A Rússia quer ampliar a presença no setor nuclear brasileiro e já discute a possibilidade de participar da construção de novas usinas no país. O ministro do Desenvolvimento Econômico da Rússia, Maxim Reshetnikov, apresentou a proposta durante uma reunião da Comissão Intergovernamental Russo-Brasileira de Comércio e Cooperação Econômica, Científica e Técnica, realizada em Brasília em 25 de maio.
De acordo com a agência de notícias russa Interfax e o portal Russia’s Pivot to Asia, Reshetnikov afirmou que a estatal Rosatom vê oportunidades para expandir a atuação no Brasil. “Na área de energia nuclear, a Rosatom atende plenamente às necessidades das usinas nucleares brasileiras e fornece radioisótopos necessários para pesquisa científica e atendimento de saúde”, afirmou. “Vemos perspectivas na área de construção de novas unidades de energia projetadas na Rússia, tanto de grande quanto de pequena capacidade.” Os radioisótopos são materiais radioativos utilizados em pesquisas e na medicina nuclear, sobretudo em exames diagnósticos e tratamentos de doenças como o câncer.
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O interesse da Rússia ocorre em meio à tentativa do Kremlin de ampliar as relações econômicas e tecnológicas com países emergentes da América Latina, da África e da Ásia, depois de perder espaço em diversos mercados ocidentais desde o começo da invasão da Ucrânia, em 2022.
A parceria entre os dois países no setor nuclear já vem sendo ampliada nos últimos anos. No fim de 2022, por exemplo, a Tekhsnabexport (Tenex), subsidiária da Rosatom, firmou contrato com a Indústrias Nucleares do Brasil (INB) para prestar serviços de enriquecimento de urânio destinados à produção de combustível para as usinas de Angra dos Reis até 2027. Outra subsidiária da estatal russa fornece ao Brasil produtos isotópicos utilizados na medicina nuclear.
Em fevereiro deste ano, o vice-presidente Geraldo Alckmin participou em Brasília do Fórum Empresarial Brasil-Rússia ao lado do primeiro-ministro russo, Mikhail Mishustin. Os dois governos defenderam a ampliação da cooperação bilateral em áreas estratégicas, incluindo o uso pacífico da energia nuclear.
As sanções impostas à Rússia
Em 2024, o Congresso dos Estados Unidos aprovou a Lei de Proibição das Importações de Urânio, destinada a restringir as compras norte-americanas do produto russo. Apesar disso, Washington manteve exceções para evitar impactos imediatos no abastecimento doméstico, com permissões válidas até o fim de 2027.
Segundo o CSIS, a Rússia possui atualmente pelo menos 20 unidades nucleares em construção em sete países: Bangladesh, China, Egito, Hungria, Índia, Irã e Turquia.
No Brasil, além das usinas de Angra dos Reis, o governo brasileiro discute projetos ligados ao ciclo do combustível nuclear, à expansão da geração elétrica e ao desenvolvimento de tecnologias associadas ao setor.


O Brasil também reúne uma das maiores reservas de urânio do mundo e domina etapas relevantes do ciclo de produção do combustível nuclear, fator que aumenta sua importância estratégica no mercado internacional.
Nos últimos anos, a cooperação entre Brasília e Moscou deixou de se restringir ao fornecimento de combustível para as usinas existentes e passou a incluir discussões sobre novos reatores, radioisótopos para pesquisa e medicina e possíveis projetos de expansão da infraestrutura nuclear.
Desde o começo da guerra na Ucrânia, governos dos EUA e da União Europeia (UE) adotaram sucessivos pacotes de sanções contra setores estratégicos da economia russa. A energia permanece entre os principais instrumentos de influência internacional do Kremlin.
Nos últimos anos, Washington também utilizou tarifas e restrições comerciais para pressionar países que mantêm relações econômicas com Moscou. O tema ganhou relevância sobretudo em mercados ligados à energia e a commodities estratégicas.
Embora o Brasil mantenha oficialmente um programa nuclear voltado para fins pacíficos e seja signatário de acordos internacionais de não proliferação, o avanço da cooperação com a Rússia tende a ser acompanhado com atenção por governos ocidentais.
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