Indústria de games entra na briga por fatia bilionária no Brasil

Com movimentação anual de mais de US$ 5 bilhões, o mercado brasileiro de games se consolidou como o maior da América Latina nos últimos anos. O país tem aproximadamente 115 milhões de jogadores, o que coloca o Brasil entre os cinco maiores públicos do mercado mundial. 

No entanto, grande parte da receita desse mercado — que projeta atingir US$ 10 bilhões no país em 2033 — é destinada a produtores internacionais nos Estados Unidos e Europa, sendo que as empresas brasileiras ficam apenas com 10% do montante gasto pelos gamers brasileiros.

Os dados, que fazem parte do primeiro “Mapeamento de Games” do Sebrae Paraná, colocam o estado como um novo player no ecossistema de estúdios de games brasileiros, formado principalmente por empresas do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Minas Gerais, além das indústrias do eixo Rio-São Paulo, que lideram o mercado nacional. 

De acordo com o último relatório da Associação Brasileira das Desenvolvedoras de Games (Abragames), o faturamento dos estúdios brasileiros foi de aproximadamente US$ 251 milhões em 2022. A estimativa do Sebrae Paraná é que 74% da população brasileira esteja conectada com os jogos, seja no celular, no console ou nos computadores. 

Infográfico Games com dados do Sebrae Paraná

Curitiba se destaca como polo de estúdios de games fora do eixo Rio-São Paulo

O estado do Paraná ocupa uma posição de destaque no cenário nacional, sendo considerado o sexto maior polo de games do Brasil em número de estúdios, com 49 desenvolvedoras ativas mapeadas. Segundo representantes do setor, o estado também se destaca financeiramente, ocupando a quinta posição em faturamento gerado por empresas do setor.

Entre as capitais brasileiras, Curitiba lidera o desenvolvimento de games no país, fora do eixo Rio-São Paulo, ao lado de Porto Alegre, ambas com 34 estúdios. A capital paulista possui 167 estúdios e a indústria carioca tem 71 empresas no setor.

A indústria nacional está fortemente concentrada nas regiões Sudeste (56%) e Sul (20%), conforme os dados do Sebrae Paraná e da Abragames:

  • São Paulo: 302 empresas.
  • Rio de Janeiro: 107 empresas.
  • Rio Grande do Sul: 69 empresas.
  • Minas Gerais: 59 empresas.
  • Santa Catarina: 52 empresas.
  • Paraná: 49 empresas.  
Jogo da empresa Animus Game StudioDungeon Crowley: primeiro jogo autoral de empresa curitibana (Foto: Douglas Coelli/Animus/Divulgação)

De exportador de mão de obra a produtor nacional: setor de games almeja “passar de fase” 

Diretor de Arte e gestor de equipes na Animus Game Studio, Douglas Luiz Coelli conta que a premiação financeira proveniente do Concurso Nacional de Jogos Empreendedores do Sebrae foi muito importante para o início da microempresa em Curitiba, há mais de uma década. Cinco anos depois, o estúdio paranaense lançou o primeiro jogo 100% autoral, chamado Dungeon Crowley. O foco da empresa está no segmento de console e PC.

“A empresa evoluiu para uma atuação mais focada em outsourcing [prestação de serviço], criando animação e programação para empresas do exterior. Hoje, a Animus está posicionada novamente com foco em propriedade intelectual, tendo levantado um capital significativo com o outsourcing para investir em produtos próprios”, explicou. Entre as produções internacionais, a Animus participou do projeto da série de automobilismo Nascar.

Segundo Coelli, que também é diretor da Associação de Criadores de Jogos do Paraná (ACJogos), a indústria nacional tem potencial para ampliar a produção local com o objetivo de atender a altíssima demanda dos jogadores brasileiros. Para isso, ele destaca a importância de parcerias com entidades, como o Sebrae, e de editais específicos para produção intelectual no setor, assim como ocorre com os incentivos públicos para o cinema nacional.  

“Na prestação de serviços, exportamos mão de obra e trazemos dólares ou euros para dentro do país. Mas o incentivo interno para produtos de qualidade é o que cria uma estrutura sustentável, fazendo com que as pessoas consumam o produto nacional”, analisou. 

De acordo com o cálculo do diretor, a captação inicial de cerca de R$ 50 mil pode levar um pequeno estúdio a saltos maiores com projetos de até R$ 300 mil, por meio de parcerias com empresas estrangeiras.

“Imagine se, além de ser um dos maiores consumidores, o Brasil fosse um dos maiores produtores do mundo. Isso geraria muito emprego e arrecadação para a economia nacional. Os investidores internacionais vêm até o Brasil para investir no nosso mercado. Essa busca por mão de obra e pelos produtos brasileiros significa que estamos fazendo algo certo e precisamos de incentivo”, ressaltou. 

Confira o perfil do faturamento da indústria de games no Brasil:

  • O PC (computadores) é a plataforma que gera a maior receita para as desenvolvedoras brasileiras (44%), seguida pelos dispositivos móveis (23%) e consoles (12%).
  • Metade das desenvolvedoras nacionais que atuam no exterior obtém mais de 70% do seu faturamento fora do Brasil. Os principais mercados-alvo para exportação são os Estados Unidos (58%) e a América Latina (57%).
  • Os jogos de entretenimento são a principal fonte de receita para 83% das empresas, seguidos por jogos educacionais (8%).

Estúdio paranaense produz jogos educativos para escolas públicas dos Estados Unidos

Especializada em games na área da educação, a microempresa curitibana SpaceFrog foi finalista do 14º festival internacional Ojo de Pescado, em Valparaíso, no Chile, no ano passado, após receber apoio do Sebrae para participar de cursos e eventos do setor.

Segundo o sócio fundador e game designer da empresa, José Fernandes, o jogo finalista “Docemática” — único representante brasileiro no evento — tem estilo puzzle e leva o jogador a enfrentar desafios matemáticos em um universo feito de doces. A SpaceFrog produziu o jogo para celular, o segundo da empresa disponível na Google Play.    

Com dez anos de atuação no mercado, o foco do estúdio são as plataformas de educação, com atendimento do público no exterior. “Hoje, temos sete jogos em uma plataforma educacional e quatro em uma plataforma norte-americana, que atende cerca de 5% das escolas públicas dos Estados Unidos”, informou.

Jogo da empresa paranaense SpaceFrogDocemática: jogo educativo para celular feito por empresa especializada na área. (Foto: José Fernandes/SpaceFrog/Divulgação)

Segundo Fernandes, a produção de games educacionais tem um processo diferente dos jogos convencionais. “Quando fazemos um projeto, pensamos na diversão para a criança, no aprendizado e no suporte para o professor com conteúdo vinculado. Assim, ele pode usar o jogo como uma ferramenta de ensino. Além disso, trabalhamos na segurança de que o conteúdo é adequado para a idade, uma preocupação recorrente dos pais”, explicou.

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Sebrae deve aprofundar levantamento sobre games para propor políticas públicas

O coordenador de TIC e Startups do Sebrae Paraná, Rafael Tortato, informou que o primeiro mapeamento do setor no estado foi feito com o intuito de conhecer o ecossistema de games. 

Ele adiantou que a entidade deve repetir o levantamento para obter informações detalhadas sobre a dinâmica e a relevância do setor para a economia paranaense. “Isso pode trazer uma perspectiva melhor para apresentar o setor como um segmento com potencial para receber investimentos e ter políticas públicas próprias”, comentou. 

Segundo Tortato, o diagnóstico também servirá para o Sebrae ancorar o atendimento às microempresas do segmento. “Tendo uma fotografia mais clara, podemos criar uma solução específica para o setor, com um atendimento personalizado para as empresas de games”, projetou.

“É uma cadeia bem ampla, com várias competências envolvidas. […] Então, há a oportunidade de gerar empregos qualificados e ampliar essas vagas no mercado”, completou o coordenador do Sebrae.

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