afirma que mais de 5,5 milhões de casas foram construídas, e outras obras estão em andamento. “Além do número de moradias”, diz o site, “trata-se de qualidade.”

Em La Guaira, onde alguns edifícios estão agora marcados com tinta vermelha para demolição, os prédios da Misión Vivienda estão longe de ser os únicos apartamentos que caíram. Casas construídas por empreiteiras privadas para as classes alta e média também desabaram, matando muitos e levantando dúvidas sobre sua integridade.

Um representante do regime se recusou a responder a perguntas sobre os edifícios da Misión Vivienda. Em uma entrevista coletiva na quinta-feira (2), Delcy disse que a maioria dos edifícios que desabaram em La Guaira não havia sido construída pelo Estado.

Mas os complexos da Misión Vivienda se destacam devido à enorme quantidade de destruição em um projeto de obras públicas gigantesco que já era fonte de preocupação há anos.

Havia centenas de apartamentos nos complexos de concreto gravemente danificados conhecidos como OPPE 25, OPPE 26, OPPE 27 e OPPE 33, e cerca de 2.500 no castigado conjunto habitacional Hugo Chávez. Em muitos casos, grandes famílias extensas com fortes laços políticos com Chávez habitavam um único apartamento.

Os prédios da Misión Vivienda que caíram em La Guaira foram construídos em uma época de fartura estatal, quando a Venezuela ainda estava relativamente inundada de dinheiro do petróleo.

No entanto, por mais de uma década antes dos tremores, moradores, sismólogos e grupos de fiscalização divulgaram rachaduras nas paredes, problemas com a instalação segura de tubulações de gás e o risco de desabamento em caso de terremoto. Em outras partes do país, os edifícios da Misión Vivienda eram tão mal construídos que tiveram que ser destruídos anos atrás.

Muitos foram construídos por empresas estrangeiras com contratos opacos, levantando dúvidas sobre se os projetos e materiais foram adaptados para atender às vulnerabilidades geográficas da região.

“Não havia interesse técnico ali”, disse Guillermo Rivas, proprietário de uma empresa de construção que trabalha em La Guaira há mais de 40 anos. “O interesse ali era o populismo.”

Juan Manuel Chirinos, o filho desaparecido, havia se mudado para um apartamento da Misión Vivienda apenas quatro dias antes dos tremores. Mas muitos outros viviam nos complexos de habitação popular há anos e ganharam suas casas como recompensa por sua lealdade a Chávez.

Agora, esses edifícios são cenários de buscas caóticas e apelos desesperados por mais ajuda do Estado.

“Não temos ferramentas”, disse Willy Bermúdez, 38, um policial que morava no OPPE 26 há 13 anos. “Estamos cavando com as unhas.”

O cenário era muito parecido no conjunto habitacional Hugo Chávez —alguns dos edifícios baixos com revestimento de vinil azul desmoronaram completamente. Outros, embora agora inabitáveis, apenas cederam e se inclinaram. Levará tempo para entender por que isso aconteceu.

Mario Lieghio, presidente da câmara de construção de La Guaira, disse que a posição invejável do Estado entre a montanha e o mar também o tornava vulnerável a desastres, já que o sedimento da montanha se acumula e amolece a terra.

Embora a construção em La Guaira seja possível, segundo ele, ela deve ser feita com cuidado, com estudos detalhados do solo, fundações profundas se necessário, e materiais e projetos que possam resistir a tremores.

Na semana passada, ele caminhou pelo conjunto Hugo Chávez, apontando para as montanhas de metal frágil e painéis de aglomerado que foram usados para construir os apartamentos. “Isso tem que ser uma lição”, disse ele, “uma lição verdadeiramente gigantesca. “O Estado havia contratado uma empresa turca, a Summa, para construir o complexo.

“Aquelas pessoas terminavam um edifício em menos de uma semana”, disse José Luis Sarmiento, um líder sindical e operário da construção civil que ajudou a construir o complexo Hugo Chávez. “Estávamos nos saindo bem porque íamos rápido.” A empresa turca não respondeu a um pedido de comentário.

A poucos quarteirões dos edifícios Hugo Chávez, o mar brilhava. Alguns dos moradores do conjunto habitacional haviam se mudado para um campo de beisebol próximo, onde dormiam em barracas. Em outros complexos de habitação popular, a busca por sobreviventes e a vigília pelos mortos continuavam.

Chirinos contou à mulher que assistiu às equipes de resgate recuperarem o que pareciam ser os corpos de uma família de quatro pessoas —possivelmente seu filho, a mulher de seu filho e seus netos, de 8 e 11 anos. “Eu os vi”, disse ele. “Eles os tiraram. Eles estavam abraçados.”

Mas as autoridades levaram os corpos embora, acrescentou ele, e não quiseram lhe dizer para onde estavam indo.

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