‘Duda’ Campopiano e o problema da intimidade

Por Marlon Reguellin*

“Intimidade só dá duas coisas: filhos ou desrespeito.” A frase é da Paulinha, uma querida amiga, e sempre me arranca uma gargalhada sincera. Afinal, todos nós permitimos algum nível de intimidade com algumas ou várias pessoas além daquela com quem escolhemos dividir o leito — e bons amigos sempre toleram um grau de desrespeito entre si.

Essa, aliás, é uma das coisas mais saudáveis em uma boa amizade. Já pensou que coisa chata seria se até a relação com nossos amigos fosse protocolar e cheia de formalidades? Nada melhor do que sacanear o amigo que torce para um time (sempre) pior do que o seu. Ou então fazer troça com situações de dificuldade, às vezes até trágicas… coisas que só bons amigos são capazes de fazer.

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O próprio diminutivo no nome da minha amiga citada há pouco carrega uma certa dose de ironia. Paula é uma “polaca” quase da minha altura (tenho mais de 1,8 m).

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Esta semana, meu feed foi tomado por uma situação dessas que poderíamos chamar de (bastante) íntima envolvendo a jovem vereadora de Praia Grande (SP), Eduarda Campopiano (PL). Nunca conheci a Eduarda, nunca nos encontramos, sequer trocamos mensagens on-line alguma vez. O que sei dela é pelas redes sociais e os vários cortes de vídeos seus que viralizam debatendo com opositores e adversários políticos. Mesmo assim, vou me permitir uma dose de intimidade neste artigo: chamá-la de “Duda” (toda Eduarda que eu conheço vira automaticamente Duda). Afinal, caro leitor, é possível forçar uma intimidade inexistente sem ser criminoso ou canalha, não é mesmo?

Durante a gravação de um debate entre cristãs e feministas no canal RedCast, Duda foi vítima de um dos mais flagrantes casos de assédio sexual da história da internet brasileira. Tenho certeza de que o leitor bem informado viu a repercussão desse caso, de modo que vou nos poupar de reproduzir as falas abjetas que foram direcionadas à moça. Toda pessoa pública — políticos em especial — está sujeita a ouvir coisas desagradáveis. Faz parte do pacote. Na internet, então — o afegão médio ainda acha que a internet é terra sem lei —, a coisa é ainda pior.

Todo mundo que se propõe a debater temas espinhosos deve estar disposto e consciente de que será provocado, afrontado, muitas vezes ridicularizado e até mesmo intimidado intelectualmente, sendo essa barreira moral que permeia o debate de ideias: ele deve sempre, obrigatoriamente, permanecer no campo das ideias. Pelos recortes que já vi, a própria Duda é uma debatedora com bastante ímpeto. Vários de seus vídeos viralizam justamente pela “agressividade” (intelectual) com que ela muitas vezes defende suas ideias, seus valores e suas convicções.

O óbvio precisa ser dito

Sei que isso deveria soar óbvio, mas vivemos tempos em que o óbvio precisa ser dito, explicado e desenhado: para que exista efetivamente a pluralidade de ideias, é absolutamente necessário que aqueles que debatem desrespeitem em alguma medida as ideias de seus oponentes (e, por consequência, os próprios). Schopenhauer não escreveu o clássico A Arte de Ter Razão à toa; muito menos esperando que debates sejam como um chá das cinco entre lordes ingleses.

Mas diabos, tudo tem limite Por mais contraditório que isso possa parecer, até para ser desrespeitoso é preciso preservar um grau mínimo respeito e decência. Se poderíamos listar inúmeras possibilidades de ultrapassar esse limiar, intimidar sexualmente uma mulher talvez seja a mais vil e indecente delas.

Em tempos onde tanto se fala sobre igualdade entre pessoas sem distinção de cor, raça, credo ou classe social (artigo 5º da nossa tão surrada Constituição), o que mais tem ferido esse princípio e gerado toda sorte de ataques e ofensas pessoais é a questão ideológica. Não é novidade para ninguém que o Brasil está cada vez mais polarizado. Sendo esse um ano eleitoral tão importante, o cenário se torna ainda pior.

Desde o “ressurgimento” da direita na década passada (ou de uma pretensa direita, não é mesmo, senhor Valdemar?), somado isso à popularização das redes sociais, perda da hegemonia dos grandes e tradicionais veículos de mídia e o interesse cada vez maior das pessoas pelos assuntos de Brasília e política em geral, os almoços em família nunca mais foram os mesmos. Quem de nós não conhece pessoas que deixaram de se falar por isso

Hoje, a composição do Supremo Tribunal Federal está mais na boca do brasileiro comum do que a escalação do mister Carlo Ancelotti para os jogos da Copa do Mundo daqui a poucos dias. A própria seleção, aliás, é alvo de constantes disputas ideológicas entre quem usa os dedos para fazer arminha e quem usa para fazer a letra L (cada maluco com suas maluquices). Essa animosidade existe, está posta e não dá sinais de que vá diminuir. E está tudo certo. Somos todos adultos. Quem entra no debate público obrigatoriamente tem de estar preparado para enfrentar situações desconfortáveis, tensas e irritantes. Mas vamos e convenhamos, não podemos normalizar barbaridades como o episódio no RedCast.

“Algo pouco elogiável”

Tecer publicamente comentários sexuais sobre outra pessoa é algo pouco elogiável, ainda que seja consentido. Quando isso é usado para atacar/intimidar um oponente político, é porque todos os limites do respeito pela dignidade humana e convivência em sociedade foram deixados para trás.

Se você, caro leitor, assim como eu se sente indignado com essa situação envolvendo a jovem vereadora de direita, quero crer que teria o mesmo asco se algo semelhante acontecesse com uma mulher do espectro político oposto. Infelizmente, pelo jeito, não foi o caso dos movimentos feministas e da esquerda brasileira. Não quero ser injusto, mas até agora não vi notas de repúdio e denúncias das figuras mais vocais desses campos em solidariedade à vítima. Na grande mídia, igualmente, nada além de umas poucas linhas protocolares aqui e ali.

A gente sabe que nesse país não importa muito o que é dito… importa quem diz. A pessoa, estando do “lado certo” do debate público, pode ser assediadora, sexista, machista, homofóbica e o escambau. Se der a sorte de se tornar presidente então, aí você pode chamar Pelotas de “cidade exportadora de veados”; dizer que escolheu uma deputada loira e sulista por ser bonita e assim melhorar a relação com o Congresso; convocar as mulheres de “grelo duro” de seu partido e até mesmo defender (em tom de brincadeira, claro…) casos de violência doméstica envolvendo torcedores de um certo clube sediado na zona leste da capital paulista — o preferido do tal presidente. Tudo isso com a defesa incondicional da patota (“mas veja bem…”).

Sobre o assédio contra Duda Campopiano

Como disse, não conheço a Duda. Em todo caso, tenho certeza de que ela, como qualquer ser humano normal, permite brincadeiras e piadas do tipo não muito politicamente corretas em seu círculo íntimo de amizades. Todos nós somos assim (eu sempre digo à minha esposa que qualquer outra pessoa que falasse comigo da forma como ela às vezes fala me custaria o réu primário).

Casais têm sua intimidade. As melhores amizades geralmente incluem doses cavalares de provocação mútua. Homens continuarão fazendo piadas de quinta série entre si. Debatedores sempre vão estar sujeitos a serem desafiados e até desrespeitados. Tudo justíssimo!

Dito isso, que a gente não perca a humanidade de reconhecer e se solidarizar — independente de viés político — em casos onde o desrespeito evolui para a esfera criminal. A dignidade humana deve preceder toda e qualquer diferença ideológica! À Eduarda Campopiano, meu abraço e solidariedade.


*Marlon Reguellin é empreendedor e articulista do Instituto Liberal

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