FORTALEZA: Obra é retomada pela frente oposta ao Cocó

Projeto prevê construção de equipamento no cruzamento das avenidas Antônio Sales e Engenheiro Santana Júnior (Foto: Kid Júnior/Diário do Nordeste)

Após a decisão do Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) de suspender a liminar que impedia a continuação da construção dos viadutos no cruzamento das avenidas Engenheiro Santana Júnior e Antônio Sales, a Prefeitura de Fortaleza anunciou que as obras serão retomadas pela frente oposta à do Parque do Cocó, na Avenida Antônio Sales. Em resposta às indagações que vem sendo feitas sobre a construção de túneis, em vez de viadutos, o prefeito Roberto Cláudio esclareceu que é inviável, pois trata-se de uma área em declive, o que ocasionaria alagamentos, além de causar mais prejuízos, por causa das desapropriações.

Diferentemente do que foi anunciado pelo gestor, até a tarde de ontem, os trabalhos não foram retomados. “Vamos dialogar, explicar que não há decisão judicial e que qualquer posicionamento contrário será uma ilegalidade. Esta é uma obra de responsabilidade ambiental que irá resolver o problema do trânsito de Fortaleza”, declara. Como forma de compensar a derrubada das 79 árvores do Parque, a Prefeitura anunciou o replantio de outras 292, utilizando espécies originais do ecossistema.

Ocupação

Há 14 dias, ativistas vêm se revezando em um acampamento improvisado no Parque do Cocó, na área onde as árvores foram derrubadas. O intuito é evitar que mais espécies venham a ser cortadas. Alexandre Costa, professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e integrante do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, comenta que qualquer obra dessa natureza no século XXI é um contrassenso, quando se deveria apostar na recuperação de áreas verdes.

“A Cidade é permeada pela lógica de alargar vias, colocar mais viadutos, etc, para comportar uma frota automobilística cada vez mais crescente. É como você querer se safar de um problema de obesidade apenas alargando o cinto ou comprando uma calça de número maior. Não, sempre vai estrangular, é um beco sem saída. Isso compromete, em vários aspectos a qualidade de vida da população”, diz.

Em vez disso, o especialista defende que deve-se pensar em uma mobilidade urbana baseada em transporte coletivo, metrô, Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), ônibus – principalmente movidos a meios não poluentes, que não seja combustível fóssil, gasolina e nem óleo diesel -, a redução da frota de veículos e a abertura de ciclovias e ciclofaixas. “Precisamos é de um outro modelo de cidade”, conclui.

PROTESTO

Professores da Universidade Federal do Ceará (UFC) reuniram-se ontem com os cerca de 50 manifestantes que estão acampados há duas semanas no Parque do Cocó, em protesto contra a retirada de árvores pela Prefeitura de Fortaleza, que vai construir dois viadutos no encontro das avenidas Antônio Sales com Engenheiro Santana Júnior.

“A gente entende mobilidade urbana como priorização ao pedestre, ao sistema transporte coletivo, sobre o transporte individual”, disse Clarissa Sampaio Freitas, professora do departamento de Arquitetura da UFC. “O que se está colocando aqui (o projeto da Prefeitura) é uma solução que privilegia ainda o carro e que não resolve o problema, porque quanto mais viaduto mais carro, e quanto mais carro, mais viaduto. A gente perde muito da qualidade ambiental da cidade, que já é tão precária em termos de calçadas, parques, praças”.

Viaduto não

Clarissa disse ter comparecido ao acampamento para representar os estudantes de Arquitetura da UFC que estão promovendo “concurso de alternativas ao viaduto”, para selecionar as melhores e enviá-las às secretarias municipais da Infraestrutura e de Urbanismo e Meio Ambiente.

Segundo a professora, “viadutos geram espaços cegos, propícios a atos ilícitos, violência, consumo de drogas. O problema da segurança não é só social, também é espacial, de desenho do espaço urbano”. Também presente ao acampamento, o professor Jeovah Meireles, do departamento de Geografia da UFC, criticou “essa lógica voraz de construir sem levar em conta a importância dos sistemas ambientais”. Ele afirmou que “Fortaleza está perdendo seus ecossistemas” e, por isso, o grupo acampado no Cocó “está dando recado extremamente importante para a cidade”.

No próximo domingo, 28, Jeovah e o arquiteto José Sales, ex-vice-presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil no Ceará, darão palestra no acampamento sobre importância do Parque do Cocó para Fortaleza.

A ex-vereadora Rosa da Fonseca, uma das líderes da manifestação, afirma que o grupo planeja para a tarde da próxima terça-feira, 30, protesto em frente ao Paço Municipal contra a construção dos viadutos. Segundo ela, “Roberto Cláudio está mouco para a voz das ruas”.

Diário do Nordeste / O Povo

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