Há quase 25 anos, Terry Rockefeller perdeu a irmã, Laura, nos atentados do 11 de Setembro. Desde então, diz que ainda faltam respostas sobre o ataque que matou quase 3.000 pessoas: quem exatamente planejou a operação, como ela foi financiada e por que o sistema americano falhou em impedi-la.
Enquanto essas perguntas permanecem sem resposta para parte das famílias das vítimas, o aparato de segurança criado após os atentados segue intacto —e ativo.
Como consequência do 11 de Setembro, o Congresso ampliou os poderes do presidente para autorizar ações contra organizações terroristas apontadas pela Casa Branca como responsáveis pelos ataques.
Segundo especialistas, o governo Donald Trump recorre hoje aos instrumentos legais e políticos acumulados naquele período para justificar novas operações militares e medidas extraordinárias de segurança nacional.
Para Rockefeller, essa é uma das ironias mais profundas do legado do 11 de Setembro. Sua irmã, atriz e produtora teatral, trabalhava na organização de uma conferência no 106º andar de uma das torres do World Trade Center naquele dia. Tinha planos de visitar a família em Massachusetts após o trabalho, mas nunca voltou.
“O atentado mudou minha vida porque minha irmã morreu e meus pais nunca se recuperaram. Mas eu não queria que meus valores fossem alterados por um crime internacional horrível”, disse Rockefeller à Folha.
Após os atentados, ela se juntou ao Peaceful Tomorrows, organização formada por familiares de vítimas que defende uma resposta não violenta ao 11 de Setembro. “Não me tornei alguém que odeia pessoas. Não me tornei alguém que acredita que os valores americanos devam ser abandonados.”
Ao longo das últimas duas décadas, Rockefeller acompanhou de perto os processos contra os acusados de planejar os atentados. Viajou diversas vezes a Guantánamo e se tornou uma das vozes mais críticas da condução dos julgamentos militares. Hoje, afirma continuar sem as respostas que esperava obter.
Segundo Rockefeller, as discussões sobre Guantánamo, os programas de tortura da CIA e os impasses judiciais acabaram dominando os processos, enquanto questões sobre o planejamento, o financiamento e as motivações dos atentados permaneceram sem resposta satisfatória. Ela considera a Comissão do 11 de Setembro uma conquista das famílias das vítimas, mas diz que o relatório não respondeu às perguntas que considera centrais.
“Não há justiça nem responsabilização para o crime mais horrível já cometido em solo americano”, afirma Rockefeller.
Para Lawrence Husick, pesquisador do Foreign Policy Research Institute e professor da Universidade Johns Hopkins, a comissão foi bem-sucedida ao reconstruir os atentados e identificar as falhas que permitiram sua execução, mas dedicou menos atenção aos objetivos estratégicos de longo prazo da Al Qaeda e do movimento jihadista internacional, o que reduz sua utilidade como instrumento para orientar políticas de segurança voltadas a ameaças futuras.
Em Guantánamo permanecem presos os cinco homens acusados de organizar os atentados, entre eles Khalid Sheikh Mohammed. Os processos seguem marcados por disputas jurídicas. Parte das provas foi comprometida pelos programas de tortura da CIA. Algumas confissões foram consideradas inadmissíveis e, mais de duas décadas depois, ainda não há perspectiva clara de um julgamento definitivo.
“O que falhamos em fazer foi olhar para os erros que cometemos, reconhecê-los e criar algum tipo de responsabilização”, diz Rockefeller.
Essa avaliação encontra eco no trabalho de Yumna Rizvi, analista de políticas públicas do Center for Victims of Torture, em Washington. Para ela, o principal legado da Guerra ao Terror não foi apenas militar, mas institucional. “O que estamos vendo hoje é possível porque nunca houve uma prestação de contas significativa sobre a arquitetura legal e política criada depois do 11 de Setembro”, diz.
Na avaliação da pesquisadora, democratas e republicanos permitiram que os mecanismos criados para combater a Al Qaeda sobrevivessem muito além das guerras do Afeganistão e do Iraque. Guantánamo continua aberta, ataques com drones foram ampliados por governos posteriores e, segundo ela, o Congresso cedeu progressivamente espaço ao Executivo em questões de segurança nacional.
Para Rizvi, um dos efeitos desse processo foi a ampliação do uso da categoria “terrorista” para enquadrar grupos sem relação com os atentados de 2001. Segundo ela, a falta de uma definição universalmente aceita de terrorismo abre espaço para que governos ampliem o uso do termo e justifiquem medidas excepcionais em nome da segurança nacional.
Um exemplo foi a adoção do termo “narcoterrorista” como justificativa dos ataques americanos a embarcações no Caribe, que mataram mais de 200 pessoas e foram um prelúdio da invasão americana na Venezuela para depor e capturar o ditador Nicolás Maduro, hoje preso em Nova York e respondendo por acusações de tráfico de drogas.
Para Rizvi, o problema vai além da expressão. “Eles perceberam o que governos anteriores foram capazes de fazer com pessoas classificadas de terroristas: prendê-las indefinidamente, enviá-las para centros de detenção, realizar ataques contra elas, com praticamente nenhuma responsabilização.”
Facções brasileiras, como PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho), foram classificadas de terroristas pelos EUA no fim de maio, apesar da tentativa do governo Lula de evitar a designação por considerar que ela poderia influenciar nas eleições e gerar riscos de intervenções militares. Nesta quarta-feira (1º), os EUA afirmaram que o PCC é a maior “organização criminosa transnacional do hemisfério ocidental”.
Rockefeller identifica o mesmo fenômeno a partir da experiência de quem acompanhou por décadas os desdobramentos dos atentados. “É essa capacidade de rotular pessoas que me assusta. Esse legado da Guerra ao Terror me assusta.”
Ela também critica a decisão do governo Barack Obama de não promover uma ampla responsabilização pelos abusos cometidos durante a Guerra ao Terror. Em janeiro de 2009, antes de assumir a Presidência, Obama afirmou que era preciso “olhar para frente” em vez de “olhar para trás”.
Rockefeller discorda dessa visão. “A menos que olhemos para trás e reconheçamos os erros que cometemos, não aprenderemos nada com eles. Precisamos olhar para trás para poder seguir em frente. É assim que sociedades ficam mais fortes.”

