Avanço da longevidade, profissionalização da atividade e maior planejamento familiar fortalecem redes especializadas em assistência domiciliar

O envelhecimento da população brasileira começa a redesenhar um dos temas mais sensíveis da vida familiar: o cuidado. Com expectativa de vida em 76,6 anos, o maior patamar da série histórica do IBGE, e crescimento de 57% da população acima de 65 anos em pouco mais de uma década, a assistência domiciliar passa a ocupar espaço cada vez mais relevante na rotina das famílias e no mercado de serviços.
A mudança não é apenas demográfica. Ela também reflete uma nova configuração familiar. Filhos morando em outras cidades ou países, jornadas profissionais mais longas e menor disponibilidade para acompanhar pais idosos no dia a dia tornaram o cuidado uma decisão que envolve planejamento, estrutura e preparo técnico.
Na prática, o serviço deixa de ser acionado apenas em situações de emergência e passa a ser visto como parte da organização familiar. A busca por cuidadores profissionais cresce à medida que as famílias entendem que o acompanhamento de idosos, pessoas em recuperação ou pacientes com limitações exige qualificação, rotina e supervisão.
Em entrevista à Jovem Pan Business, Jéssica Ramalho, CEO da Acuidar, afirma que esse movimento está diretamente ligado ao maior acesso à informação. “Muitas famílias contratavam empregadas domésticas para também cuidar de idosos, mas essas pessoas não tinham o conhecimento técnico necessário”, diz. Segundo ela, a ampliação dos cursos, a profissionalização da atividade e a maior exposição do tema ajudaram a reposicionar o cuidador como parte importante da assistência em saúde.
Essa mudança também reduziu a resistência das famílias em receber um profissional dentro de casa. Para Jéssica, o tema passou a ser tratado com mais naturalidade. “Essa conscientização faz com que as famílias abram as portas com mais tranquilidade para que os cuidadores possam entrar”, afirma.
Outro comportamento em transformação é o momento da contratação. Se antes a busca por ajuda costumava acontecer no limite, diante de uma queda, internação ou agravamento de saúde, agora parte das famílias começa a se antecipar. De acordo com a executiva, já há pessoas de 40 e 45 anos interessadas em entender como se preparar para o futuro e garantir esse tipo de suporte quando necessário.
A trajetória de Jéssica no setor começou ainda na infância, quando precisou ajudar no cuidado do próprio pai, que enfrentava comorbidades. “Eu criei um caderno, que era o diário da cuidadora, onde anotava tudo que acontecia com ele”, conta. A prática, que na época era informal, hoje se aproxima dos protocolos de acompanhamento adotados por empresas especializadas.
A experiência também ajudou a revelar uma lacuna recorrente no mercado: a falta de preparo técnico. Como fisioterapeuta, Jéssica afirma ter acompanhado casos em que o cuidado era realizado sem critérios adequados, o que impactava diretamente a qualidade de vida dos assistidos. A partir dessa percepção, a qualificação dos profissionais passou a ser um dos pilares do modelo de atuação da Acuidar.
Segundo a CEO, a seleção de cuidadores envolve análise de currículo, checagem de referências, verificação de antecedentes, provas teóricas e práticas, além de avaliação comportamental. “O cuidador precisa estar preparado tecnicamente, mas também precisa saber lidar com a rotina da família e com as necessidades emocionais do assistido”, afirma.
A compatibilidade entre cuidador e paciente também ganhou importância. O atendimento passou a considerar características individuais, perfil comportamental, tipo de demanda, rotina da casa e nível de dependência de quem será assistido. Para manter a padronização, empresas do setor têm apostado em visitas de supervisão, avaliações periódicas e critérios de desempenho.
Esse avanço acompanha a expansão de um mercado em ritmo acelerado. Fundada em 2016, a Acuidar se consolidou como uma das principais redes do segmento e ocupa hoje a posição de maior franquia de cuidadores da América Latina. A empresa ultrapassa 320 unidades em operação e registra mais de 3,7 milhões de assistências realizadas.
Em 2025, a rede faturou mais de R$ 243 milhões, crescimento de 34% em relação ao ano anterior. Para a empresa, o resultado reflete a combinação entre maior demanda por cuidado profissional, suporte aos franqueados, qualificação da mão de obra e uso de tecnologia para organizar a operação.
A próxima etapa envolve expansão nacional e internacional. A Acuidar projeta chegar a 400 unidades e iniciar a operação fora do Brasil por Portugal. A rede também prepara o lançamento de um e-commerce próprio, pelo qual clientes poderão contratar diárias, adquirir planos e solicitar orçamentos de forma digital.
Mais do que uma resposta ao envelhecimento da população, o crescimento do setor indica uma mudança cultural. O cuidado profissional deixa de ser visto como exceção e passa a integrar o planejamento das famílias, em um mercado que combina demanda social, profissionalização e novas oportunidades de negócio.

