
OKariri, por O Povo
Celular barato, carteira falsa pronta para o pedido do ladrão, mudanças de percurso para evitar trechos de perigo. Por viver com a sensação de que a violência pode vir novamente depois de quatro assaltos sofridos, o empresário André Luíz Sá, 36, preferiu a prevenção. Não quer mais perder dinheiro e o celular “bom”. A costureira Maria Nazaré Facó, 61, anda na rua com celular escondido e protege-se, inclusive, dentro de casa. “A porta tem uns 50 cadeados e um pau “assim” trancando”, descreve.
O medo do urbano, compartilhado por André e dona Maria Nazaré, é realidade para 56,7% dos cearenses. Já 38,7% dizem viver a insegurança em seus bairros e 24,2% dentro de casa. Os números são da Síntese de Indicadores Sociais 2012, divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para calcular o índice, foram usados dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2009.
No Interior do Estado, a sensação de insegurança também se faz presente. A secretária-geral do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Barbalha, Risoneide Rocha, 32, conta que “infelizmente, a violência vem aumentando a cada dia”. Segundo ela, o número de assaltos tem crescido na região e isso estaria relacionado ao aumento no consumo de drogas.
Em Caucaia, o vigilante Raimundo Ibiapina, 31, relata que é preciso ter todo o cuidado ao andar nas ruas, evitando, por exemplo, expor aparelhos eletrônicos. Além disso, preocupa a “divisão de territórios” por causa do tráfico de drogas. “De vez em quando, você escuta os tiroteios”, diz.
Prevenção
A sensação de insegurança, que, segundo o psicólogo e professor da Unifor Elton Gurgel, é doentia e mais ampla que a real violência urbana, só será transformada com uma “mudança de paradigmas”. “Enquanto a lógica que alimenta toda a situação for ‘sofri violência, tenho que punir outro com violência maior’, isso retorna como sensação de insegurança”, diz. As situações de violência, avalia, ganham força quando a vítima se afasta da convivência social por causa de uma situação insegura. “E sobra o sentimento de impotência”, comenta.
O professor do Laboratório de Estudos da Conflitualidade da Violência da Uece, Geovani Jacó de Freitas, explica que o aumento da sensação de insegurança está ligado ao fato de a violência estar espalhada em toda a cidade. Além disso, ele critica a maneira como a violência é exposta na imprensa. “Alguns programas promovem o que chamo de uma ‘extração de mais violência,’ que é a sensação de que ela é maior do que de fato é”, comenta.
O professor também condena a maneira como o Estado, muitas vezes, responde ao aumento da violência focando apenas na repressão. “O policiamento ostensivo vai agir depois que a ocorrência já aconteceu. Isso leva a população a fazer uma leitura de ineficácia dos órgãos policiais. É preciso políticas focadas na mediação e prevenção”.
Para resolver o problema a longo prazo, Geovani Jacó sugere a adoção de políticas que estimulem a convivência da população em espaços públicos, como a conservação e iluminação de praças e calçadas. “Quanto mais cuidado e ocupado é o espaço coletivo, menor é a possibilidade de o crime ocupar esses espaços”.

