FORTALEZA: Pacientes têm alta, mas são abandonados no IJF

Muitos acabam sendo levados para casas de apoio, mas nem sempre há vaga, principalmente quando eles têm idade entre 20 e 50 anos (FOTO: RODRIGO CARVALHO-DIÁRIO DO NORDESTE)

Uma população altamente vulnerável e das mais variadas origens, com os mais diversos problemas, os quais os levaram à situação de rua. O problema social, hoje, atinge cerca de 3 mil pessoas em Fortaleza. Esta é a estimativa da Secretaria do Trabalho, Desenvolvimento Social e Combate a Fome (Setra).

A questão não paira só nos bancos das praças, ruas e vielas da cidade, mas adentra as urgências e emergências dos grandes hospitais de Fortaleza. Até o fim da semana, as assistentes sociais do Instituto Doutor José Frota (IJF) contabilizaram 14 pacientes em situação de negligência ou sem nenhuma referência familiar ou pessoas próximas.

Muitos destes são moradores de rua, que chegaram sem identificação, com déficit mental ou sequelas de um grande trauma da vida. Segundo a assistente social Neubejamia Rocha, por não saberem de onde vêm e não terem como tomarem conta de si, muitos destes pacientes passam dias, meses e anos dentro do hospital. “Acontece de eles terem a alta médica, mas não podemos dar a alta social, pois requerem cuidados”, disse.

A situação piora quando este paciente é adulto ou adulto jovem, idade que compreende dos 20 aos 50 anos, pois não existem locais que abriguem esta demanda populacional. “Quando o paciente é idoso a situação já é difícil, pois não têm vagas em abrigos, mas recorremos à Justiça e conseguimos”.

Cotidiano

As histórias de Vânia e Francisco Cleiton ilustram bem a situação destes pacientes. Eles já não aguardam mais a cura do físico para retomar o cotidiano fora das quatro paredes do hospital. Mas, sim, que algum familiar os reencontre e os proporcione esta retomada da vida para além dos muros das unidades de saúde.

Para se ter uma ideia do tempo de estada destas pessoas no IJF, somente Vânia morou lá por dois anos e Francisco já completa três meses. O drama de ambos sensibiliza não só os profissionais da área médica, mas toca os pacientes e acompanhantes que dividem a mesma enfermaria do Frotão, como é conhecido a unidade de referência em traumas.

Francisco chegou à unidade após ser atingido por três tiros, mas sobreviveu. Porém, hoje, ele não anda, tem a fala comprometida e não sabe dizer com exatidão de onde vem. Nem mesmo o nome, a equipe do IJF sabe se é o verdadeiro. Mas, sabe que é por Francisco que ele gosta de ser chamado.

Já Vânia reside no Hospital da Mulher, onde ocupa um dos leitos de retaguarda. Mas essa medida veio após ela passar dois anos no IJF, para onde foi levada depois de ser atropelada na Avenida Leste Oeste, sofrer traumatismo craniano, ficar em coma por seis meses e depois ficar paralítica. Ambos não têm família e vivem de doações e dos cuidados de médicos, enfermeiros, assistentes sociais e psicólogos.

Segundo o diretor médico do IJF, Osmar Aguiar, estes pacientes têm, além de um custo direto altíssimo, também gastos indiretos, pois, enquanto ocupam um leito, eles impedem que outro paciente, que está em macas e em corredores, tenha a atenção adequada. “O que causa transtorno na normatização do Hospital e compromete a resolutividade da unidade, e isso foge muito da função do IJF”, explica.

De acordo com ele, para não comprometer a resolutividade do Frotão, muitos destes pacientes são encaminhados para leitos de hospitais de apoio, como foi o caso de Vânia. “Porém, isto não é correto. Eles deveriam estar com as famílias ou em lugares mais adequados”.

Segundo o gestor, o custo da diária paga pelo Sistema Único de Saúde (SUS) por um leito em hospital de apoio é R$ 200,00.

Prioridades

O responsável pela Setra, Cláudio Ricardo Gomes, informou que, no que tange à população de rua, esta é uma das prioridades da pasta. Ele avisa que, neste primeiro momento, a Setra está fazendo um levantamento das necessidades de cada equipamento que atende a essas pessoas e, a partir daí, tomará as medidas necessárias.

Ele adiantou, ainda, que dentre as medidas está a ampliação da capacidade atendimentos do Centro de Referência Especializado de Assistência Social para Pessoas em Situação de Rua (Centropop) e a Casa de Passagem, que tem capacidade para abrigar 40 pessoas, mas hoje só atende 30, pois possui somente dois banheiros.

“Até o fim deste semestre, queremos reativar o Espaço de Acolhimento Noturno, assim como aumentar as vagas em abrigos de idosos com as instituições que são conveniadas”, declarou.

Diário do Nordeste

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