O sistema nacional de defesa antimíssil como “Domo Dourado” proposto pelo presidente Donald Trump poderia custar aos contribuintes US$ 1,2 trilhão (cerca de R$ 5,9 trilhões) ao longo de 20 anos, de acordo com um relatório governamental divulgado na terça-feira (12).
Para proteger os Estados Unidos, o Alasca e o Havaí precisariam de quatro camadas distintas de recursos defensivos, segundo a análise, incluindo milhares de satélites, além de meia dúzia de radares e instalações de mísseis para interceptar mísseis balísticos intercontinentais e 35 novas instalações regionais para defesa contra mísseis hipersônicos e de cruzeiro.
Mesmo que o sistema seja construído, concluiu o relatório, um adversário como a Rússia ou a China, que possuem um grande arsenal de armas nucleares, poderia superá-lo e alguns mísseis atingiriam seus alvos.
A estimativa foi fornecida pelo Escritório de Orçamento do Congresso (CBO, na sigla em inglês), um órgão não partidário, utilizando como base um decreto emitido por Trump em janeiro de 2025. O presidente prometeu construir um sistema de defesa semelhante ao Domo de Ferro de Israel, com capacidades de defesa aérea que interceptam foguetes e mísseis. Ele estimou que o projeto custaria US$ 175 bilhões.
O relatório do Escritório de Orçamento constatou que os “interceptores espaciais” idealizados pelo presidente —satélites armados com mísseis orbitando o planeta— consumiriam cerca de 60% do custo.
O CBO partiu do pressuposto de que neutralizar até dez mísseis balísticos intercontinentais inimigos simultaneamente no espaço exigiria uma constelação de aproximadamente 7.800 satélites armados.
Para serem eficazes, esses interceptores espaciais, segundo o CBO, precisariam ser posicionados em órbita baixa, onde estariam sujeitos ao arrasto da atmosfera terrestre —o que, ao longo de cinco anos, poderia causar uma perda de altitude suficiente para que se desintegrassem na atmosfera e precisassem ser substituídos.
Tom Karako, especialista em defesa antimíssil do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês), afirmou que o relatório do CBO faz diversas suposições sobre o projeto, incluindo o número e os tipos de interceptores espaciais necessários.
“Eles não sabem quanto custará o Domo Dourado e, para ser justo, admitem isso”, disse. “Nenhum sistema de defesa aérea consegue proteger o país inteiro o tempo todo“, continuou, acrescentando que o governo tornaria sigilosos os ativos críticos que exigiriam o mais alto nível de proteção.
O advento de armas convencionais guiadas com precisão —ou seja, não nucleares— capazes de atingir alvos estratégicos dentro dos EUA é uma parte importante do que o Domo Dourado visa combater, segundo Karako.
No passado, as únicas armas capazes de atingir alvos intercontinentais continham ogivas nucleares, disse ele, e seu uso provocaria um contra-ataque. Mas um ataque aos EUA com armas convencionais guiadas poderia alcançar um efeito estratégico semelhante sem necessariamente desencadear uma retaliação nuclear, um cenário que o Domo Dourado foi projetado —em parte— para evitar, afirmou Karako.
O relatório do CBO não estimou o custo da proteção de territórios americanos especificamente, mas afirmou que o território de Guam, uma pequena ilha no Pacífico Ocidental que abriga bases da Força Aérea, do Corpo de Fuzileiros Navais e da Marinha, estava programado para receber “um extenso sistema de defesas integradas” fora do projeto do Domo Dourado.
Samoa Americana e as Ilhas Marianas do Norte, no Pacífico, e Porto Rico e as Ilhas Virgens Americanas, no Caribe, poderiam ser potencialmente protegidas por instalações regionais de defesa antimíssil independentes, segundo o relatório.
Em dezembro, o Serviço de Pesquisa do Congresso (CRS, na sigla em inglês) afirmou, em um relatório, que alguns parlamentares expressaram preocupação de que, se construído, o Domo Dourado pudesse levar a Rússia e a China a aumentarem seus arsenais nucleares em resposta.
O relatório observou que o Tratado de Mísseis Antibalísticos, assinado pelos Estados Unidos e pela União Soviética em 1972 e posteriormente respeitado pela Rússia, impedia o desenvolvimento de sistemas antimísseis como o Domo Dourado. No entanto, a decisão do presidente George W. Bush de se retirar do tratado em 2001 abriu caminho para tal rede de mísseis defensivos.

