
Jady Lima e Ana Paula Rebouças cumpriram os currículos dos ensinos infantil e fundamental em colégios particulares. O do ensino médio, porém, deve ser todo na rede pública. Por opção. Mas principalmente graças à criação de um sistema de cotas pela Secretaria Estadual da Educação (Seduc) para as escolas profissionalizantes.
Desde 2010, 20% das vagas dessas unidades são destinadas a alunos oriundos da rede privada. Antes, toda a oferta era para jovens com trajetória na rede pública. “Aqui, a gente sai preparada para o mercado. Quero estagiar e fazer faculdade. Algo em engenharia. Meu outro colégio não tinha curso técnico”, alega Ana, estudante de eletromecânica. “É você cursar o ensino médio fazendo o que gosta. A gente vai pra faculdade já estando na área”, complementa Jady, aluna de produção de áudio e vídeo.
Hoje, a Seduc mantém 36 mil jovens em escolas profissionalizantes. Entretanto, não sabe informar quantos vieram de instituições particulares. Numa conta direta de proporcionalidade e sem considerar demandas regionais, 7.200 dessas vagas poderiam estar hoje ocupadas por alunos cujas outras séries foram cursadas na rede privada.
Ministério Público
A titular da secretaria, Izolda Cela, afirma que as cotas foram criadas após pais procurarem o Ministério Público Estadual por terem negados pedidos de matrícula dos filhos nos equipamentos estatais. “Explicamos ao MP que funcionávamos com a lógica do ocupar a vaga profissionalizante com quem precisa e dificilmente teria condição de pagar um curso técnico particular. Mas o Ministério nos chamou a atenção no sentido de que aquilo poderia resultar numa ação contra o Governo. Porque configuraria o cerceamento de um direito (à educação, previsto na Constituição Federal). Analisamos e encontramos essa alternativa.”
Como os candidatos vindos da rede privada não se submetem a provas de seleção e o critério de entrada no sistema público via cotas é unicamente o ranking da média obtida no nono ano, há fila de espera em algumas unidades estatais.
A secretária diz desconhecer resistências na comunidade escolar à medida, instituída via resolução publicada no Diário Oficial do Estado. “De forma geral, as pessoas ainda têm aquela ideia de que, no sistema privado, vão ter determinadas garantias que não têm no público. Mas a realidade não é exatamente essa. E a força que desfaz progressivamente essa cultura vem dos bons exemplos. O meu entendimento é de que, com isso (os 20%), já garantimos a oportunidade pra outros. Para mim, está de bom tamanho. Acho que deve prevalecer a prioridade para quem vem de escola pública”, diz Izolda.
Rede pública e privada não concorrem entre si
Diretora da EEEP Jaime Alencar de Oliveira, Mônica Silva explicou ao O POVO como se dá a entrada dos alunos de entidades privadas na rede pública. Segundo ela, apenas a média do nono ano é avaliada e ranqueada entre os candidatos, que não competem com alunos oriundos do sistema público por vagas.
Entram os que obtiverem as melhores médias. Na Jaime Alencar de Oliveira, 36 vagas são destinadas a estudantes de escolas particulares. A oferta varia de EEEP para EEEP. “Os da rede privada concorrem só com os da rede privada. Seria uma concorrência desigual se colocássemos todos juntos, porque os alunos de escola particular normalmente vêm com notas mais altas”.
Conforme a diretora, todas as vagas estão preenchidas. E a demanda só cresce a cada ano. “Normalmente, a procura por uma escola profissionalizante já é muito grande, independente de o jovem ser de escola pública ou particular. Mas a demanda dos vindos da rede privada só se intensifica. Como (a demanda) é grande, a gente faz a pré-matrícula (ranqueamento das médias).” Mônica classifica a entrada e adaptação dos jovens como “uma coisa muito tranquila”. “A gente não faz nenhuma diferenciação de aluno. Não faz parte do dia-a-dia da escola qualquer tipo de resistência.”
O Povo

