Um relatório da Polícia Federal (PF) na Operação Compliance Zero, cujo sigilo foi derrubado há poucos dias pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), revela o que os investigadores classificam como uma sofisticada estrutura de captura de agentes públicos e influência política, dentro e fora de Brasília, com tentáculos que poderiam levar ao governo federal e ao Congresso.
No centro de uma dessas frentes de apuração estava o senador Jaques Wagner (PT-BA), apontado como um dos principais interlocutores e beneficiários do esquema montado pelos gestores do Master, Daniel Vorcaro e Augusto Lima, para blindar e expandir negócios do conglomerado.
Jaques Wagner disse estar “muito tranquilo” por ter “certeza de que vai provar sua inocência”. Ele afirmou também que não comentaria detalhes do inquérito por orientação da defesa. O relatório em questão foi justamente o que deu base à fase da Compliance Zero que teve como um dos alvos o senador.
Investigadores descrevem, em um documento de 98 páginas endereçado a Mendonça, um cenário em que a estrutura do governo federal e o processo legislativo podem ter sido colocados, ao menos em partes, a serviço de interesses privados em troca de vantagens indevidas.
Vale destacar que a influência do Master, segundo a PF, não se limitava a um único gabinete no Legislativo e a conduta de outros parlamentares é investigadas em outras frentes da apuração.
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Nomes do alto escalão foram apontados por Vorcaro como aliados estratégicos
Mensagens extraídas dos celulares dos investigados sugerem que o banco cultivava a imagem de onipresença nos altos escalões do poder no Legislativo e demonstrava proximidade com núcleos da administração federal.
Essa percepção era utilizada como uma espécie de ferramenta de marketing. Vorcaro chegou a se manifestar, ainda em 2025, sobre quem no governo apoiaria a polêmica aquisição do Master pelo Banco Regional de Brasília (BRB).
Em uma conversa por aplicativo de troca de mensagens, Vorcaro chegou a nominar figuras centrais, como Rui, uma referência que para a PF pode se referir ao ex-ministro da Casa Civil de Lula Rui Costa (PT-BA), o senador e ex-líder do governo no Senado Jaques Wagner, e Alexandre Silveira, ministro de Minas e Energia.
Em nota, Silveira disse que não tem conhecimento e muito menos participação sobre qualquer operação relacionada ao BRB. “Vale ressaltar que a regulação do setor bancário sequer compete ao MME”, descreve. A nota reafirmou que ele não tem como responder pelo conteúdo de eventuais mensagens trocadas por terceiros.
Rui Costa foi procurado e a reportagem aguarda manifestação do ex-ministro. O espaço segue aberto.
Vale destacar que nenhum deles aparece como investigado ou é alvo de quaisquer apurações da PF. Seus nomes surgiram a partir de conversas protagonizadas pelo próprio Vorcaro e não há registros formais de contatos entre o ex-banqueiro e o ex-ministro da Casa Civil e o de Minas e Energia.
Mas, para investigadores, as menções indicariam que os executivos do Master percebiam nomes do alto escalão do governo como possíveis aliados em operações de natureza regulatória que dependiam do crivo de órgãos técnicos como o Banco Central. No ano passado, a operação comercial entre o Master e o BRB foi barrada pelo BC poucos meses antes da liquidação extrajudicial do Master.
A Gazeta do Povo procurou o Palácio do Planalto para questionar sobre essa proximidade, mas o governo não respondeu às perguntas.
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Proposta de “marketing” para Lula e a base aliada
A dita proximidade de Vorcaro e do Master com a cúpula do Poder Executivo Federal era tratada com naturalidade e até como potencial ativo publicitário pelos gestores do conglomerado.
De acordo com o relatório da PF, em julho de 2024, um diretor comercial da instituição enviou mensagem a Vorcaro se gabando da influência com nomes supostamente ligados ao alto escalão governamental.
Diante da afirmação, Vorcaro teria avistado uma oportunidade estratégica de autopromoção e orientou o subordinado a transformar a proximidade política em material de divulgação.
O empresário determinou expressamente o direcionamento do conteúdo ao topo do Palácio do Planalto e aos seus supostos sustentadores políticos. Em uma das mensagens interceptadas com autorização da justiça, Vorcaro teria escrito a esse diretor: “Manda pro lula [sic] e pra base aliada”.
O diretor comercial assentiu indicando que o canal de escoamento para fazer a informação chegar ao presidente e a parlamentares governistas passaria por supostos intermediários do grupo junto ao governo, entre eles o gabinete de Jaques Wagner.
O apartamento e a suposta camuflagem patrimonial
Um dos eixos centrais da etapa da investigação que mirou Jaques Wagner foi a aquisição de um apartamento de luxo em Salvador, avaliado em R$ 2,45 milhões. Segundo a PF, há indícios de que o imóvel foi adquirido por Augusto Lima, mas seria destinado a Jaques Wagner e ao seu usufruto.
Para ocultar o beneficiário, segundo a PF, o grupo teria utilizado um fluxo financeiro complexo envolvendo um fundo de investimento administrado pela Reag. O dinheiro transitou pelo fundo para capitalizar uma empresa supostamente de fachada registrada em nome de um ex-vendedor de comércio varejista que seria laranja. Ele teria milhões em participações societárias no ecossistema do Master, apesar de declarar residência em um residencial simples em São Paulo.
O suposto envolvimento direto de Jaques Wagner no caso do apartamento apareceu em mensagens. Um interlocutor que o chamava de “pai” pedia ao senador dados do proprietário para formalizar um projeto de reforma no imóvel.
Wagner teria repassado, ainda segundo a PF, a demanda a Augusto Lima, que forneceu o contato dos operadores financeiros responsáveis pela blindagem do bem. Em uma mensagem vista pela PF como cifrada, havia uma comunicação sobre o apartamento. “A altura do vão é 2,45m”, o que a PF interpreta como uma referência direta ao valor de R$ 2,45 milhões pagos pelo apartamento.
A investigação aponta que a suposta rede não ocorria apenas por meio de bens imóveis, mas também por pagamentos diretos a empresas do núcleo familiar do senador. A BN Financeira (ou BN Representações), de propriedade de uma nora do senador e de um enteado seu, teria recebido repasses milionários sem a prestação de serviços correspondentes.
A empresa informou que os valores decorreram de serviços de prospecção e indicação, em caráter exclusivo, de operações e convênios de crédito consignado e que os pagamentos foram formalizados por notas fiscais, com balanços e extratos disponíveis às autoridades. Jaques Wagner negou que tenha feito a indicação da empresa ao Master.
Um dos registros mais contundentes alertados pela PF seria uma transferência de R$ 3,5 milhões efetuada por uma empresa do grupo Master que opera o Credcesta, em outubro de 2025, às vésperas da liquidação do banco. Diálogos mostrariam uma pessoa próxima ao senador cobrando “previsões” de pagamento de Augusto Lima de forma insistente.
Um mês antes, em setembro de 2025, Augusto Lima teria vinculado a dificuldade de honrar pagamentos ao insucesso do banco em uma operação regulatória. O ex-banqueiro enviou notícias sobre a rejeição, pelo BC, da compra do Master pelo BRB, sinalizando que a “situação crítica” da operação impactava o fluxo de repasses ao suposto núcleo de apoio. A PF veria nisso um circuito que pode indicar contrapartidas recíprocas.
A Gazeta do Povo não conseguiu contato com a defesa de Augusto Lima. Os advogados de Vorcaro não responderam aos questionamentos.
As leis que teriam favorecido o Master
Em troca das vantagens, essa linha de investigação do caso Master indica que Jaques Wagner pode ter atuado como um braço do banco no Congresso, condição que é negada pelo senador. Além dele, outros parlamentares também teriam atuado em favor do grupo, mas eles aparecem em outras frentes investigativas.
Dois casos são destacados como exemplos de uma suposta atuação parlamentar encomendada. Um seria o Crédito Consignado (MPV 1.106/2022), quando o senador foi um entusiasta da conversão da MP em lei, ampliando as margens do crédito consignado e incluindo novos beneficiários.
O Master, por meio do Credcesta, foi um dos maiores operadores desse mercado. Em relatório, a PF notou que o apoio de Wagner à lei ocorreu em período contemporâneo ao início dos repasses à financeira ligada a seus familiares.
O segundo momento teria sido a PEC do Fundo Garantidor de Crédito (PEC 65/2023). A PF alerta em seu relatório que, assim como outros gabinetes, o do senador articulou a inclusão da Emenda nº 11 à referida PEC para incentivar a elevação do limite de cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. A medida não foi aprovada.
Em mensagens localizadas em um dos celulares de Vorcaro, essa medida foi descrita como catástrofe positiva, pois facilitaria a captação de recursos de grandes investidores sob a proteção do fundo.
Jaques Wagner e sua família também desfrutavam, segundo a PF, de infraestrutura logística custeada pelos ex-banqueiros. A PF documentou cinco ocasiões em que o senador utilizou jatos e helicópteros do grupo para viagens ao Rio de Janeiro e ao litoral baiano.
As instruções de Vorcaro eram revestidas de sigilo. Ele teria ordenado que pilotos usassem hangares discretos que “ninguém conhecesse” e que a aeronave saísse rapidamente após o desembarque, “sem apagar o motor”, para evitar registros ou identificações.
Augusto Lima e a Reag teriam custeado ingressos de camarote para familiares do senador em shows de uma cantora americana em Los Angeles e São Paulo. O custo foi de quase R$ 67 mil, pagos pelas estruturas financeiras do Master.
Um hub de corrupção e inteligência
A representação da PF ao STF reforça ainda que o Master operava um “hub financeiro, patrimonial e logístico” destinado a cooptar agentes públicos de alto escalão e, nesta frente, pessoas supostamente próximas ao governo.
A utilização sistemática de fundos de investimento, empresas de fachada e linguagem cifrada demonstrariam que os investigados tinham consciência da ilicitude e capacidade ativa para suposta obstrução da justiça.
Para os delegados, a atuação de Wagner e o envolvimento de nomes do governo federal não eram fatos isolados, mas parte de uma estratégia de “inteligência criminosa” para garantir impunidade e lucro de uma organização que fraudou o sistema financeiro.
As medidas cautelares solicitadas a Mendonça, que resultaram em uma das fases da operação Compliance Zero que mirou Jaques Wagner, ainda tentam rastrear a extensão dessa influência e identificar se outros membros da estrutura federal foram capturados pela suposta engrenagem.
O que as defesas de Vorcaro e Lima já disseram
Embora a defesa de Daniel Vorcaro não tenha se manifestado sobre os elementos apresentados no relatório da PF, os advogados do ex-banqueiro já negaram anteriormente as acusações de irregularidades.
Em março deste ano, após a divulgação de mensagens e de informações sobre os gastos e relações de Vorcaro, a defesa afirmou que ele era inocente das acusações de fraude e que não houve crimes na gestão do Banco Master.
Em outras manifestações, os advogados também sustentaram que as informações divulgadas sobre o empresário deveriam ser analisadas no contexto da investigação.
Como mencionado, a reportagem não conseguiu contato com a defesa de Augusto Lima. Mas, em manifestação de 18 de junho, após a operação que teve o empresário e o senador Jaques Wagner entre os alvos, os advogados afirmaram que as diligências eram “desnecessárias”, pois Lima estava havia seis meses à disposição das autoridades.
Segundo a defesa, as medidas contribuiriam para demonstrar que os fatos investigados eram “rigorosamente lícitos”. Os advogados também afirmaram que Lima “sempre atuou dentro dos limites da lei, com transparência, responsabilidade técnica e observância das normas que regem o sistema financeiro e a administração pública”.







