A reunião entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Donald Trump, prevista para terça-feira (26) na Casa Branca, pode representar a entrada efetiva dos Estados Unidos na corrida presidencial do Brasil. Incomum, a conversa de um presidente americano com um candidato a liderar outro país denotaria apoio.
Embora ainda sem confirmação na agenda oficial de Trump, o encontro, noticiado na quinta-feira (21), revela a articulação entre líderes do partido Republicano e a família Bolsonaro. Flávio desembarcou em Washington na manhã desta segunda-feira (25) e deverá voltar ao Brasil na quarta-feira (27).
Assessores de Flávio afirmam que o convite veio da própria Casa Branca, intermediado pelo secretário de Estado, Marco Rubio, e participação do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP). A reunião ocorre em meio à crise após a revelação de conversas entre o presidenciável e o banqueiro Daniel Vorcaro.
A reunião corre risco de ser cancelada devido à negociação em curso de um acordo de paz entre Irã e EUA.
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Trump entre Milei e Orbán: apoio pode eleger ou afundar a direita global
A bênção de Trump a candidatos no exterior, desde que voltou à Casa Branca, em 2025, virou ativo de risco. Com Javier Milei, funcionou: apoio político e socorro financeiro dos EUA antecederam a vitória legislativa de seu partido na Argentina. Também favoreceu Karol Nawrocki para ser eleito presidente da Polônia e sustenta Netanyahu em Israel.
Mas o carimbo MAGA já mostrou prazo de validade. Viktor Orbán, premiê pró-Rússia e vitrine europeia do trumpismo, foi derrotado na Hungria em 2026; George Simion perdeu na Romênia após surfar a onda nacionalista; e o AfD, de Alice Weidel, cresceu na Alemanha, mas ficou fora do governo, e parte da culpa da derrota foi atribuída ao apoio de Trump.
Na Austrália, o candidato a primeiro-ministro Peter Dutton virou exemplo do efeito bumerangue: adversários o associaram a Trump, enquanto o tarifaço reforçou a reação pró-governo, como também ocorreu no Canadá e no Brasil. A direita global descobriu que Washington pode pesar contra.
Jair Bolsonaro experimentou algo parecido em 2022. Trump gravou vídeo de apoio na véspera do primeiro turno, mas isso não teve efeito perceptível no resultado final. O saldo é ambíguo: Trump anima a direita, mas também aciona rejeição, soberania ferida e medo de tutela externa. Esse clima negativo foi acentuado após uma briga pública de Trump com o papa Leão XIV em abril.
Viagem faz contraponto direto com a visita de Lula a Trump no mesmo mês
Além de emplacar fatos novos à campanha de Flávio, o movimento é interpretado também como resposta política à reunião entre Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ocorrida no início do mês e avaliada pelo Palácio do Planalto como muito positiva, apesar de atritos acumulados.
Na ocasião, Lula pediu a Trump que não interferisse no processo eleitoral do Brasil, sobretudo diante de elevadas tensões entre o Supremo Tribunal Federal (STF) e as plataformas digitais americanas e de negociações para normalizar o comércio bilateral. O petista não fechou um acordo nesta área.
Desde a notícia da chance de eventual foto de Flávio Bolsonaro ao lado de Trump no Salão Oval, também circularam rumores de que o governo Lula monitora movimentos, acionando até o empresário Joesley Batista, que mediou a recente reunião a portas fechadas do petista com o republicano.
Encontro ocorre em meio à investida política dos EUA na América Latina
Raramente um presidente americano em exercício se envolveu de maneira tão aberta — ainda que informal — na disputa política interna do Brasil. A aproximação entre Trump e Flávio se insere no contexto de ofensiva da Casa Branca contra antigos aliados regionais de Lula na América Latina.
Nos últimos meses, Trump intensificou a pressão sobre figuras da esquerda latino-americana, como o ex-presidente cubano Raúl Castro, alvo da Justiça nos EUA, além das cobranças ao regime venezuelano após a captura de Nicolás Maduro e de tensões com o presidente colombiano Gustavo Petro.
Trump tem estreitado parcerias com governos aliados na América Latina, como os de El Salvador, Argentina e Paraguai, e mirado parcerias para conter a influência chinesa na região. Um dos principais alvos é a exploração das ricas jazidas de terras raras e de minerais críticos, especialmente no Brasil.
Analista vê pragmatismo e desejo de mostrar interlocução internacional
Para Márcio Coimbra, presidente do think tank Monitor da Democracia, a viagem de Flávio Bolsonaro aos EUA representa “pragmatismo com timing cirúrgico”. O movimento, acredita, serve à gestão de danos com a crise envolvendo Vorcaro: “Ele precisava de fato novo e impactante para reduzir o desgaste”.
Coimbra avalia que a campanha de Flávio ganha novo impulso com a viagem e pode obter “o carimbo de Washington” para mobilizar o eleitorado de direita. Segundo ele, Flávio avança na interlocução internacional, papel já associado ao irmão Eduardo, ao exibir trânsito junto à Casa Branca.
O cientista político ressalta, porém, que a estratégia requer equilíbrio. De acordo com ele, será preciso manter mobilizada a base sem radicalismo. A aposta seria construir uma imagem institucional de político capaz de dialogar no exterior. “Com agenda de alto nível, o saldo tende a ser positivo”, aposta.
Professor destaca o raro diálogo entre presidente dos EUA e um candidato
Daniel Afonso Silva, professor de relações internacionais da USP, destaca o aspecto inusitado de um presidente dos EUA receber formalmente um candidato à Presidência de outro país. “Encontros desse tipo são raríssimos e costumam envolver só parlamentares ou convites acadêmicos”, sublinha.
A inclusão de Flávio na agenda da Casa Branca representaria, então, um diferencial político relevante. Para Silva, o lobby feito pela família Bolsonaro nos EUA se soma ao fato de que Trump “jamais assimilou bem a prisão do aliado Jair Bolsonaro”, ainda que isso não seja verbalizado publicamente.
Ele aponta o desconforto americano com decisões de censura do ministro Alexandre de Moraes, do STF, contra empresas americanas, além da disputa comercial entre Washington e Brasília. “A visita de Lula foi excessivamente tocada por diplomatas e negociadores, frustrando expectativas políticas”.
Combate ao crime deve ser um dos temas da conversa de Flávio e Trump
Na avaliação de Daniel Silva, Trump vê com simpatia qualquer alternativa eleitoral a Lula, por entender que a vitória da oposição ampliaria a presença americana no Brasil. Ele acredita ainda que o caso do Banco Master será um dos temas da conversa com Flávio, indicando o seu grau de relevância.
Flávio, por sua vez, busca com a viagem posição de protagonismo à direita, explorando a afinidade histórica entre as famílias Bolsonaro e Trump. O gesto, porém, também é visto por rivais como fator de questionamentos jurídicos e eleitorais futuros, sobretudo se houver apoio explícito de Trump.
O avanço do crime organizado na América Latina é destaque na agenda estratégica da Casa Branca. Washington pressiona governos da região a darem status de organizações terroristas a facções criminosas, ampliando possibilidades de cooperação, sanções, uso de inteligência e repressão.
O governo Lula, porém, resiste a enquadrar grupos como o PCC e o Comando Vermelho na categoria de terrorismo, alegando temor de intervenção externa. O tema encontra maior sintonia com a direita brasileira, que vê na oferta americana um caminho para vencer o crime.



