Sob Trump, EUA viveram década de polarização e radicalismo – 03/07/2026 – Mundo

Na primeira vez que o jornalista e escritor Kurt Andersen ouviu falar em Donald Trump, ele estava na redação da revista Time, em Nova York, em 1985. Um amigo, o também jornalista Graydon Carter, acabara de voltar de uma entrevista que fizera para um perfil de um espalhafatoso empresário nova-iorquino do ramo imobiliário.

“Ele não era famoso de modo algum”, relembra Andersen. “E aí o Graydon me falou sobre ele e sobre tudo que ele era na época —e continua sendo.”

Pouco tempo depois, Andersen e Carter deixariam a Time para fundar a revista satírica Spy, que se dedicava a tirar sarro de personalidades da mídia e política americana e da alta sociedade, especialmente a de Nova York. A publicação foi uma das primeiras a retratar Trump com frequência em suas páginas.

“Ele era uma piada local. Ficou mais famoso [depois], mas era uma figura ridícula e perfeita para uma revista satírica nos anos 1980 —bolsa de valores estourando, a ostentação voltou, Nova York está de volta, todas essas coisas da época que ele, à sua maneira, representava”, diz Andersen.

Uma das marcas da revista, relembra o jornalista, era sempre se referir aos famosos por um epíteto específico. “Um dos meus favoritos era o do [Henry] Kissinger”, diz, sobre o ex-secretário de Estado e homem forte da diplomacia americana por décadas. “A gente chamava ele de ‘o criminoso de guerra socialite’. E achávamos engraçado porque sempre nos referíamos a uma pessoa da mesma maneira, e para Trump, escolhemos ‘o brucutu de dedo curto’.”

A piada de que Trump teria mãos pequenas, que nasceu na Spy, seguiu o bilionário por décadas e o assombrou mesmo quando entrou para a política. Em 2016, durante as primárias republicanas em que, surpreendendo analistas, Trump conquistaria a candidatura à Presidência, Marco Rubio —hoje secretário de Estado— tirou sarro do empresário pelo tamanho de suas mãos.

Andersen conta que, quando viu a sua piada ganhar vida própria, não acreditou. “No debate entre os candidatos [da primária], Trump disse que não tinha dedos curtos nem nenhum problema lá embaixo. Eu fiquei tipo: isso é real? Estou ficando maluco? Essa piadinha que a gente criou há 30 anos de repente foi parar na política”, afirma. “E originalmente não era uma coisa sexual. Era só uma observação, tipo, caramba, pra um cara que mede quase 1,90m, esse sujeito tem dedos muito curtos mesmo.”

O jornalista diz que, nos anos 1980 e 1990, Trump, em mais de uma ocasião, enviou fotos das próprias mãos para Graydon Carter a fim de tentar refutar a zombaria. “A gente ficou tipo, cara, isso realmente mexeu contigo”, afirma Andersen.

A anedota revela um traço da personalidade de Trump que, segundo Andersen, manteve-se inalterada ao longo das décadas e só se tornou mais forte quando o bilionário chegou à Casa Branca: seu ressentimento e longa memória a respeito de pessoas que se opuseram a ele. “Eu já disse isso muitas vezes: tudo o que ele é hoje já estava aparente 40 anos atrás. Nada me surpreendeu.”

Trump circulou às margens da política americana muito antes de se candidatar à Presidência. Em 1987, gastou US$ 95 mil (equivalente a US$ 276 mil hoje, ou R$ 1,4 milhão) para publicar um anúncio de página inteira em diversos jornais de Nova York argumentando que os EUA deveriam parar de proteger militarmente países que podem pagar por sua própria defesa, como o Japão.

O texto repete pontos que se tornaram centrais para a política externa do governo Trump 40 anos depois: “Por décadas, esses países se aproveitaram dos Estados Unidos. Mas nenhum dos problemas da estratégia militar americana é tão grave que não possa ser resolvido com um pouquinho de firmeza”, escreveu o bilionário na época.

Já em 1989, Trump voltou a gastar milhares de dólares com anúncios em jornais para pedir a volta da pena de morte no estado de Nova York depois que cinco jovens, quatro negros e um latino, foram presos e falsamente acusados de estuprar uma mulher branca no Central Park. O caso ficou célebre pelos graves erros judiciais e abuso policial que levaram a longas prisões para alguns dos envolvidos.

Mas foi em 2015 que Trump fez sua entrada definitiva ao centro da arena política, de onde nunca mais saiu. Descendo a escada rolante dourada da Trump Tower, prédio que leva seu nome em Manhattan, o empresário anunciou que concorreria à Presidência dos EUA para “tornar a América grandiosa de novo”.

“Nosso país tem graves problemas. Ninguém nos respeita. Somos motivo de piada no mundo todo, e nossos políticos só falam e não fazem nada”, disse Trump na ocasião. “Eles nunca vão conseguir consertar nosso país, e eu não posso mais ficar parado e assistir a essa incompetência toda.”

Aquele momento inaugurou uma década em que a política americana, como em muitas partes do mundo, mergulhou em uma espiral de polarização e radicalismo. De muitas maneiras, o período foi definido por Trump, mesmo quando ele estava fora do poder.

Depois de surpreender analistas ao vencer as eleições de 2016, Trump surpreendeu-os de novo ao desafiar expectativas de que sua carreira política estava enterrada após a invasão do Capitólio, em 2021. Nenhum político convencional poderia sobreviver depois de perder uma eleição tão importante e encorajar seus apoiadores a invadir a sede do Legislativo em uma tentativa de reverter o resultado —mas o bilionário nunca foi um político convencional.

“Isso aconteceu porque Trump é como o líder de uma seita”, diz o filósofo americano Jason Stanley, da Universidade de Toronto. “E porque ele tem uma enorme máquina por trás dele, a Fundação Heritage [think-tank americano de direita] que fez com que ele pudesse manter o apoio que tinha porque representava essa vingança contra o sistema.”

Para Stanley, a força política imensa de Trump tem como base a política de ressentimento da qual ele se aproveita. “Ele foi visto como alguém que entendia que o sistema estava quebrado. Não dá pra ter uma democracia com a distância enorme entre ricos e pobres, porque isso gera ressentimento. E um autocrata é capaz de canalizar esse sentimento e direcioná-lo a bodes expiatórios —pessoas negras, imigrantes, pessoas LGBTQIA+, qualquer um menos as forças responsáveis por tanta pobreza, que é a classe dos bilionários.”

“Quanto as pessoas estão fartas do sistema, elas querem alguém que deixe a elite desconfortável”, prossegue Stanley. “Alguém que provoque a esquerda. Os apoiadores de Trump sabiam que as pessoas que se beneficiam do sistema odiavam Trump, achavam ele um bruto. E a satisfação que tiveram ao votar nele não foi melhores serviços ou uma economia melhor, mas sim a provocação contra a esquerda.”

Esse ressentimento também explica a sobrevivência de Trump frente a tantos escândalos. Um mês antes das eleições de 2015, a imprensa americana publicou uma gravação de Trump, feita em 2005, na qual o republicano dizia que podia “agarrar [mulheres] pela vagina” e que “quando se é uma celebridade, elas deixam você fazer isso”.

A conversa recebeu críticas até mesmo de correligionários de Trump, com alguns deles pedindo que o bilionário abandonasse a corrida eleitoral. A reação do candidato foi dizer que não renunciaria, que tratava-se apenas de “conversa de vestiário”, e que o ex-presidente Bill Clinton, marido de sua adversária, Hillary Clinton, já havia dito coisa muito pior —em referência aos escândalos sexuais envolvendo o democrata,

De uma forma ou de outra, a gravação não impediu que Trump vencesse Hillary em 30 estados, tornando-se o 45º presidente americano.

“Os escândalos acabam fortalecendo-o, porque as pessoas odeiam o sistema”, afirma Stanley. “Elas ficam felizes porque aqueles que dizem que Trump é perigoso saem humilhadas, saem perdendo. É como pão e água para esses apoiadores.”

Para o filósofo, Trump se comporta como um autocrata que não pretende deixar planos claros para sua sucessão. “Perceba que ele nunca tentou aumentar seu apoio. Nunca tentou conquistar novos eleitores. Isso significa que ele acha que eleições vão ser irrelevantes no futuro próximo. Não importa se [o vice-presidente] J. D. Vance é um sucessor popular ou não. É uma corrida contra o tempo para consolidar poder e tornar a opinião pública irrelevante”, afirma Stanley.

Para Kurt Andersen, o jornalista e escritor, Trump tem prazer em humilhar e ser cruel com subordinados, o que ajuda a explicar suas afirmações de que tanto Vance quanto Rubio seriam bons sucessores, evitando apoiar qualquer um de maneira mais enfática. Mas haveria outra razão.

“Ele só se importa consigo mesmo. Não está nem aí que o partido que ele capturou e humilhou provavelmente vai ser destruído depois do seu mandato. Ele não se importa com o que acontece depois dele, porque ele não quer que haja um depois dele. Na cabeça dele, é ‘après moi, le déluge’ [depois de mim, o dilúvio, frase associada ao rei francês Luís 15].”

Veja a matéria completa aqui!

- Publicidade - spot_img

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui