Era uma manhã fria e chuvosa em Santos. No clima, o dia 13 de agosto de 2014 se assemelhava a tantos outros do inverno santista. Um dia comum. Mas a data ficará marcada para sempre na história política do Brasil e na história da Cidade. Um estrondo no Boqueirão, por volta das 9h50, anunciava uma tragédia sem precedentes: a queda de um jatinho em uma área residencial, matando sete pessoas, incluindo o então candidato à Presidência da República Eduardo Campos, do Partido Socialista Brasileiro (PSB).
O político voava em uma aeronave Cessna, da Embraer, que caiu na Rua Alexandre Herculano, próximo à esquina com a Rua Vahia de Abreu. Ele estava acompanhado de dois assessores, fotógrafo e cinegrafista, no jatinho pilotado por Geraldo Magela Barbosa da Cunha e Marcos Martins. Campos vinha à Baixada Santista para compromissos de campanha e para participar do último dia da 12ª edição do Santos Export – Fórum Internacional para a Expansão do Porto de Santos, promovido por A Tribuna e Una Eventos.
O presidenciável era esperado por políticos, militantes e jornalistas em um restaurante de comida nordestina na Avenida Thiago Ferreira, de onde seguiriam para a Associação dos Catraieiros em Vicente de Carvalho, em Guarujá. Com o passar das horas, porém, toda a expectativa em torno da presença de Campos deu lugar à apreensão.
| A informação de que uma aeronave havia caído em Santos e a falta de notícias sobre o jatinho de Campos levaram os partidários a pensar no pior. O hoje vice-governador de São Paulo e presidente do PSB em São Paulo, Marcio França, era o retrato do desespero que tomou conta dos partidários do político. Enquanto todos tinham os olhos vidrados na televisão, Marcio praticamente não saía do telefone celular, em busca de informações. Em determinado momento, se isolou do tumulto e, com os olhos marejados, desabafou: “Não dá para acreditar”. |
Mas era verdade. O que antes era apenas uma suspeita virou realidade: o jato acidentado era o mesmo de Eduardo Campos. A localização do documento do fotógrafo Alexandre Severo e Silva e de material de campanha nos escombros do acidente confirmou o que antes era hipótese.
Esposa estaria no voo
A esposa do político, Renata Campos, e o filho mais novo dele, Miguel, de 7 meses, estariam no voo, que partiu do Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, mas, na última hora, decidiram voltar para casa, em Recife (PE). Vice na chapa liderada pelo socialista, a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva também viria a Santos, mas embarcou para São Paulo a fim de gravar mensagens para o horário eleitoral gratuito. Faltavam pouco menos de dois meses para o 1º turno das eleições presidenciais.
Os motivos da queda da aeronave, que provocou danos em dez imóveis e deixou 11 feridos, além dos sete mortos, não foram totalmente esclarecidos. A primeira parte das apurações está em fase final.
Em janeiro deste ano, em uma apresentação preliminar dos dados coletados na investigação no Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), o tenente-coronel da Aeronáutica Raul de Souza disse que o piloto da aeronave “fez o trajeto diferente previsto na carta”, mas salientou que, àquela altura, não era possível concluir que houve falha humana.
Uma investigação paralela contrapõe os dados da Força Aérea Brasileira (FAB) e citafalha técnica no Cessna.
O avião, ao se aproximar da Base Aérea de Santos, em Guarujá, precisou arremeter (cancelar o pouso, subir novamente e refazer os procedimentos para descida) por causa das condições climáticas. Segundo a Somar Meteorologia, no momento do acidente, a chuva era moderada e, por conta do tempo encoberto, a visibilidade estava prejudicada.
![]() |
|---|
| Após procedimento de arremetida, aeronave que pousaria na Base Área de Santos caiu em área residencial |
Marina faz pronunciamento
Com a tragédia confirmada, Santos tornou-se o centro das atenções de todo o País, com cobertura de veículos de todo o Brasil e do exterior. Políticos e autoridades interromperam compromissos e vieram a Santos, sendo recepcionados no Palácio José Bonifácio, sede da Prefeitura.
Foi lá que a candidata a vice-presidente Marina Silva falou pela primeira vez sobre o acidente. “Sem sombra de dúvida, é uma tragédia que nos impõe profunda tristeza”, disse, mantendo sempre os olhos fixos nos lustres do Salão Nobre Esmeraldo Tarquínio. Parecia pedir forças a Deus para fazer seu pronunciamento à imprensa, que durou exatos 2min15seg. “Durante esses dez meses de convivência, aprendi a respeitá-lo, admirá-lo e confiar em suas atitudes e seus ideais de vida”.
Estiveram na Prefeitura o vice-presidente da República, Michel Temer (PMDB), o ministro Aloizio Mercandante (PT), o presidente nacional do PPS, Roberto Freire, o ex-governador de São Paulo José Serra (PSDB), o governador Geraldo Alckmin (PSDB) e o prefeito de Santos, Paulo Alexandre Barbosa (PSDB).
![]() |
|---|
| Marina Silva (esquerda) e Eduardo Campos concorriam à Presidência da República em 2014 |
Testemunhas
No dia da tragédia, A Tribuna ouviu relatos emocionados e assustadores de pessoas que viram de perto o acidente. Pessoas que, ao olharem para o céu, assistiram, incrédulas, à queda de um avião em área residencial, perto de centenas de casas.
“Senti um vento muito forte, que puxou meu cabelo e a blusa, como se fossem sugados. Os vidros da casa se quebraram e eu vi o avião passar aqui em cima. Depois, surgiu uma grande bola de fogo e um estrondo muito forte”, disse, no dia, a comerciante Rosana Haddad.
“Pensei que era um meteoro. Depois, com o barulho da explosão, achei que era uma guerra”, afirmou Silvia Mathias, de 52 anos. “A impressão era que se tratava de um míssil”, narrou Barbara Piva Silva, de 28 anos. “Foi um susto muito grande. Ouvi aquele estrondo e tudo tremeu”, relatou a aposentada Vanda Bittencourt.
O cenário de guerra mudou a rotina dos moradores da vizinhança, não só no momento do acidente, mas também nos dias seguintes. Policiais, bombeiros, equipes de resgate, militares, investigadores, jornalistas e autoridades transformaram a vida do Boqueirão.
Para famílias que tiveram as casas atingidas por partes da aeronave, as mudanças foram ainda maiores e traumáticas. Dos dez imóveis afetados pelo acidente, oito foram liberados na noite seguinte. Mas dois permaneceram fechados pela Defesa Civil de Santos por terem sofrido danos materiais importantes. Um deles foi a Academia Mahatma, na Rua Alexandre Herculano. Os fundos do estabelecimento foram atingidos por destroços do avião.
![]() |
|---|
| Academia Mahatma sofreu sérios danos com a tragédia e interrompeu as atividades |
Despedida
De acordo com estimativa da Polícia Militar, 150 mil pessoas passaram pelo velório do político, que foi governador de Pernambuco de 2007 a 2011, com alto índice de popularidade.
Os corpos do piloto Marcos Martins e do copiloto Geraldo Cunha foram sepultados em Maringá (PR) e em Governador Valadares (MG), respectivamente. Ex-deputado e assessor de Campos, Pedro Almeida Valadares Neto foi enterrado em Aracaju (SE). O assessor de imprensa Carlos Augusto Ramos Leal Filho, o Carlos Pacol, em Recife. O do cinegrafista Marcelo Lyra, em Paulista (PE), cidade onde os restos mortais do fotógrafo Alexandre Severo foram cremados.
Com Informações de A Tribuna.






