A consagração política da ‘sirigaita’ — Por Flávio Gordon

Em As Afinidades Eletivas, Goethe diz haver certas naturezas que, ao se reunirem, “rapidamente se prendem e se identificam umas com as outras”. A essas ele chama de naturezas afins, que se atraem como certos elementos químicos. Mas o que o poeta aplica à relação entre sujeitos vale também para a relação entre objetos e nomes — ou, mais particularmente, entre epítetos e seus epitetados.

+ Entenda o que é Política em Oeste

Receba nossas atualizações

Com efeito, há certos apelidos que parecem pairar numa espécie de limbo eterno até o exato momento — um instante de pura magia — em que encontram o seu apelidado ideal, qual duas almas gêmeas que se trombam e, numa perfeita obra de alfaiataria do destino, se encaixam à perfeição. Eis que, na realidade política nacional contemporânea, um evento do tipo acaba de acontecer. A apelidada é a senadora Soraya Thronicke. O apelido? “Sirigaita”.

Quem operou essa feliz afinidade, essa bem-sucedida ligação química entre um nome e o seu objeto, foi a deputada Bia Kicis — como já o demonstramos. Ao retirar do closet dos apelidos possíveis um exemplar tão perfeitamente talhado à modelo, a deputada do PL referia-se então ao fato de madame Soraya, na ânsia de proteger os companheiros ladrões de aposentados, ter acusado falsamente de estupro o deputado Alfredo Gaspar, relator da CPMI do INSS. Recorde-se que, no coloquial brasileiro, a palavra “sirigaita” é usada para descrever uma mulher ladina, desinibida e arrivista.

O apelido pegou. Bia Kicis voltou a usá-lo em 29 de abril, para descrever a atuação de madame Soraya na sabatina do Senado Federal que acabou abortando (pun intended) a nomeação do companheiro Bessias — o eterno office boy de Lula e Dilma — para o STF. E, de fato, dentre tantas loas indecorosas às qualidades inexistentes do “jurista” Bessias, chefe da Gestapo lulopetista, a fala da senadora foi possivelmente a mais ladina, desinibida e arrivista.

Aliás, para uma pessoa com experiência na administração de uma rede de motéis, madame Soraya deveria ser a primeira pessoa a saber que há certas coisas que só se fazem no escurinho, entre quatro paredes. Mas não. Contando com o ovo na cloaca da galinha, e convicta de ganhar mais um camarada no cargo mais poderoso do país hoje, a senadora não se conteve e rogou ao então iminente (e hoje gorado) novo ministro do Supremo: “No dia em que vestir a toga, eu lhe peço que não se esqueça dos amigos que fez nesta caminhada, que foi brilhante e que, tenho certeza, sairá coroada de êxito”.

Foi a esse apelo pornograficamente explícito por uma troca de favores — usualmente feito em convescotes exclusivos e encontros de maior privacidade — que a deputada Bia Kicis se referiu em vídeo apropriadamente intitulado “A sirigaita atacou novamente”. Vídeo ao qual a senadora do PSB reagiu de maneira estranha.

Em primeiro lugar, a resposta deixou uma coisa muito clara: a “sirigaita” sentiu. E começou a arrumar um jeito de chamar a deputada Bia Kicis de… feia. Sim, por incrível que pareça, foi essa a resposta. Mas madame Soraya nem sequer teve coragem para dizê-lo diretamente, preferindo sugerir. Teria sido mais digno xingar a oponente de “feia, boba e cara de mamão”. Mas a senadora optou por tomar um rumo argumentativo inusitado, que acabou servindo de prova suplementar da mais perfeita adequação do apelido.

Numa atitude farisaica de fingir orar pela inimiga política, disse madame Soraya:

“Que o Senhor tenha misericórdia dessa pobre alma que gostaria muito, mas muito, de ter nascido com os predicados de poder escolher ser uma ‘sirigaita’ ou não… mas que gostaria de ter ao menos o poder da escolha… [sic] porém nem mesmo isso ela tem. Quem nasceu com os dotes de poder escolher ser ou não uma ‘sirigaita’ consegue ser bem resolvida, mas essa coitada nem essa sorte teve.” [grifos meus]

Espantoso! A senadora elevou o sirigaitismo a uma livre escolha, resultante de certos “dotes” — pelo que entendi, ela estava se referindo à sua suposta beleza. Faltou pouco para ela tratar o fenômeno como sinal de empoderamento feminino. Imagine o leitor chegando para sua filha criança e dizendo: “Você nasceu com os dotes. Parabéns! Está apta para trilhar o glorioso caminho da sirigaitice e, no futuro, sair com o seu diploma de sirigaita PhD”.

Definição de ‘sirigaita’ no dicionário Michaelis | Foto: Reprodução

Trata-se de um raciocínio que — mais uma vez — só poderia vir de uma mente ladina, desinibida e arrivista. Trata-se, em suma, de um raciocínio de sirigaita. Nunca um apelido político terá sido tão bem-sucedido e incorporado, aparentemente com orgulho, ao próprio modus operandi do apelidado. Para alguém cuja trajetória política parece ter colapsado, alguém que no seu próprio Estado talvez já não se eleja nem mesmo para locutora de bingo, que isso ao menos sirva de consolo. O apelido caiu-lhe muito bem, como um vestido sob medida. É a elegância possível em certos contextos.

Veja a matéria completa aqui!

- Publicidade - spot_img

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui