Aos 14 anos, Júlia* morava na zona sul de Porto Alegre e quase não ficava em casa. A relação com a mãe era tensa, as brigas frequentes, o silêncio entre as duas pesado.
Foi nesse vazio que ela se envolveu com o tráfico. Em 2024, aos 15 anos, passou sete meses internada na Fundação de Atendimento Socioeducativo do Rio Grande do Sul. Quando saiu, nas palavras dela, “não queria nada com nada”.
Hoje ela tem 16 anos, carteira assinada e está no primeiro ano do ensino médio. Trabalha na área administrativa do Centro de Integração Empresa-Escola do Rio Grande do Sul (Ciee-RS), a mesma instituição que coordena o programa que a ajudou. O nome dela é fictício, mas a história é real.
Histórias como a de Júlia existem em outros estados, em programas diferentes, com metodologias distintas. O que a Gazeta do Povo encontrou ao mapear iniciativas brasileiras que funcionam de verdade para tirar jovens da criminalidade é que todas partem do mesmo lugar: o jovem precisa se sentir acolhido por quem ele é — e não pelo que ele faz.
E podem servir de inspiração aos pré-candidatos nas eleições 2026 para priorizar iniciativas engajadas do poder público voltadas à infância e adolescência com o propósito de tornar o Brasil um país mais seguro, colhendo frutos na educação, na segurança pública e na cidadania.
No Brasil, 47,8% dos 45.747 homicídios registrados em 2023 vitimaram pessoas de até 29 anos — uma média de 60 jovens assassinados por dia, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. A taxa de reincidência no sistema prisional adulto chega a 80%.
Os programas que aparecem nesta reportagem registram um outro lado da moeda. E têm outra coisa em comum: viraram políticas públicas, o que permite que sobrevivam a trocas de governo.
O nome de Júlia* foi alterado para preservar a identidade da adolescente.
Vínculo vence a reincidência
O Programa de Oportunidades e Direitos (POD) Socioeducativo acompanha adolescentes no período mais crítico depois do cumprimento de medida socioeducativa — os primeiros meses em liberdade, quando as chances de reincidência são maiores. Existe desde 2009 no Rio Grande do Sul e, desde 2018, é executado pelo Ciee gaúcho com verba do governo estadual, num modelo que percorreu cinco governadores e foi aprimorado ao longo do tempo.
Quando o jovem está prestes a deixar a Fundação de Atendimento Sócio-Educativo do Rio Grande do Sul, recebe a oferta de participar — voluntariamente. Cerca de 70% aceitam.
A partir daí, uma equipe de psicólogos, pedagogos e assistentes sociais faz o acompanhamento por até 18 meses. O jovem recebe R$ 700 mensais, acessa cursos de informática, culinária, programação e educação financeira, e pode ser encaminhado para vagas de estágio e emprego.
O orçamento anual do programa é de R$ 3,5 milhões para atender 348 jovens em todo o estado. Desses, 220 recebem o apoio financeiro e os demais continuam vinculados ao programa mesmo sem a bolsa. Segundo dados operacionais do Ciee-RS divulgados em março de 2025, 92% dos participantes não voltam a cometer atos infracionais.
Júlia é um deles. No começo, resistiu, mas aos poucos foi mudando de ideia. “Elas foram me incentivando a fazer os cursos. A gente foi criando um vínculo de amizade”, conta. Hoje, além do emprego de carteira assinada, faz unhas por conta própria.
O que explica o resultado, na avaliação de quem opera o programa, não é apenas o curso e nem a bolsa, mas principalmente o vínculo entre os jovens e os oficineiros. “Não adianta a gente ofertar milhões de coisas se a gente não tiver o vínculo com eles, não ouvir, não trabalhar em cima dos desejos deles, das vontades, das necessidades”, diz a pedagoga do POD em Porto Alegre, Thaís Goulart.
A coordenadora do programa pelo Ciee-RS, Melânia Lisiak, resume a lógica que norteia o trabalho: “A reincidência não se combate com punição isolada, se combate com oportunidade, com vínculo, oferecendo perspectiva de futuro. Quando a gente acredita no potencial desses jovens e oferece caminhos mais concretos, eles respondem com mudança.”
O programa existe formalmente apenas no Rio Grande do Sul. O Ceará tem uma iniciativa semelhante, mas com acompanhamento de no máximo três meses. Nos outros estados, são projetos isolados, sem continuidade garantida entre governos. “Muda o governo, muda o nome, o programa é descontinuado”, observa Melânia.
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O oficineiro que para a bola para salvar uma vida
A dois mil quilômetros de Porto Alegre, em Belo Horizonte, o programa “Fica vivo!” opera com uma lógica parecida — mas voltada para antes do envolvimento do jovem com o crime. O foco são jovens de 12 a 24 anos que ainda não entraram em conflito com a lei, mas vivem nos territórios onde o crime organizado recruta.
O programa existe desde 2002, atravessou cinco governadores de Minas Gerais e foi institucionalizado por lei estadual em 2019, tornando-se política de Estado. Atendeu 137.279 jovens em 2025 — crescimento de 20% em dois anos.
Nos territórios em que atua, os homicídios na faixa etária atendida caíram 40% em 2025 em relação ao ano anterior, segundo a Secretaria de Justiça e Segurança Pública de Minas Gerais. A peça central do programa é o oficineiro.
Luzimar é grafiteiro desde 1983 e trabalha no “Fica vivo!” desde 2003, quando o programa ainda estava no primeiro ano de expansão. Mora no Aglomerado Cabana, em BH, uma das 35 comunidades nas quais o programa atua.
“O objetivo sempre foi manter os jovens vivos. Por isso o nome”, diz. “O programa abre um diálogo muito importante com a comunidade, que é um lugar de difícil acesso, as pessoas são muito fechadas e estritas dentro da vida que levam. Ter um projeto com diálogo direto assim é muito raro”, complementa.
David Marcelo Silva Mendes, conhecido como MacGyver, cresceu nessa mesma comunidade. Participou do “Fica vivo!” aos 16 anos e, em 2019, virou oficineiro. “Quero levar para os ‘moleques’ aquela mesma sensação que eu tive. Sensação de liberdade, de que é possível”, afirma.
O modelo é territorial e intencional. O Instituto Elo, organização social parceira da secretaria estadual, contrata como microempreendedores individuais lideranças do próprio território — pessoas que os adolescentes já conhecem e respeitam — para conduzir 370 oficinas espalhadas pelo estado.
A bolsa é de R$ 1.320 por mês, um valor que microempreendedores têm liberdade para gerir e, com ele, providenciar o espaço para a oficina, os recursos necessários e o lanche. O futebol é a modalidade mais procurada, mas a bola é só o pretexto.
“O lanche é o momento em que o oficineiro para a bola para fazer algum tipo de intervenção. Como é que você vai falar sobre perspectiva de vida, sobre não envolvimento com criminalidade, só jogando bola? Não conseguiria”, explica a superintendente de Prevenção Social à Criminalidade da secretaria mineira, Flávia Mendes, que está no programa há quase dez anos.
São os oficineiros que percebem quando o clima muda: quando um adolescente chega agitado, com palavreado diferente, com aquele olhar de quem está prestes a tomar uma decisão ruim. Às vezes param a bola antes do lanche, ou dispersam um grupo inteiro de jovens a caminho de conflito com apenas uma fala.
“O que a gente quer é que o adolescente reflita: será que é esse caminho mesmo?”, diz Flávia. O foco do programa não são os jovens mais fáceis, mas aqueles que já romperam o vínculo com tudo: escola, família, serviços públicos.
“Às vezes o único serviço público que esse adolescente acessa é o ‘Fica vivo!’, porque não tem regra nenhuma para participar. Ele só precisa querer estar lá e ser morador do território”, acrescenta Flávia Mendes.
Cada unidade do programa custa entre R$ 700 mil e R$ 800 mil por ano. O principal obstáculo para a expansão é financeiro: municípios pedem o programa todos os dias, mas o orçamento tem limite.
“Jesus entrou no meu sonho”
Patrick Salgado foi líder do Comando Vermelho no Vidigal, comunidade da zona sul do Rio de Janeiro, por mais de uma década. Aos 11 anos, viu a mãe levar 12 tiros do namorado dela e, aos 14, já tinha armas. Passou pelas principais penitenciárias de segurança máxima do país — Bangu 1, 2, 3 e 4. Dentro da Penitenciária Federal de Mossoró, chegou a tentar tirar a própria vida.
Saiu do crime aos 37 anos depois de uma experiência religiosa que descreve com precisão de data: 9 de outubro de 2010. “Jesus entrou no meu sonho e me deu esperança. No dia seguinte, chamei a cúpula no banho de sol e disse: a partir de hoje não quero mais nada.”
Hoje, aos 53 anos, Patrick é um dos fundadores do “01Sobreviventes”, podcast criado por ex-traficantes que passaram décadas presos e agora contam suas histórias para jovens que estão no mesmo caminho que percorreram.
São quatro integrantes, todos ex-líderes do tráfico. O trabalho é voluntário — o que ganham de monetização cobre o estúdio de gravação. Têm mais de 260 mil seguidores no TikTok e 69 mil no YouTube.
Salgado conta que, após ouvir o podcast, líderes armados entraram em contato, se entregaram às autoridades ou simplesmente abandonaram o tráfico. Ele encaminhou 19 pessoas para cursos universitários. “Tem jovens fazendo biomedicina, direito. Estão estudando.”
Nas “bocas de fumo” onde circula para pregar — é pastor evangélico —, o podcast aparece nas televisões. “Eles estão vendo ali a realidade: se você for preso, vai ficar dez anos longe da sua família. É melhor trabalhar, meu irmão.”
O que Salgado, o POD e o “Fica vivo!” têm em comum não é a metodologia, é o diagnóstico. O jovem não entra no crime porque quer o crime. Entra porque o crime oferece o que mais nada oferece: identidade, pertencimento, renda, alguém que o aceita como ele é.
O que funciona para mudar esse caminho é, invariavelmente, uma combinação de vínculo humano real, oportunidade econômica concreta e a sensação de que existe outro lugar onde ele é bem-vindo. Futebol, grafite, fé, R$ 700 por mês. Formas diferentes de buscar o mesmo objetivo.




