
A empregada da Boate Kiss, Ingrid Preigschadt Goldani, de 21 anos, que sobreviveu à tragédia do dia 27 de janeiro por ter respirado ar do freezer da casa noturna, recebeu alta do Hospital Conceição, em Porto Alegre. Ela é um dos 10 pacientes que foram liberados entre a tarde de quarta-feira e a manhã de ontem, o que reduziu o número de internados de 75 para 65 distribuídos por 12 estabelecimentos clínicos de quatro cidades. Coincidentemente, a mãe da jovem, Eliete Goldani, fora da lista da Kiss, também estava internada no Conceição, para tratar de uma apendicite, e deixou o hospital no mesmo dia. As duas viajaram para Santa Maria, onde a família mora.
Estudante de Enfermagem na Faculdade Integrada de Santa Maria e atendente do bar da Kiss há pouco menos de dois meses, Ingrid lembrou-se, durante o incêndio, de colocar a cabeça no freezer e aspirar o ar limpo que havia lá dentro. Depois, botou um pano sobre a boca e procurou a saída. Mas, caiu durante o trajeto e acabou sendo levada para a rua por um desconhecido. Lá fora já estava seu irmão Fábio, que escapou ileso por estar perto da porta quando a fumaça tóxica se alastrou.
Apesar de ter escapado, Ingrid começou a passar mal e procurou atendimento médico ainda no domingo. Na segunda-feira, um dia depois do incêndio, foi transferida para Porto Alegre, passou alguns dias respirando por ventilação mecânica e recuperou-se. Depois de receber alta, a jovem usou a sua página no Facebook para revelar o que estava sentindo aos amigos e seguidores. Disse que pela primeira vez desde a tragédia dormia tranquila.
Dos 65 pacientes que permanecem internados, 39 estão em sete hospitais de Porto Alegre e, entre eles, 17 permanecem sob ventilação mecânica; 23 em três instituições de Santa Maria, onde um ainda depende de aparelhos para respirar; dois em um estabelecimento de Canoas e um em uma entidade de Caxias do Sul, estes sem ventilação mecânica.
A Polícia Civil do Rio Grande do Sul decidiu procurar jovem que teria manuseado extintor de incêndio apenas para assustar os amigos durante festa na Kiss, em dezembro do ano passado. O delegado Sandro Meinerz, que investiga as causas do incêndio que matou 238 pessoas, disse que há informação de uso indevido do equipamento a ser confirmada.
Por enquanto, testemunhas relatam que, no dia da tragédia, o extintor mais próximo ao local do início do fogo foi acionado e não funcionou. Como a Polícia tem indicativos de que o equipamento havia sido recarregado em outubro do ano passado, a eventual descoberta de uso inadequado em dezembro pode ajudar a explicar a falha de janeiro.
Outras informações que devem ajudar a investigação a montar o roteiro das falhas que deram origem à tragédia podem ser oferecidas à Polícia Civil pela Polícia Federal, que começou a buscar dados dos 94 telefones celulares e oito câmeras fotográficas encontrados nos escombros da boate. Os peritos tentam encontrar mensagens e, sobretudo, imagens captadas antes ou durante o incêndio na expectativa de obter mais dados necessários ao esclarecimento do caso.
O Povo

