Nesta quinta-feira (14), o segundo dia do Fórum Unesp foi dedicado à discussão da China na academia e terminou com uma conversa entre Mo Yan, vencedor do Nobel de Literatura, e Milton Hatoum, imortal da Academia Brasileira de Letras. O encontro fez parte de uma programação mais ampla que, ao longo de três dias, também abordou geopolítica, economia e a presença internacional chinesa.
O autor de “As Rãs” chamou o escritor manauara de “irmão mais velho” e lembrou de quando visitou o rio Amazonas, na sua primeira vez no Brasil, em 2014. “A obra de Hatoum reflete o que ele viveu na margem do rio. A sua obra tem essa profundidade, é vasta e grandiosa”.
Para Hatoum, a literatura transcende fronteiras. “Ela derruba barreiras culturais e linguísticas. É por isso que estamos aqui, eu e meu irmão mais jovem, falando de livros que lemos graças às traduções. Você lê um romance ambientado numa aldeia na China e entende a cultura daquele lugar. Você pode se identificar com aquilo”.
Mo Yan é um dos autores chineses mais conhecidos no Ocidente, e sua carreira foi alavancada com a adaptação do livro “Sorgo Vermelho”, em 1987, por Zhang Yimou, vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim. Desde então, ajudou a internacionalizar a literatura do país, em um movimento mais amplo de projeção cultural chinesa.
Nesta quinta, a China ganhou as manchetes pela visita de Donald Trump, mas ele não opinou sobre os caminhos da parceria com os Estados Unidos. “Sou apenas um escritor e essa é uma questão política”, disse em entrevista coletiva.
“Tanto a China quanto os EUA são grandes potências. O início de novos diálogos é uma boa notícia para o mundo. Até onde isso vai? Não sabemos, precisamos esperar com paciência, mas acredito que o diálogo traz progresso”.
A visita de Mo Yan ao Brasil ocorreu em um contexto mais amplo de intensificação das relações culturais entre os dois países, no ano cultural Brasil-China, estabelecido após a visita do dirigente Xi Jinping em 2024. No segundo semestre, a Unesp vai inaugurar o curso de bacharelado em língua e cultura chinesa, no campus de Assis (SP).
Além disso, são comemorados os 18 anos da parceria da universidade com o Instituto Confúcio, instituição ligada a Pequim que atua no ensino da língua no país. Para o presidente da fundação, Luís Antonio Paulino, a difusão do estudo da China no ambiente universitário ainda é incipiente.
“A tradição da sinologia brasileira vai requerer muito tempo e investimento. Não podemos basear a nossa leitura da China a partir de terceiros, sobretudo do pensamento americano e europeu. Portanto, é fundamental o estudo da língua por aqui”.
Nessas quase duas décadas, cerca de 30 mil pessoas estudaram chinês pela instituição, e 800 alunos fizeram intercâmbios com a Universidade de Hubei, em Wuhan. O pesquisador e professor de português na Universidade de Macau, Giorgio Sinedino, reforçou essa leitura em dois painéis do evento.
“Nós precisamos passar pela via-crúcis de aprender a língua chinesa. Dessa forma, vamos dispensar intermediários estrangeiros e conseguir construir uma sinologia brasileira. Além disso, precisamos de novos intérpretes do Brasil na China”.
Segundo ele, cerca de 60 universidades oferecem português nas suas grades curriculares na China. Na última década, ele acompanhou o crescimento das traduções e da popularidade de autores como Clarice Lispector, que teve sua obra adaptada ao chinês. Guimarães Rosa também vem ganhando destaque.
O pesquisador ainda resgatou o passado da relação comercial entre os dois países, que data do início do século 19, com a venda e o cultivo de chá. “Nós mantemos uma relação paradoxal, na qual reconhecemos a sua importância econômica, mas não o seu aspecto cultural. A presença da China é complexa —e o que ela tem de duradoura na nossa cultura, ela tem de marginal”.
Para o escritor Suonan Cairang, o imaginário da China no exterior ainda é repleto de estereótipos. Nascido na província de Qinghai, na divisa com o Tibete, ele representa uma nova geração de autores chineses com circulação internacional.
O seu conto “À Procura de Sinal” faz parte da coletânea “A Nova Literatura Chinesa”, publicada pela Editora Unesp. Traduzida para nove idiomas, a obra reúne textos da revista Literatura do Povo, editada pela organização governamental Associação dos Escritores da China (AEC).
Ao viajar para outros lugares, Suonan aponta como as referências sobre o país são restritas: “As pessoas pensam na China e imaginam lanternas vermelhas e kung fu. Precisamos evitar estereótipos e promover traduções de livros. Ainda assim, nenhuma obra literária vai conseguir representar a China como um todo, são 5.000 anos de história”.
O encontro se encerrou nesta sexta-feira (15), com o bate-papo entre Ailton Krenak, Antônio Carlos Secchin e Ana Maria Machado. Durante os três dias de conferência, passaram pelo Memorial da América Latina nomes como Lilia Schwarcz e Rui Tavares.
Para além das discussões culturais, o fórum abordou a crise energética, questões geopolíticas e econômicas, em um momento de maior atenção global à China e às suas relações com o Ocidente. Até domingo (17), cerca de 70 mil pessoas devem circular pela feira do livro, que também integra a programação.

