A nova armadilha do Hamas

No dia 6 de julho, o Hamas anunciou a dissolução de seu governo em Gaza, com a intenção de transferir o controle para uma comissão tecnocrática palestina, o NCGA, enquanto o primeiro-ministro Mohammed al-Farra renunciou. No entanto, a falta de menção ao desarmamento do grupo terrorista gerou ceticismo, sendo interpretada por Israel como uma estratégia para manter o poder militar. A Europa reagiu com promessas de ajuda financeira, mas críticos alertam que isso pode fortalecer o Hamas.

Muitos celebraram quando, no último dia 6, o grupo terrorista Hamas convocou uma entrevista coletiva para jornalistas da mídia palestina para anunciar a dissolução de seu corpo governamental em Gaza. Esse seria, segundo Ismail al-Thwabta, chefe do Gabinete de Mídia do Governo do Hamas, o primeiro passo para a passagem do controle do enclave para o Comitê Nacional para a Administração de Gaza (NCAG), uma comissão tecnocrática palestina formalizada no já quase esquecido Plano de Paz de Donald Trump.

Naquele mesmo dia 6, o primeiro-ministro do governo do Hamas, Mohammed al-Farra, renunciou ao cargo. Em uma etapa intermediária de transição do poder, a autoridade foi, segundo o grupo, transferida para uma comissão interina coordenada por ativistas do próprio Hamas.

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Tudo, menos as armas

A iniciativa mereceria comemoração, caso o anúncio não deixasse de lado o aspecto mais importante do fim do governo do Hamas na Faixa de Gaza: a entrega das armas. Não há nenhuma referência ao tema no anúncio, o que foi interpretado pelo governo israelense como parte de uma nova estratégia do grupo terrorista, que nada tem a ver com a renúncia ao poder no enclave.

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“O Hamas está buscando implantar o modelo do Hezbollah em Gaza”, escreveu o ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Sa’ar, em sua conta no X. “Segundo sua proposta, o comitê tecnocrático seria responsável pela coleta de lixo e pelos serviços municipais, enquanto o Hamas permaneceria como a força militar predominante. Isso permitiria ao grupo continuar oprimindo os palestinos em Gaza enquanto mantém sua jihad (guerra santa) contra Israel.”

O desarmamento completo do grupo não é apenas uma exigência israelense. Ele estava previsto no acordo proposto por Trump em outubro de 2025 e aceito por Israel e pelo Hamas.

A oposição palestina

Outros, além de Tel-Aviv, duvidam que haja qualquer boa intenção nesse movimento. É o caso até mesmo de ativistas palestinos, como o advogado Abdullah Sharsharah. “Experiências anteriores provam que dissolver um organismo político não significa o desmantelamento do governo”, afirmou. “O poder do Hamas, as brigadas Qassam, os informantes, os combatentes, enfim, toda a rede de terror permaneceria em funcionamento.”

Por fim, até mesmo o NCAG se opõe à proposta do Hamas. “O princípio fundamental da transição do poder continua sendo uma única autoridade, uma única lei e uma única arma”, afirmou o comitê em um comunicado divulgado no X. “Isso significa a consolidação de todas as armas sob o nosso controle.”

O velho otimismo europeu sobre o Hamas

A Europa comemorou o anúncio e também se mobilizou rapidamente para, mais uma vez, segundo seus próprios termos, “apoiar a reconstrução de Gaza” — o que, nessa conjuntura, ajudará a garantir a permanência do Hamas no poder.

A reação europeia segue um padrão observado em episódios anteriores: diante de anúncios de reorganização política em Gaza, a prioridade passa a ser a reconstrução e o financiamento internacional, mesmo sem nenhuma garantia do fim do domínio do Hamas.

Nos últimos dias, a Comissão Europeia anunciou uma iniciativa para angariar € 883 milhões em ajuda financeira junto a mais de 12 países, além do Banco Europeu de Investimento e do Banco Mundial. Em outras palavras, a entidade respondeu exatamente da forma desejada pelo Hamas, que está desesperado para captar recursos para reconstruir seu arsenal e fortalecer seu aparato militar.

Hamas e o sofrimento palestino

Enquanto isso, o Exército israelense continua mobilizado — controlando 70% do território da Faixa de Gaza — e cresce o sofrimento da maior parte da população gazense. Começam a surgir vozes locais de oposição pedindo uma intervenção internacional, mas elas são severamente punidas pelo Hamas. Palestinos que conseguiram sair de Gaza oferecem relatos impressionantes da opressão do grupo terrorista sobre a população.

O desvio cotidiano pelo Hamas das centenas de caminhões de ajuda humanitária que entram em Gaza diariamente, uma prática corrente desde o início da guerra, continua ocorrendo. Na semana passada, finalmente, o coordenador especial da Organização das Nações Unidas para o processo de paz no Oriente Médio, Ramiz Alakbarov, divulgou um comunicado no qual acusou o grupo de “obstruir a distribuição da ajuda humanitária em Gaza”.

Em resumo, o anúncio do Hamas em nada muda o atual panorama desolador da Faixa de Gaza. Ao contrário, reforça a avaliação do governo israelense de que a única saída para pôr fim ao domínio do grupo terrorista no enclave é a militar. Tudo mostra que caberá a Israel conduzir essa operação — e, mais uma vez, ser acusado de provocar o sofrimento palestino.

Leia também: “Qual o futuro de Gaza?”, reportagem publicada na Edição 326 da Revista Oeste

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