Após horas de reflexão decidi escrever sobre essa temática, por ser meu objeto de estudo e de atuação, e reforçado pela minha última visita ao hospital, quinta feira dia 06 de dezembro de 2012, na qual me deparei com mais cinco novos casos de câncer infantil da região do Cariri, inclusive um caso do município de Milagres. Por ter vivenciado pessoalmente essa doença, e por acompanhar tantos casos desde 2007, devo alertar para que as pessoas saibam que o câncer infantil esta mais perto de nós do que pensamos, e também porque ainda em pleno século XXI as pessoas não querem ouvir falar nem comentar sobre o câncer, existe um preconceito silencioso da parte de quem esta com a doença e de pessoas que não querem nem ouvir, nem comentar, como se pudessem contrair simplesmente pelo fato de falar o nome da doença “Câncer”, as pessoas sempre se referem como “aquela doença”. “A doença é o lado sombrio da vida, uma espécie de cidadania mais onerosa. Todas as pessoas vivas têm dupla cidadania, uma no reino da saúde e outra no reino da doença” (SUSAN, 1994, p.01).
A primeira alerta seria para o diagnóstico precoce, (ou seja, o descobrir a doença bem no inicio), a atenção maior é para os sinais e sintomas que se assemelham a doenças comuns da infância, como: febre baixa, infecções freqüentes, nódulos no pescoço, dores nas articulações, fraqueza, manchas vermelhas no corpo. Que a maioria dos médicos não dá maior importância, confundido com infecções ou quando não consegue identificar a infecção justifica o seu diagnóstico como virose, o diagnóstico é de total relevância para um prognóstico positivo. Ou seja, a falta de diagnóstico médico imediato pode levar a criança a nem ao menos iniciar o tratamento, e sem intervenção medica poderá acarretar na sua morte.
Tendo o diagnóstico. O tratamento do câncer infantil se dá pela aplicação de um protocolo de quimioterapia e radioterapia especifico para cada caso, muitas vezes também necessitando de intervenções cirúrgicas. O tratamento implica em longas e freqüentes internações responsáveis pelas mudanças bruscas da rotina diária da criança que estar naquele momento com câncer, e de toda a sua família.
As configurações familiares são alteradas causando fragilidades físicas e psicológicas, onde a criança naquele momento acometida pela doença aguda e de tratamento crônico não tem maturidade para compreender a “guerra” que se inicia na sua vida e que deverá enfrentar vencendo cada etapa do protocolo, como se fossem pequenas ”batalhas” a ser enfrentadas e superadas.
A criança passa a vivenciar uma nova e desconhecida fase da sua vida, suprimindo seus pequenos prazeres, restringindo o contato com os amigos, não freqüentando a escola por um longo período de tempo. Também tendo que suportar as dores causadas pelo tratamento e os transtornos psicológicos, como: as freqüentes punções endovenosas, os exames e biopsias, a queda de cabelo, e as seqüelas deixadas pelos quimioterápicos e pela própria doença, no caso de amputação.
A doença tem seu agravamento pelo diagnóstico quase sempre tardio, pela falta de políticas públicas a nível nacional garantidas pelo Sistema Único de Saúde – SUS, que trabalhe o diagnóstico precoce, alertando para os sinais e sintomas, Também pelo seio familiar que quase sempre é imbuindo de falta de recursos e informações, e responsabilizo também a Assistência Social Nacional que hoje é tida como política pública, compondo o tripé da Seguridade social, junto à saúde e a previdência que poderia dar suporte ao tratamento, priorizando esses pacientes, através de encaminhamentos especializados.
Existem agravantes importantes na cura do câncer infantil. O tratamento provocado pela quimioterapia e radioterapia deixa a criança imunodeprimida (defesa baixa), tornando o tratamento ineficaz, quando não são garantidos os recursos econômicos no que se refere ao retorno do hospital a sua casa, após as internações que são freqüentes.
A falta de trabalho para os pais da maioria dessas crianças que moram nos sítios das várias cidades de Cariri e são agricultores, meeiros, ou sem nenhum pedaço de terra para trabalhar, ocasiona as conseqüências de deficiências alimentar e nutricional, higiênicas e sanitárias, aumentando o risco de infecções oportunistas que pela baixa imunidade poderá culminar com a morte do paciente.
A criança acometida pelo câncer encontra na pobreza um importante entrave na sua cura. A fragilidade econômica nos faz refletir sobre o prognóstico que deveria ser favorável e cai consideravelmente, tendo como agravante o descaso total do Estado que poderia ser responsáveis pelo suprimento das necessidades básicas desses pacientes através das secretarias responsáveis.
A relação “pobreza”, “Câncer” nos remete a reflexão do Serviço Social enquanto projeto ético político, no que se refere ao tratamento da emancipação humana, não só nas formas de exploração capitalista, mas, sobretudo no enfrentamento da questão social expressa no câncer, na sua contribuição e na execução das políticas públicas garantidas por lei, para esse público, surpreendido, estigmatizado e fragilizado pelo câncer. Tendo como maior fator de risco, a falta de informação e a pobreza para superá-lo.
Marta Dantas
Assistente Social
Bolsista e pesquisadora do curso de especialização em Desenvolvimento Sustentável do Semiárido e Educação do campo pela UFC
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Excelente texto, além de abordar um tema "polêmico" a colunista descreveu muito bem sobre a temática, é um texto coeso e de fácil compreensão. Adorei, aprendi sobre o assunto ao ler esse texto.
O cancêr infantil vem evoluindo muito a cada dia, saiu de status de uma doença rara e passou e ter uma grande relevância, independente do local, seja nas grandes capitais aos lugares mais pacatos. Acredito que é válido todo e qualquer trabalho social em prol das pessoas que passam por esse tipo de tratamento agressor, principalmente as crianças, seres mais sensíveis, e também para dismistificar essa ideia de que o cancêr é uma doença de outro mundo, quando na verdade não é, ja faz parte do nosso cotidiano, já está mais do que na hora acabar com esse tabu. Valendo ressaltar que todas essa criança que passam pelo a tratamento, deve contar com apoio não só da assistência social, mas acompanhamentos psicológicos, para ela pelo menos assimilar um pouco do que está se passando, decorrente de suas restrições quanto criança, além do acompanhamento de prevenção, que pelo avanço tecnologico tem como chegar a um diagnostico precoce e consequentemente podendo chegar a cura com mais facilidade. "Enquanto tem gente tirando a vida dos outros ou até a propria vida por coisa infímas, tem gente lutando por uma".
Nossa!!! Excelente texto, revelou claramente o seu compromisso com a categoria profissional, não somente através da relação com o projeto profissional, mas também pelo grau de relevantes informações transmitidas. Sem dúvida alguma, Martha você está de parabéns!
Parabéns pelo texto Marta! Sei da sua luta por esta temática e do trabalho prestado com as crianças com câncer da nossa região. Que este seu projeto possa crescer ainda mais e que outros parceiros possam abraçar esta causa e engrandecer ainda mais o trabalho desenvolvido para com as crianças com câncer.
Seu texto traz uma exelente abordagem e faz uma alerta não só à população em geral como para as autoridades governamentais da região. Seu compromisso com a temática em pauta é sem comentários, melhor que voce não tem. É muito gratificante ver o sucesso das pessoas que tem compromisso em vencer barreras, sei o quanto enfretou para chegar aqui. Parabéns pela luta incansável que tens com outro em busca de um mundo melhor.
O texto é admirável, pois é fruto de uma vivência que agora se faz arma na luta contra o câncer e em favor daqueles que são acometidos.Parabéns Martha, por sua luta!