Como já era esperado, Thiago Ávila não conseguiu furar o bloqueio israelense a Gaza, mas colheu outras vitórias: tornou seu nome mais conhecido entre os eleitores no Brasil e deu trabalho ao já sobrecarregado sistema penal e judiciário israelense. Em menos de uma semana, o brasileiro passou por três audiências, apresentou recurso ao Tribunal de Apelação e teve seu caso analisado por duas instâncias da Justiça. Neste domingo, 10, foi deportado juntamente com o espanhol-palestino Saif Abu Keshek, o segundo integrante da flotilha detido para investigação.
Diferentemente do que noticiaram a maior parte da imprensa internacional e das redes sociais, os dois “ativistas” não foram sequestrados pela Marinha israelense. Ademais, as acusações contra eles iam muito além da alegada tentativa de furar o bloqueio marítimo de Gaza para entregar ajuda humanitária aos palestinos.
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“Eles foram investigados por prestar auxílio ao inimigo em tempo de guerra e por afiliação a um grupo ligado ao Hamas. Quanto à prisão em águas internacionais, ela está prevista no Direito Internacional. Todas as democracias modernas admitem jurisdição extraterritorial em casos de ameaça nacional ou terrorismo. Os EUA, a França, o Reino Unido e até mesmo o Brasil têm esse tipo de jurisdição. A ideia de que um país não pode atuar fora de seu território não corresponde ao previsto no Direito Internacional moderno”, explicou repetidamente o major Rafael Rozenszjain, porta-voz do Exército de Israel.
Afiliação ao Hamas
Keshek e Ávila são membros da Conferência Popular para Palestinos no Exterior (PCPA), um dos seis organismos ligados ao Hamas que atuam na mobilização de ativistas e na captação de recursos internacionalmente. Criada em 2018, a entidade é designada como organização terrorista por Israel e pelos Estados Unidos e é monitorada pela Inteligência israelense.
Em setembro de 2025, após a passagem da primeira flotilha Sumud pela região — que também foi encerrada com a deportação de seus integrantes —, as autoridades israelenses publicaram um relatório com documentos que apontam o envolvimento direto do Hamas na coordenação e no financiamento da iniciativa.
O mesmo relatório, disponível no site do governo de Israel sob o tópico “incitação e terror palestino”, cita Keshek. Seu histórico é mais robusto do que o de Ávila: ele é apontado como um dos líderes do PCPA, atua na ligação entre oficiais seniores do Hamas e atores internacionais e também na facilitação de transferências financeiras. Foi preso anteriormente no Egito e na Tunísia. Com essas informações, torna-se mais fácil compreender qual o olhar de Israel perante a movimentação da dupla — e também por que a mobilização internacional em torno de sua libertação se apoiou em versões bastante incompletas dos fatos.
Vexame e fake news
As duas flotilhas organizadas ao longo do último ano contaram com um orçamento generoso, capaz de sustentar inclusive campanhas bem estruturadas na mídia e nas redes sociais. O público brasileiro acompanhou vídeos emocionados da esposa de Ávila, imagens bem-editadas do ativista com a filha do casal, denúncias de tortura em centenas de canais, apelos ao governo brasileiro e ataques aos “sionistas”. O Itamaraty e a ONU “exigiram” sua libertação imediata. Não foram atendidos.
As fake news e os exageros também tiveram papel central. Circularam notícias de que Ávila poderia até receber pena de morte — especificamente por enforcamento. A hipótese não fazia sentido jurídico: a recente legislação israelense sobre pena capital se aplica exclusivamente a casos de terrorismo envolvendo assassinato de israelenses.
Além disso, o único condenado enforcado pela Justiça de Israel em sua história foi Adolf Eichmann, um dos principais responsáveis pela máquina de extermínio nazista durante a Segunda Guerra Mundial.
No país, a prisão de Ávila e Keshek despertou mais interesse no Hamas — que divulgou uma nota em agradecimento à dupla — do que entre os israelenses. Ainda assim, dois episódios repercutiram localmente. O primeiro foi a alegação das advogadas de defesa de Ávila de que ele teria sido capturado enquanto participava de uma pescaria no mar da Grécia. O segundo foi a divulgação de um vídeo em que o brasileiro aparenta fingir estar algemado ao ser conduzido para sua primeira audiência.
Sob a histeria das redes sociais brasileiras e a cobertura relativamente discreta em Israel, a deportação da dupla ocorreu durante a madrugada de domingo. A próxima flotilha deve ser anunciada em breve e organizada.
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