entre as armas e a tecnologia

O encontro entre Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, e Xi Jinping, presidente da China, em 14 de maio, gerou reflexos em Taiwan. O governo local acompanha o movimento das duas potências como fator de instabilidade e redefinição de riscos na região do Indo-Pacífico. A ilha segue no centro da disputa estratégica entre EUA e China, enquanto a pressão militar chinesa se mantém constante.

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A representante de Taiwan em Israel, Abby Ya-Ping Lee, utilizou dois argumentos totalmente identificados com o discurso israelense em relação às ameaças externas. Um dos argumentos, conforme disse, ao The Jerusalem Post, é o de que um ataque a Taiwan afetaria a estabilidade mundial. O outro, se baseia em um discurso da ex-primeira-ministra de Israel, Golda Meir.

Durante os anos 1960 e 1970, Meir costumava dizer: “Se os árabes depuserem as armas, não haverá mais guerra. Se Israel depuser as armas, não haverá mais Israel.” Lee, ao Post, parafraseou a lendária premiê e afirmou, contextualizando a situação. “Se Taiwan depuser as armas, não haverá Taiwan”, afirmou a representante. “A arma não é para provocação, não é para convidar uma guerra, mas para autodefesa. É um meio de dissuasão.”

Ela reforçou que, mesmo com o diálogo entre Washington e Pequim, Taipei, a capital de Taiwan, precisa manter capacidade própria de defesa. Trump disse ter discutido com Xi Jinping a questão das vendas de armas para Taiwan e mencionou a possibilidade de conversar diretamente com o presidente taiwanês Lai Ching-te antes de decidir sobre um pacote militar estimado em US$ 14 bilhões.

A imprensa internacional, porém, considera que não há previsão concreta para esse contato. Uma ligação direta entre presidentes em exercício dos EUA e de Taiwan não ocorre desde 1979, quando Washington passou a reconhecer Pequim como governo oficial da China.

Na história, Taiwan já esteve sob domínio de mais de um país. Passou a ser controlada pela China, pela primeira vez, no século 17, época em que a dinastia Qing governava o império chinês.

Mas 1895, passou a ser domínio do Japão depois da vitória japonesa na primeira guerra sino-japonesa. A Segunda Guerra Mundial, encerrada em 1945, foi outro estopim para a mudança. Derrotado, o Japão viu Taiwan passar para o controle chinês.

Quatro anos depois, a guerra fria levou a China para outros caminhos. Uma guerra civil teve início na China continental. De um lado estavam as forças do governo nacionalista lideradas por Chiang Kai-shek. De outro, estava o Partido Comunista de Mao Tse-tung.

Chiang Kai-shek era apoiado principalmente pelo partido nacionalista chinês, o Kuomintang (KMT), além de setores militares, empresários, proprietários de terra e parte das elites urbanas da China. Também os EUA, interessados em se livrar do comunismo, deram suporte ao líder nacionalista.

Mao, além do Partido Comunista Chinês, tinha o apoio de milhões de camponeses pobres e por setores populares insatisfeitos com a corrupção e a crise econômica sob o governo nacionalista de Chiang. No plano internacional, Mao recebeu suporte da União Soviética. A aliança, porém, não teve longa duração.

As duas nações se afastaram a partir do fim dos anos 1950. Mao, inicialmente, admirava o ditador Joseph Stalin e dependia da ajuda soviética para industrialização, armamentos e tecnologia. Com a morte de Stalin, em 1953, o novo líder soviético, Nikita Khrushchev, passou a exercer uma política de desestalinização e maior aproximação com o Ocidente.

Para Mao, um ditador excêntrico e cruel, Khrushchev abandonava a linha revolucionária comunista. Os soviéticos, por outro lado, criticavam políticas chinesas como o Grande Salto Adiante, que causou fome em massa na China. Com Stálin, o país também passou pelo mesmo problema, a tenebrosa fase do Holodomor, um genocídio ocorrido nos anos 1930, que levou milhões de pessoas à morte por causa de políticas agrícolas de coletivização forçada e industrialização impostas pelo regime.

Na guerra civil chinesa, os comunistas venceram em 1949 e assumiram o controle em Pequim. Chiang Kai-shek e o que restou do partido nacionalista – conhecido como Kuomintang – fugiram para Taiwan, Lá, estabeleceram um governo. Baseada neste conflito, a China considera que Taiwan é na sua origem uma Província chinesa.

Segundo os taiwaneses, entre 1945 e 1949, Taiwan já não fazia parte da China. A dinastia chinesa Qing, havia sido derrubada na Revolução Xinhai, em 1911, quando foi criada a República da China em 1912, liderada inicialmente por Sun Yat-sen. Naquele momento, os taiwaneses argumentam que Taiwan estava sob domínio japonês desde 1895.

Enquanto o impasse prossegue, Lee destacou a posição dos EUA como elemento central da segurança taiwanesa. “Gostaríamos de expressar nossa gratidão à administração dos EUA por reafirmar que a política sobre Taiwan permanece inalterada”, disse. “A paz e a estabilidade do Estreito de Taiwan são um interesse compartilhado. Seguimos comprometidos em manter o status quo, que é pacífico, estável e próspero.”

Taiwan estratégica

A defesa, no entanto, segue como eixo central da estratégia de Taipei. “Vamos continuar a aumentar nossa defesa nacional como forma de dissuasão”, afirmou. “O aumento do poder militar da China em tempos de paz é a origem do problema e da instabilidade regional.”

Taiwan pressiona os EUA pela continuidade dos pacotes de armamentos. O governo Trump aprovou uma venda de US$ 11 bilhões em dezembro, enquanto outro pacote, de cerca de US$ 14 bilhões, ainda aguarda decisão, segundo a Reuters. “O principal fornecedor de armas defensivas para nós são os EUA”, disse Lee. “A relação de segurança com os EUA é extremamente vital para a sobrevivência de Taiwan.”

Ela classificou o pacote pendente como essencial para sistemas de defesa aérea, antimísseis e mísseis Patriot. “Vamos continuar trabalhando com os Estados Unidos para garantir que as armas de que precisamos sejam entregues.”

Leia também: “Corrida tecnológica entre EUA e China“, reportagem de Eugenio Goussinsky publicada na Edição 323 da Revista Oeste

No Congresso norte-americano, o apoio a Taiwan permanece bipartidário, entre republicanos e democratas. “Somos muito, muito gratos porque ambos os partidos no Congresso apoiam a sobrevivência e a prosperidade de Taiwan.”

O encontro entre Trump e Xi também reabre uma tensão recorrente para Taipei: decisões sobre o futuro da ilha tomadas por grandes potências sem a presença taiwanesa. “Não estamos na mesma sala de conferência, aparentemente”, disse Lee. “Mas mantemos uma boa comunicação antes e depois das cúpulas com as autoridades.”

Nos últimos meses, a pressão militar chinesa aumentou. Taiwan monitora novas patrulhas aéreas e navais chinesas classificadas como operações de combate. Para Lee, a origem da instabilidade está na expansão militar de Pequim. “Estamos no centro da primeira cadeia de ilhas para conter a expansão da agressão militar chinesa”, disse. “A estabilidade de Taiwan é essencial para a paz global.”

A importância da ilha também é estrutural na economia global. Taiwan concentra mais de 60% da produção mundial de semicondutores e mais de 90% dos chips mais avançados. Esta é a base para o argumento da estabilidade mundial, segundo Lee. “Se esse ecossistema for interrompido, a economia global sofrerá.”

Ela ressaltou que a internacionalização da cadeia produtiva não significa perda de controle interno. “Vamos manter a tecnologia mais crítica e mais avançada em Taiwan. Não é apenas a TSMC, mas um ecossistema inteiro com centenas de milhares de empresas.”

A TSMC é a maior fabricante independente de semicondutores do mundo, sediada em Hsinchu. Lee também conectou o cenário de Taiwan ao Oriente Médio, especialmente à questão da liberdade de navegação. Isto, segundo ela, confirma a importância das operações internacionais de liberdade de navegação lideradas pelos EUA na região. “O Estreito de Taiwan é um ponto estratégico do comércio global, assim como o Estreito de Ormuz”, disse. “Qualquer conflito teria impacto imediato na economia mundial.”

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