A vida de Floripes Dornellas de Jesús, conhecida como Lola, a serva de Deus brasileira que viveu, segundo os católicos, por mais de meio século sem comer, beber ou dormir, subsistindo unicamente da Eucaristia, é tema do documentário em português “Lola de Jesus: Mistério e Devoção”, do jornalista e escritor Rodrigo Alvarez. A produção foi exibida no mês passado durante a terceira edição do Cinema ExpoCatólica no evento ExpoCatólica 2026 em São Paulo, onde Alvarez também proferiu uma palestra intitulada “Lola e o Fenômeno da Genuína Fé Brasileira”.
Sua inexplicável capacidade de viver apenas da Eucaristia certamente chama a atenção, mas para o Dr. Claudio Bomtempo, que foi seu médico assistente durante os últimos cinco anos de sua vida e agora é um dos principais defensores de sua causa de beatificação, esse nunca foi o aspecto mais importante de sua pessoa. Segundo Bomtempo, a missão de Lola era fazer com que o Sagrado Coração de Jesus fosse mais conhecido e amado.
“Lola não queria ser lembrada por si mesma; ao contrário, ela queria que o Sagrado Coração de Jesus fosse mais conhecido e amado”, disse Bomtempo ao ACI Digital, serviço irmão em português da EWTN News. A Igreja dedica o mês de junho ao Sagrado Coração de Jesus, assim como a primeira sexta-feira de cada mês. Segundo Bomtempo, Lola “sabia que era ela quem poderia fazer as pessoas no Brasil refletirem sobre o poder do Sagrado Coração de Jesus”.
“Toda aquela questão de não comer, beber ou dormir não constitui, na realidade, a essência da santidade de Lola; ao contrário, é um sinal — uma forma de chamar a atenção — que acredito que o coração de Jesus permitiu, para que ela pudesse simplesmente ser reconhecida como uma manifestação da presença do coração de Jesus”, disse ele. Para ele, “sua santidade se deve às suas virtudes e ao seu sacrifício, ao martírio de todos aqueles anos… e à sua intimidade com o coração de Jesus, que era verdadeiramente inspiradora”.
Segundo o médico, Lola frequentemente interrompia conversas para rezar e perguntar a Jesus: “O que você quer de mim, Senhor? O que você quer que eu faça? O que você quer que eu diga?”
Lola nasceu em 27 de junho de 1912, em Mercês, Brasil, e quando criança mudou-se com sua família para Rio Pomba, onde morreu em 1999. Quando tinha cerca de 16 anos, caiu de uma jabuticabeira, fraturou duas vértebras lombares e ficou paraplégica.
“Encontrando-se naquela situação — sabendo que nunca mais caminharia e não realizaria os sonhos que poderia ter acalentado, como tornar-se mãe ou religiosa, Lola decidiu dedicar o resto de sua vida à devoção ao Sagrado Coração de Jesus e ao coração de Maria. Esta foi a resposta inicial de Lola a uma situação difícil, a uma notícia terrível”, relatou Bomtempo.
Após essa decisão, mudanças começaram a ocorrer em seu corpo que marcariam o resto de sua vida. Segundo o médico, ela deixou de sentir fome, sede ou necessidade de dormir. “Nos cinco ou seis anos seguintes, insistiram para que ela comesse, mas ela não sentia fome”, explicou o médico. Na Sexta-feira Santa de 1943, “ela decidiu que não comeria mais. A partir daquele momento, recebia apenas a sagrada Eucaristia a cada dia”.
O fenômeno, conhecido como inédia, abstinência total de alimentos, despertou o interesse de médicos, pesquisadores, curiosos e peregrinos. Segundo Bomtempo, isso nunca desviou Lola do que ela considerava sua verdadeira missão: conduzir as pessoas ao Sagrado Coração de Jesus. “As pessoas começaram a vir em grandes caravanas e recebendo graças, sempre através do Sagrado Coração de Jesus”, disse ele.
Para ele, Lola era “simplesmente uma secretária do coração de Jesus”. “Ela apenas apontava para Jesus. Ela também possuía muitos dons do Espírito Santo — dons de revelação, profecia e conhecimento — e sempre os usava para o bem dos outros”, continuou.
Como não dormia, Lola recebeu permissão do então bispo de Mariana, Oscar de Oliveira, para manter o Santíssimo Sacramento em seu quarto. “Lola permaneceu confinada ao seu leito por aqueles 64 anos. Ela mantinha uma vigília de 24 horas diante do Sagrado Coração de Jesus e da Eucaristia”, relembrou Bomtempo.
Ele recordou ter perguntado a ela uma vez por que nunca saía do quarto, nem mesmo para ir ao pátio. “Meu lugar é aqui, diante do Santíssimo Sacramento, diante do coração de Jesus”, respondeu Lola.
Na Igreja, a primeira sexta-feira de cada mês é tradicionalmente dedicada ao Sagrado Coração de Jesus, uma devoção que se espalhou amplamente, particularmente após as revelações recebidas por Santa Margarida Maria Alacoque no século XVII. As práticas recomendadas incluem confissão, comunhão e reparação pelos pecados cometidos contra o amor de Cristo. Segundo Bomtempo, foi essa devoção que Lola buscou difundir ao longo de sua vida.
A causa de sua beatificação foi aberta em 2005 pelo então arcebispo de Mariana, Luciano Mendes de Almeida, que havia conhecido Lola pessoalmente. Segundo Bomtempo, o arcebispo uma vez lhe disse: “Lola possui mais virtudes do que as necessárias para a santidade. Isso acontecerá no momento certo”.
A causa ficou paralisada por anos devido a questões burocráticas e foi retomada apenas no ano passado, quando o atual arcebispo, Airton José dos Santos, nomeou o padre Rodney Francisco Reis da Silva como postulador da fase diocesana. Uma vez concluída essa fase, a causa será enviada ao Dicastério para as Causas dos Santos do Vaticano, onde poderá avançar rumo ao reconhecimento das virtudes heroicas, estágio no qual a pessoa poderia ser declarada venerável. Posteriormente, é necessário o reconhecimento de um milagre para a beatificação e um segundo milagre para a canonização.
Para Bomtempo, toda a vida de Lola apontava para essa devoção. “O que ela mais falava era sobre a confiança no Sagrado Coração de Jesus”.
Hoje, o Recanto Sítio da Lola em Rio Pomba está sob os cuidados do padre Jamilson Inácio da Silva, pároco da Paróquia Nossa Senhora do Rosário, que administra o local a pedido da arquidiocese. O local tornou-se um lugar de peregrinação, recebendo fiéis de todo o Brasil na primeira sexta-feira e no terceiro domingo de cada mês para missas e momentos de oração. O quarto onde Lola viveu por mais de 60 anos permanece preservado e pode ser visto através de uma divisória de vidro.
Em maio, o local foi reaberto para uma ocasião especial — a celebração da primeira missa desde a morte da serva de Deus em 1999 — celebrada pelo arcebispo emérito de Juiz de Fora, Gil Antônio Moreira, e concelebrada pelo padre Rodney Francisco Reis da Silva, o postulador da causa de beatificação.
©2026 Catholic News Agency. Publicado com permissão. Original em inglês: Life of Brazilian woman who lived over half a century solely on the Eucharist hits the big screen https://www.ewtnnews.com/world/americas/the-mystery-of-the-woman-who-lived-for-60-years-solely-on-the-eucharist-comes-to-the-big-screen

