O senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), conversou com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, produção biográfica sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Na época das conversas, o Banco Master já enfrentava o avanço das investigações que culminaram na prisão de seu controlador e na liquidação da instituição financeira.
Mensagens, comprovantes bancários e cronogramas de pagamento revelados pelo site Intercept Brasil sugerem que ao menos US$ 10,5 milhões foram transferidos entre fevereiro e maio de 2025 para financiar a produção cinematográfica ligada à família Bolsonaro. À época, o valor correspondia a mais de R$ 60 milhões.
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Os documentos mostram que o plano inicial previa um aporte total próximo de US$ 25 milhões. Parte das operações teria sido realizada por meio da Entre Investimentos e Participações, empresa usada como alternativa para viabilizar remessas internacionais depois que o Master passou a enfrentar dificuldades para concluir operações ligadas ao projeto.


As conversas mostram que as negociações começaram ainda em dezembro de 2024. Em 8 de dezembro daquele ano, o empresário Thiago Miranda, então CEO do Portal Leo Dias, organizou um encontro entre Flávio e Vorcaro, em Brasília. Ao confirmar a reunião, Miranda afirmou que o senador queria tratar do “filme do presidente” e acrescentou: “Flavio está ciente de tudo”.
O encontro foi marcado para 11 de dezembro, às 17h30, na residência de Vorcaro. Naquele horário, Flávio participava de uma sessão da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. Imagens da transmissão oficial mostram quando o parlamentar deixa o plenário, pouco depois das 17h30, ao receber uma ligação telefônica.


Quase uma hora depois do horário marcado para o encontro, o deputado federal Mario Frias (PL-SP) enviou um áudio a Vorcaro para agradecer pelo apoio ao projeto. Segundo a gravação mencionada pela reportagem, Frias afirmou que o filme “vai mexer com o coração de muita gente” e teria importância política para o país.
Conversas se intensificam
Nos meses seguintes, as cobranças pela liberação do dinheiro se intensificaram. Em janeiro de 2025, Miranda encaminhou ao banqueiro mensagens atribuídas Flávio, que o estaria pressionando para dar sequência ao investimento no filme. Horas depois, Vorcaro respondeu: “Vou atrás aqui”.
As mensagens sugerem que Fabiano Zettel, apontado pela Polícia Federal (PF) como operador financeiro do banqueiro, assumiu a coordenação operacional das remessas internacionais. Em uma conversa de 21 de janeiro, Zettel explicou que o filme teria inicialmente dez parcelas de US$ 2,5 milhões. Mais tarde, outro cronograma mencionou 14 pagamentos, em valores menores.


No fim daquele mês, Vorcaro demonstrou preocupação com os atrasos. Em uma das mensagens reproduzidas na reportagem, escreveu: “Não pode falhar mais”.
As dificuldades para transferir os recursos para os Estados Unidos começaram a aparecer em fevereiro. Zettel relatou resistência do setor de câmbio do Banco Master para concluir as operações e afirmou que havia informações cadastrais consideradas “meio estranhas”. Vorcaro então orientou que os pagamentos fossem realizados “via entre”, referência à Entre Investimentos e Participações.
A reportagem sustenta que, embora o Grupo Entre e Vorcaro negassem vínculo societário, documentos judiciais e administrativos indicariam uma conexão operacional entre ambos. O nome de Antônio Carlos Freixo Júnior, executivo ligado ao grupo, aparece nas mensagens sob o apelido de “Mineiro”.


Em 14 de fevereiro de 2025, Zettel encaminhou a Vorcaro o comprovante de uma transferência internacional de US$ 2 milhões destinada ao Havengate Development Fund LP, fundo registrado no Texas e apontado como estrutura financeira da produção cinematográfica.
Documentos societários citados pelo Intercept identificam o advogado Paulo Calixto, aliado de Eduardo Bolsonaro, como representante legal do fundo nos Estados Unidos. O corretor Altieris Santana também aparece ligado à estrutura societária da empresa.
Vorcaro cobra pagamentos pendentes
Em março, Vorcaro voltou a cobrar os pagamentos pendentes. Um cronograma enviado pelo banqueiro mostrava que apenas a primeira parcela havia sido quitada até então. O documento previa seis pagamentos, que somariam cerca de US$ 10,5 milhões, entre janeiro e maio.
No mesmo período, Eduardo Bolsonaro apareceu diretamente nas tratativas. Segundo a reportagem, o parlamentar sugeriu alternativas para facilitar a remessa dos recursos aos Estados Unidos e pôs Altieris Santana à disposição para reuniões presenciais relacionadas às operações financeiras.


O avanço do financiamento coincidiu com o agravamento da crise do Banco Master. Ao longo do segundo semestre de 2025, as mensagens revelam aumento da pressão financeira sobre Vorcaro e maior proximidade com Flávio. Em agosto, Miranda encaminhou ao banqueiro uma tabela intitulada “Funding Schedule Havengate Dev Fund”, o que sugere que cerca de US$ 10,5 milhões já haviam sido transferidos, de um total previsto de aproximadamente US$ 25 milhões. Vorcaro respondeu: “Segunda fazemos duas”.
Dias depois, em 8 de setembro, Flávio enviou um áudio em que cobra diretamente a continuidade dos pagamentos. O senador demonstrou preocupação com o risco de interrupção das filmagens e mencionou compromissos assumidos com profissionais estrangeiros envolvidos na produção. “Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus”, afirmou, em referência ao ator Jim Caviezel e ao diretor Cyrus Nowrasteh.
Na mesma gravação, Flávio disse que o projeto estava na “reta final” e que a produção não poderia “vacilar” naquele momento. Vorcaro respondeu com pedido de desculpa pelos atrasos e prometeu resolver a situação no dia seguinte.


Flávio cogitou buscar “outro caminho”
Cinco dias antes dessa conversa, o Banco de Brasília havia anunciado que o Banco Central rejeitou a operação de compra do Banco Master pelo BRB, o que agravou a crise financeira da instituição.
As mensagens seguintes mostram que os contatos continuaram frequentes. Em outubro, Flávio informou a Vorcaro que as filmagens haviam chegado “no limite” financeiro e que seria necessário buscar “outro caminho” caso o apoio não continuasse. O banqueiro respondeu: “Deixa comigo”.
No mesmo mês, Flávio convidou Vorcaro para um jantar em São Paulo, com Jim Caviezel e Cyrus Nowrasteh. A reportagem afirma que não há confirmação de que o encontro tenha ocorrido.


Em 7 de novembro de 2025, o senador enviou ao banqueiro um vídeo de visualização única acompanhado da mensagem: “Tudo isso só está sendo possível por causa de vc”. Vorcaro respondeu: “Que demais” e “Ficou perfeito”.
Nove dias depois, Flávio voltou a procurar o empresário. “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente”, escreveu. “Só preciso que me dê uma luz!”
Em 17 de novembro, Vorcaro foi preso, enquanto tentava deixar o país. O ex-banqueiro é acusado de operar um esquema de fraude que teria provocado prejuízo de cerca de R$ 50 bilhões ao Fundo Garantidor de Crédito. No dia seguinte, o Banco Central decretou a liquidação do Banco Master.


Na manhã desta quarta-feira, 13, o Intercept perguntou pessoalmente a Flávio Bolsonaro sobre o suposto financiamento de Vorcaro ao filme. O senador negou. “De onde você tirou essa informação? É mentira”, afirmou.
Oeste também entrou em contato com o senador, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.


