Lula quer investir na relação com Trump para conter “falsidades”

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, em entrevista ao jornal The Washington Post publicada neste domingo (17), que pretende aprofundar sua relação pessoal com o chefe do Executivo dos Estados Unidos, Donald Trump, para neutralizar o que chamou de “falsidades” disseminadas por Eduardo Bolsonaro sobre o Brasil e sobre sua gestão junto ao governo americano.

Na entrevista, concedida em 7 de maio na Casa Branca após o encontro com o republicano, Lula afirmou que manter um canal direto com Trump é uma forma de reduzir tensões diplomáticas, evitar novas tarifas comerciais e impedir que aliados da família Bolsonaro influenciem a política externa dos Estados Unidos contra o Brasil.

“Eu nunca pediria ao Trump para não gostar do Bolsonaro. Isso é problema dele”, disse Lula ao jornal americano. “Eu não preciso fazer esforço nenhum para ele saber que sou melhor do que Bolsonaro. Ele já sabe disso”, argumentou.

A declaração ocorreu após uma mudança na relação entre Brasília e Washington. Há menos de um ano, Trump havia imposto tarifas de 50% sobre produtos brasileiros e aplicado sanções contra autoridades do país em reação ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe de Estado.

Segundo o Washington Post, Lula agora tenta transformar a reaproximação com Trump em um ativo político às vésperas da disputa presidencial de outubro, que deve colocá-lo diante do senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato pelo PL.

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Investimentos, pragmatismo e soberania

Desde setembro do ano passado, os dois líderes já se encontraram três vezes e conversaram por telefone em quatro ocasiões. O americano passou a elogiar Lula publicamente, chamando-o de “dinâmico” e “inteligente”, além de aliviar parte das tarifas e suspender sanções aplicadas anteriormente ao Brasil.

Segundo o petista, a relação pessoal com Trump pode ajudar o Brasil a atrair mais investimentos americanos, reduzir riscos de novas taxações e garantir respeito internacional à democracia brasileira. Lula afirmou que as divergências ideológicas entre os dois permanecem profundas, mas não devem impedir uma relação pragmática entre os governos.

Na visão de Lula, a deterioração das relações diplomáticas no ano passado ocorreu justamente pela percepção de interferência americana em assuntos internos do Brasil. O presidente brasileiro voltou a dizer que não aceitará pressões externas sobre decisões do Judiciário ou sobre o processo contra Bolsonaro.

“Quem abaixa a cabeça pode não conseguir levantá-la novamente”, afirmou Lula, ao recordar um ensinamento de sua mãe, Dona Lindu. “O Brasil tem muito orgulho do que é. Nós não temos que nos curvar a ninguém.”

Em outro momento, Lula reforçou o discurso de soberania nacional que passou a adotar após o agravamento das tensões com Washington em 2025. “O que eu quero é que ele trate o Brasil com respeito, entendendo que eu sou o presidente democraticamente eleito aqui.”

“Consegui fazer Trump sorrir”, diz Lula

O presidente relatou ao jornal detalhes do encontro recente na Casa Branca. Segundo ele, ao caminhar ao lado de Trump pelo corredor com retratos presidenciais, brincou com a expressão séria do americano nas fotos. “Você não sabe sorrir?”, perguntou Lula, segundo seu próprio relato.

Trump respondeu que eleitores preferem líderes sérios. Lula rebateu: “Só durante a eleição. Agora que você está governando, pode sorrir um pouco. A vida fica mais leve quando sorrimos.”

A partir desse episódio, Lula resumiu sua estratégia diplomática em uma frase que virou destaque da entrevista: “Se eu consegui fazer Trump rir, posso conseguir outras coisas também.” E acrescentou: “Você não pode simplesmente desistir.”

Multilateralismo e ascensão da direita

O Washington Post destacou que a postura marca uma ruptura em relação ao alinhamento automático mantido por Bolsonaro com Trump durante seu governo. Segundo o veículo, Lula tenta se apresentar como um líder capaz de dialogar com a direita global sem abandonar posições históricas da esquerda latino-americana.

A entrevista também citou a visão de Lula sobre a crise do multilateralismo e sobre a ascensão global de movimentos populistas de direita. O presidente afirmou que democracias perderam apoio popular ao deixarem de responder às demandas mais básicas da população.

“A democracia falhou quando deixou de responder às aspirações mais básicas das pessoas”, disse. “Então qualquer idiota que fale contra o sistema acaba sendo aplaudido”, criticou.

Facções criminosas, Irã e bomba nuclear

Uma das maiores preocupações de Lula é com a política externa de Trump para a América Latina, sobretudo diante da possibilidade de os Estados Unidos classificarem facções brasileiras como PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras — medida defendida por aliados de Flávio Bolsonaro. “Os Estados Unidos não vão fazer isso com o Brasil”, afirmou o mandatário.

O presidente também criticou a postura de confronto de Trump em relação ao Irã. Lula disse que entregou pessoalmente ao americano uma cópia do acordo nuclear negociado em 2010 entre Brasil, Turquia e Irã, tentando convencê-lo de que Teerã não estaria reconstruindo um programa nuclear militar.

“Não é verdade que o Irã está novamente tentando construir uma bomba atômica”, afirmou Lula. Segundo ele, Trump prometeu ler o documento. E reforçou: “Trump sabe que eu me oponho à guerra com o Irã, discordo da intervenção dele na Venezuela e condeno o genocídio que está acontecendo na Palestina”, afirmou. “Mas minhas divergências políticas com Trump não interferem na minha relação com ele como chefe de Estado.”

Para o brasileiro, a política externa americana baseada em confronto começa a produzir efeitos negativos inclusive dentro dos Estados Unidos. “Trump tem responsabilidade por isso”, disse, em referência ao aumento de preços para consumidores americanos decorrente das disputas comerciais e geopolíticas.

Lula revela incômodo com perda de espaço dos EUA para China

Em outro trecho, Lula afirmou que deseja uma relação mais equilibrada dos EUA com a América Latina e indicou incômodo com o espaço perdido pelos americanos para a China na região.

“A China descobriu e entrou na América Latina”, afirmou. “Hoje, meu comércio com a China é duas vezes maior do que meu comércio com os Estados Unidos. E essa não é a preferência do Brasil.”

“Se os Estados Unidos quiserem voltar para a frente da fila, ótimo”, acrescentou. “Mas eles precisam querer isso.”

Apesar do tom conciliador em relação a Trump, Lula afirmou permanecer preocupado com o enfraquecimento das instituições multilaterais e com o avanço da polarização internacional. Ainda assim, disse acreditar que a negociação continua sendo o único caminho possível.

“Espero que Trump possa ser convencido de que os Estados Unidos podem desempenhar um papel muito mais importante fortalecendo a paz, a democracia e o multilateralismo”, afirmou. “Vai ser difícil? Sim. Mas se eu não acreditasse na persuasão, eu não estaria na política.”

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