Sem distinção política, os colombianos que tiraram do armário as bandeiras e camisas da seleção de futebol para a Copa do Mundo puderam aproveitar os itens para votar para presidente neste domingo (21).
Os símbolos nacionais da Colômbia viraram alvo de disputa dias antes do primeiro turno das eleições presidenciais, quando o ultradireitista Abelardo de la Espriella pediu que seus apoiadores fossem votar com a camisa da seleção no dia 31 de maio.
Neste segundo turno, porém, era difícil identificar um eleitor do advogado de longe. No sudoeste de Bogotá, por exemplo, dezenas de apoiadores do adversário dele, Iván Cepeda, reuniram-se em frente ao local de votação do senador vestindo a camisa e o boné da seleção ou enrolados na bandeira da Colômbia.
A médica Paula Mora, 34, vestia uma camiseta branca com listras nas cores da bandeira colombiana e um detalhe que entregava o seu voto: uma ilustração de Jorge Eliécer Gaitán, um dos vários candidatos à Presidência do país assassinados no século 20. Sua morte, em 1948, desencadeou uma onda de protestos batizadas de Bogotazo e iniciou um período de violência política no país.
“Como o candidato de extrema direita está usando a camiseta da seleção, muitas pessoas se mobilizaram para que ela não seja só de um setor político. Mas para não me confundirem com a extrema direita, eu a simbolizei com esse líder político”, afirma a médica.
A estratégia veio dos apoiadores de Cepeda, que organizaram sessões de serigrafia para ilustrar camisas da seleção com figuras de esquerda. Em retrospecto, está claro que a estratégia foi mais bem-sucedida do que a do próprio senador, que chegou a questionar a Federação Colombiana de Futebol sobre o uso da camisa pelo adversário.
Em uma manifestação na véspera do pleito, neste sábado (20), manifestantes pró-Cepeda distribuíram santinhos do senador no formato de figurinhas de álbum e um panfleto que virava uma tabela para fazer suas apostas nos jogos da Copa. “No segundo turno viramos”, lê-se na frente do material.
Uma virada de Cepeda, que ficou quase três pontos percentuais atrás de Espriella no primeiro turno, seria uma surpresa para analistas e institutos de pesquisa, que mostram o ultradireitista consistentemente à frente do senador.
O clima de “Fla-Flu”, algo inédito em um país que elegeu o seu primeiro presidente de esquerda somente em 2022, era visível no local de votação de Cepeda neste domingo. Em meio aos gritos pelo senador, eleitor provocou entoando o grito do também ultradireitista Javier Milei: “Viva la libertad, carajo!”.
O presidente da Argentina é uma clara inspiração para o candidato colombiano, assim como outros líderes da região, como Jair Bolsonaro, que também usou a camisa da seleção como um símbolo de campanha nas eleições do Brasil.
“Para mim, a frustração foi a extrema direita”, afirma Paula sobre a possibilidade de o aliado do atual presidente, Gustavo Petro, não ser eleito. “Eu já tinha entendido que a direita ia ganhar, mas não pensei que seria um candidato tão polarizador, tão violento. Eu acredito que o poder deve alternar com certa periodicidade, mas não com esse tipo de gente.”
A polarização fez o país registrar um recorde de participação —quase 24 milhões de colombianos participaram do primeito turno. Cepeda, inclusive, teve numericamente mais votos do que Petro na primeira votação de 2022, embora não tenha conseguido alcançar a liderança.
Neste domingo, o país espera apreensivo os resultados. Lojas e bancos, por exemplo, colocaram tapumes em suas vitrines temendo protestos que podem acontecer após a divulgação dos resultados.
Não ajuda o fato de Petro, que denuncia uma suposta fraude no primeiro turno sem apresentar provas, não ter se comprometido a aceitar os primeiros resultados —na Colômbia, há uma contagem prévia divulgada logo após o fechamento das urnas e uma oficial, que normalmente demora alguns dias. As duas apurações coincidiram em quase 100% na votação de 31 de maio.

