PF diz que Vorcaro entregava envelopes com PLs a Ciro Nogueira

A Polícia Federal (PF) identificou a troca de envelopes com minutas de projetos de lei entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o senador Ciro Nogueira (PP-PI). O caso ocorreu antes mesmo da apresentação da “emenda Master”, que favorecia o Banco Master, em agosto de 2024.

Em novembro de 2023, Vorcaro chegou a enviar dois projetos de seu interesse ao parlamentar. Na ocasião, os documentos quase foram entregues dentro de um envelope com a logomarca do banco, mas se conseguiu trocar a tempo. Segundo a PF, o ex-banqueiro percebeu que o material continha a marca do banco e ordenou que o motorista trocasse a embalagem por outra sem identificação antes da entrega ao Senado. A ordem aconteceu depois de o empresário ver fotos do material.

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“Espera, volta lá”, escreveu ao motorista Sidney em mensagens de texto. “Não pode ser esse envelope. Preciso de envelope branco. Avisa para quem te entregou.”

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A PF reuniu mensagens, diálogos e fotos dos envelopes. Os investigadores não detalharam, porém, as contrapartidas nem os interesses da dupla nesses projetos específicos.

Projetos do Master enviados a Ciro Nogueira

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), tornou a representação pública na terça-feira, 16. Segundo o documento, os projetos tratavam de energia limpa e transição energética. De acordo com a PF, esse é o mesmo setor de empresas de fachada usadas para pagar uma mesada de Vorcaro a Ciro.

Um dos textos era o PL n° 412/2022, do ex-senador Chiquinho Feitosa (Republicanos-CE). O projeto criava o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa. O Congresso incorporou o conteúdo a outra proposta aprovada em dezembro de 2024.

O segundo texto era o PL 5.174/2023, do deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP). A proposta criava o Programa de Aceleração da Transição Energética e foi incorporada a uma lei em 2025.

Além disso, Ciro apresentou a “emenda Master” em 2024. A medida ampliava a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. A PF afirma que a emenda foi uma contrapartida a propinas mensais entre R$ 300 mil e R$ 500 mil e outras despesas de luxo pagas pelo banqueiro.

Mensagens detalham rotina de entregas

Em 22 de novembro de 2023, Vorcaro enviou ao motorista Sidney da Silva Santos o endereço residencial de Ciro em Brasília. No dia seguinte, o funcionário buscou um documento na casa do senador. Sidney enviou a foto da primeira página do PL n° 412/2022. Em seguida, o banqueiro mandou o motorista levar o material para um escritório no Lago Sul, aos cuidados de “Ronaldo”.

Já em 27 de novembro, Vorcaro avisou ao assessor de Ciro, Victor Freitas, que entregaria um documento no Senado por meio do motorista. O banqueiro compartilhou o contato do assessor salvo como “Victor Assessor Senado”. O motorista, então, retirou dois envelopes com a logomarca do Banco Master e com as anotações “PL 412/2022” e “PL 5173/2023”.

Depois do pedido de troca por Vorcaro, o motorista enviou a ele a foto de um envelope pardo sem a marca do banco e confirmou a entrega a Freitas. No entanto, a PF não identificou propina ligada diretamente a esse fluxo de documentos. Os projetos impactavam o mercado de energia renovável.

Além disso, a PF também cita uma operação entre a CNLF, empresa da família de Ciro, e a Green Investimentos, empresa de energia verde de Felipe Vorcaro, primo de Daniel. Em 2024, a CNLF comprou 30% da Green por R$ 1 milhão, mas o valor de mercado da fatia era de R$ 12,9 milhões. A PF considera o deságio um forte indicativo de irregularidade.

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