A estratégia de Trump em torno do Irã e dos Acordos de Abraão parece ter mais relação com a construção de um legado pessoal do que com um projeto consistente de paz para o Oriente Médio. O que move o presidente americano é a necessidade de produzir algum tipo de desfecho para uma guerra impopular e economicamente desgastante que os próprios Estados Unidos ajudaram a aprofundar.
Nesse tabuleiro, Israel sequer aparece como protagonista estratégico: torna-se um ator dependente do humor político e dos interesses circunstanciais da Casa Branca.
Nas últimas semanas, Trump passou a pressionar países árabes e muçulmanos, incluindo Arábia Saudita, Qatar e até o próprio Irã, a aderirem aos Acordos de Abraão. A retórica é típica do trumpismo: grandiosa, personalista e centrada na ideia de um “grande acordo histórico”.
Por trás da linguagem performática, porém, existe um dado concreto: Washington demonstra fadiga em relação à guerra e busca encerrar frentes de conflito antes que produzam desgaste ainda maior.
Ao apostar em arranjos conduzidos diretamente por Washington, Trump parece tentar substituir organismos multilaterais tradicionais, especialmente a ONU, por coalizões sob liderança norte-americana direta. São espaços em que os Estados Unidos não precisam dividir protagonismo com China, Rússia ou Europa.
Durante anos, Binyamin Netanyahu vendeu à sociedade israelense a ideia de uma aliança inabalável com os Estados Unidos contra o Irã. Foi essa lógica que sustentou sua oposição ao acordo nuclear de Barack Obama, sua proximidade quase simbiótica com Trump e a defesa permanente de políticas de pressão máxima contra Teerã. Só que agora a realidade é outra.
Trump não age como alguém interessado em travar uma longa guerra ao lado de Israel, mas como alguém obcecado por produzir a imagem de “pacificador global” capaz de render capital político e, talvez, um Prêmio Nobel da Paz.
Os interesses americanos e israelenses começam a entrar em conflito de forma cada vez mais evidente. Para Trump, um acordo parcial com o Irã já pode ser entendido como vitória. Para Netanyahu, qualquer acordo que não elimine a produção nuclear iraniana representará derrota estratégica. O governo israelense parece ter perdido parte importante de sua capacidade de influenciar Washington.
O desgaste é ainda maior porque a guerra não produziu a imagem de vitória absoluta prometida pelo governo israelense. O Hamas foi atingido brutalmente, mas não desapareceu. O Hezbollah demonstra capacidade de resistência. O trauma dos reféns continua exposto. O Irã permanece como potência regional capaz de produzir instabilidade global. O peso de 7 de outubro ainda paira sobre a sociedade israelense como uma ferida política e moral que não sara.
Isso afeta também judeus da diáspora. No Brasil, como em outros países, comunidades judaicas vivem um momento delicado. O crescimento do antissemitismo global desde 7 de outubro caminhou lado a lado com a dificuldade crescente de separar identidade judaica, Estado israelense e decisões específicas do gabinete Netanyahu.
Em espaços públicos, judeus passaram a ser cobrados coletivamente por ações do governo israelense, inclusive por pessoas que se dizem progressistas e defensoras de direitos humanos.
Um dos maiores danos dessa guerra talvez seja justamente a simplificação do debate público. Apoiar a existência de Israel não deveria significar endossar automaticamente todas as decisões de seu governo, assim como criticar Netanyahu não deveria servir de licença moral para normalizar antissemitismo, violência simbólica ou relativização do massacre de 7 de outubro.
Enquanto Trump transforma diplomacia em espetáculo pessoal, e Netanyahu luta pela própria sobrevivência política, Israel se vê em uma situação de isolamento internacional, tensões sociais sem precedentes e uma crise democrática e institucional inédita, cada vez mais distante da imagem de estabilidade democrática que historicamente buscou projetar.

