Figura marcante do coronelismo no sertão cearense, Domingos Leite Furtado deixou seu nome ligado à história de Milagres, às disputas políticas do século XIX e a antigas histórias que ainda circulam em Nazaré (A revista está abaixo da matéria).
No sertão cearense, algumas histórias permanecem vivas mesmo depois de muitas décadas. Elas sobrevivem nas lembranças das famílias, nos antigos casarões, nas capelas e, principalmente, nas narrativas passadas de geração em geração. Entre essas histórias está a trajetória de Domingos Leite Furtado, personagem associado ao poder político e econômico de seu tempo e cuja memória permanece ligada ao Sítio Nazaré, em Milagres, no Ceará.

Nascido em 1842, no Sítio Coité, então ligado à região de Mauriti, Domingos era filho de João Furtado Leite, conhecido como Janjote, e Francisca das Chagas do Nascimento. Posteriormente, sua trajetória passou por Taboca e pelo entorno de Milagres, até chegar ao Sítio Nazaré, local que se tornaria uma das principais referências de sua história.
Um homem de influência no sertão

Domingos Leite Furtado viveu durante um período em que o chamado coronelismo tinha forte influência na política e na organização social de várias regiões do interior brasileiro.
Segundo o material histórico utilizado nesta narrativa, Domingos integrou o grupo de coronéis que exerciam grande influência política no Ceará. Sua atuação teria ultrapassado os limites de Milagres, alcançando também localidades vizinhas.
O poder do coronel era construído por meio de relações políticas, econômicas e familiares. Entre seus aliados aparecem nomes como José Belém de Figueiredo, de Crato; Antônio Joaquim de Santana, da Missão Velha; Joca de Macêdo, de Barbalha; coronel Rocha, do Jardim; Benedito Queiroga, de Pombal; Zuza Lacerda e Antônio Bravo, de Piancó.
Era uma época em que a palavra de um homem poderoso poderia representar muito mais do que uma simples opinião.
“Aqui quem manda sou eu”
É justamente nesse cenário que a figura de Domingos ganhou fama.
Relatos reunidos no material descrevem sua presença em Milagres como marcada por forte autoridade. A ele é atribuída uma influência que teria durado aproximadamente três décadas.
O período também é apresentado como uma época de conflitos, disputas e demonstrações de força. A riqueza acumulada e as relações políticas contribuíram para consolidar seu poder na região.
Mas, por trás do homem público, havia também uma família.
Praxedes: a mulher ao lado do coronel

Um dos personagens importantes dessa história é Praxedes Furtado de Lacerda, esposa de Domingos.
Sua presença aparece não apenas como esposa do coronel, mas também como parte da memória construída em torno da família e do Sítio Nazaré.
As histórias sobre os dois ajudam a compreender que a trajetória de Domingos não estava isolada. A família, os parentes e os aliados faziam parte da estrutura social que sustentava sua posição naquele período.
É justamente o nome de Praxedes que aparece também em uma das histórias mais conhecidas associadas ao casal: a lenda do Poço do Dinheiro.
O atentado de 1888
A trajetória de Domingos também foi marcada por conflitos que chegaram a colocar sua própria vida em risco.
Em 24 de dezembro de 1888, ele teria sido alvo de um atentado em Milagres. O autor apontado no relato é Antônio Leite Rabelo, que teria disparado contra o coronel, mas não conseguiu atingi-lo.
O episódio passou a fazer parte da memória sobre Domingos e contribuiu para reforçar a imagem de um homem envolvido em um ambiente político e social marcado por disputas.
O atentado, porém, não encerrou sua trajetória.
Domingos continuaria exercendo influência na região por muitos anos.
A morte do coronel
Domingos Leite Furtado morreu em 27 de outubro de 1918, no Sítio Nazaré.
Os registros de óbito apresentados no material trazem informações que chamam atenção. Um dos termos registra que ele teria falecido na Freguesia de Milagres, aos 76 anos, enquanto outro documento menciona sua morte no Sítio Nazaré, vítima de gripe pulmonar.
Os documentos também registram seu casamento com Praxedes Furtado de Lacerda.
A existência de mais de um registro é um dos elementos que tornam a documentação sobre sua morte particularmente interessante para a memória histórica local.
Nazaré depois da morte

A morte de Domingos, entretanto, não significou o desaparecimento de sua história.
Em 1919, aproximadamente um ano depois de sua morte, Nazaré teria sido alvo de um assalto atribuído ao cangaceiro Zé Inácio do Barro.
De acordo com o relato, o grupo teria levado armas, munições e até o caixão que pertencia ao coronel.
O episódio acrescentou mais um capítulo à já movimentada história do Sítio Nazaré.
O misterioso Poço do Dinheiro
Entre fatos históricos e histórias transmitidas pela tradição oral, existe uma das lendas mais curiosas envolvendo a família: o Poço do Dinheiro.
A história conta que Dona Praxedes, esposa de Domingos, teria escondido uma grande quantidade de dinheiro em um poço localizado em meio às formações rochosas da região.
O local, cercado pela vegetação e pelas pedras do sertão, tornou-se associado ao imaginário popular sobre riquezas escondidas.
Mas é importante separar história documentada de tradição oral.
A existência de dinheiro enterrado ou escondido naquele local pertence ao campo da lenda e não deve ser apresentada como um fato comprovado pelos documentos disponíveis.
Ainda assim, a história permanece importante porque mostra como a memória de uma família pode ganhar novas camadas ao longo do tempo.
A Capela de Nossa Senhora dos Remédios
Hoje, um dos elementos que ajudam a preservar essa memória é a Capela de Nossa Senhora dos Remédios, localizada no Sítio Nazaré, em Milagres.
A construção e o espaço ao seu redor fazem parte da paisagem histórica da comunidade e ajudam a manter viva a lembrança das pessoas que fizeram parte da trajetória daquele lugar.
Entre documentos, fotografias antigas, relatos familiares e lendas, Nazaré guarda uma história que ultrapassa a biografia de um único homem.
Entre documentos e memória
A trajetória de Domingos Leite Furtado reúne diferentes dimensões da história do sertão: política, poder local, relações familiares, conflitos, religião, riqueza e tradição oral.
Sua figura está ligada a um período em que os chamados coronéis possuíam grande influência sobre a vida política e social do interior.
Ao mesmo tempo, histórias como a do Poço do Dinheiro mostram como a memória popular pode transformar acontecimentos e personagens históricos em narrativas que continuam despertando curiosidade muitas décadas depois.
Hoje, olhar para essa história significa também compreender o contexto em que essas pessoas viveram e distinguir aquilo que está registrado em documentos daquilo que chegou até o presente por meio da tradição oral.
Domingos Leite Furtado morreu em 1918. Mas sua história continua sendo contada.
E, entre as paredes antigas, a capela, os caminhos do Sítio Nazaré e as pedras do sertão, ainda ecoam as histórias de um tempo em que poder e memória caminhavam lado a lado.
Ficha da matéria
- Personagem: Coronel Domingos Leite Furtado
- Local: Sítio Nazaré — Milagres, Ceará
- Esposa: Praxedes Furtado de Lacerda
- Nascimento: 1842
- Falecimento: 27 de outubro de 1918
- Local associado à morte: Sítio Nazaré
- Capela: Nossa Senhora dos Remédios
- Tema: História, coronelismo, memória e tradição oral do sertão cearense
- Informações: Blog A Munganga
- Produção: Alecx Silva

