Longe do poder desde a queda de seu regime, Bashar al-Assad leva uma vida isolada em Moscou, protegido pelas autoridades russas e praticamente desaparecido da vida pública. O ex-ditador sírio divide seu tempo entre uma cobertura de luxo em Moscow City, complexo de arranha-céus de alto padrão da capital russa, e uma mansão na região de Rublyovka, reduto da elite política e econômica do país, conforme relata o ynet. Tudo financiado pelos milhões de dólares acumulados durante as décadas em que comandou a Síria.
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Embora mantenha essa fortuna, Assad vive cada vez mais solitário. A Rússia já estabeleceu relações com o novo governo sírio e, de acordo com assessores do Kremlin citados pela reportagem, o antigo aliado passou a ser visto como uma figura sem relevância política. Justamente ele que, por décadas, era visto como figura estratégica para a influência russa na região.
Enquanto isso, Damasco abriu processos judiciais contra integrantes do antigo regime. Bashar e seu irmão Maher são julgados à revelia em uma série de procedimentos que ficaram conhecidos como “Julgamentos Assad”. Bens, imóveis e contas vinculados ao ex-presidente foram confiscados pelas novas autoridades sírias.
O presidente interino sírio, Ahmad al-Sharaa, ex-líder da Frente al-Nusra, organização que teve ligação com a Al-Qaeda, chegou a solicitar formalmente a extradição de Assad durante encontros com Vladimir Putin. Moscou recusou. Ainda assim, o Kremlin deixou claro que não pretende recolocar o ex-líder no centro das atenções. Segundo a reportagem, Putin proibiu Assad de conceder entrevistas. “Nem mesmo um podcast”, teria determinado.
A ex-primeira-dama Asma Assad, que passou por tratamentos contra câncer e leucemia, teria tentado deixar a Rússia e se estabelecer em Londres, onde vivem seus pais, mas não obteve autorização. Já a filha do casal, Zein, chegou a estudar em Abu Dhabi e, segundo o Ynet, pediu para permanecer nos Emirados Árabes Unidos com outros integrantes da família, mas o pedido foi rejeitado pelas autoridades locais por razões de segurança.
Putin e a oposição na Síria
O professor Eyal Zisser afirmou ao portal que o asilo concedido por Moscou teve um objetivo estratégico. “Para Putin, a decisão de dar asilo foi cínica, destinada a provar que os russos nunca abandonam seus amigos e aliados.” Zisser também avalia que Assad perdeu praticamente toda sua base de sustentação. “Bashar ficou sem futuro e sem apoio na Síria”, disse. “É impressionante ver como, em um instante, o regime de pai e filho que governou o país durante 55 anos foi apagado.”
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A situação criou um paradoxo geopolítico. Embora tenha concedido asilo a Assad, o Kremlin hoje busca fortalecer relações com o governo que substituiu o antigo ditador. A pesquisadora Carmit Valensi resumiu a contradição: “Putin, que salvou Assad, agora mantém relações com aqueles que derrubaram Assad, enquanto o próprio Assad permanece isolado, um símbolo vivo de uma era que a Síria tenta deixar para trás.”
A fuga de Assad da Síria ocorreu em dezembro de 2024, após a entrada dos rebeldes em Damasco, em uma operação organizada pelos russos. Levado inicialmente para a Base Aérea de Hmeimim, ele embarcou em uma aeronave que voou com medidas especiais para evitar detecção até Moscou.
Hoje, sem influência política e afastado dos holofotes, Assad acompanha à distância a reconstrução de uma Síria governada por seus antigos adversários. Para muitos sírios, os julgamentos do antigo regime representam uma tentativa de encerrar mais de meio século de domínio da família Assad.

