
A diferença entre mal e pior na situação de seca no Ceará será medida em um ponto fundamental: abastecimento de água pelos órgãos públicos. Neste segundo semestre do ano que inicia a previsão é chover pouco ou quase nada no sertão cearense. Além dos 32 municípios que já precisam de complementos para garantir abastecimento (há rodízio nessa lista), outros 11 entrarão nesse “colapso” de abastecimento até setembro, caso não haja alternativa. E mesmo estiagem e seca serem fenômenos tradicionais, a demora na concepção (e, depois, operação) de políticas públicas para atendimento revelam um quadro mais pessimista que os próprios prognósticos anuais de chuvas.
De acordo com levantamento do Grupo de Trabalho formado por Superintendência de Obras Hidráulicas (Sohidra), Cagece e Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh), podem entrar em colapso de abastecimento em pouco mais de um mês os seguintes municípios:Acopiara, Alcântaras, Aratuba, Guaramiranga, Mulungu, Nova Russas, Parambu, Potiretama, Pindoretama, Potengi e Tauá.
Já estão nessa situação Antonina do Norte, Beberibe, Caridade, Crateús, Irauçuba, Itatira, Milhã, Pacoti, Quiterianópolis e Salitre. A situação muda conforme o abastecimento, que se dá principalmente por meio dos carros-pipa, que pegam água dos açudes. Ontem, o volume de água armazenado era de 43,4% da capacidade. Pelo menos 64 açudes cearenses (quase metade dos reservatórios) estão com menos de 30% de água acumulada.
As exceções são o açude Curral Velho, no município de Banabuiú, com 98,04%, e o Gavião, em Pacatuba, com 93,09%. Mas é preocupante a situação de açudes como o Faé, na cidade de Quixelô, com apenas 8,62% da capacidade, e o açude Umari, em Madalena, com 5,63% da capacidade. Os dois reservatórios fazem parte das bacias hidrográficas do Acaraú e Banabuiú, respectivamente.
O diretor de operações da Cogerh, Ricardo Adeodato, prefere não usar o termo colapso, mas admite que a situação é preocupante e um alerta para que as próprias residências atentem para a necessidade de economizar. “Não estamos nos furtando de admitir o problema da falta d´água, mas se o município não pode mais depender só de açude, usamos os outros complementos, como poços artesianos e os carros-pipa. Mas não existe ninguém sendo desabastecido de água para beber”, afirma.
Contaminação
O volume dos açudes Faé e Umari é baixo, mas a depender da condição para que sejam fontes de abastecimento (inclusive dos carros-pipa), o número é zero. Quanto menor o volume de um açude, maior é a concentração de substâncias e, portanto, o risco de poluição. E os casos de contaminação da água já apontam para além dos 28 municípios diagnosticados pela Secretaria de Saúde do Estado em maio deste ano. O questionamento das poluições, por sua vez, é dividido entre Defesa Civil do Estado e Exército Brasileiro, cada qual responsável por diferentes municípios e, assim, pelo transporte de água captada. “Nosso contrato com a empresa responsável (Cagece ou Saae) é que só podemos repassar a água se for comprovadamente potável. Nos municípios na nossa cobertura é assim”, afirma o coronel Silvio Tavares, coordenador Estadual da Defesa Civil do Estado.
Dinâmica
Conforme Ricardo Adeodato, da Cogerh, até mesmo a estimativa de novos municípios com crise no abastecimento é pontual e dinâmica. “Quando alertamos para o nível crítico dos municípios estamos simulando a pior situação: a maior evaporação, a menor recarga, e isso é dinâmico. Temos chuvas pontuais, e acompanhar esse fluxo nos permite fazer a gestão dos recursos hídricos de forma inteligente”, observou.
Uma das estratégias, defendida pela Cogerh, é a construção de adutoras de engate rápido. Isso já está sendo feito em Milhã, Crateús e mais sete municípios do Ceará.
RECURSO DISPONÍVEL – Mais de três meses após o anúncio do pacote de R$ 9 bilhões para o combate à seca divulgado pela presidente Dilma Rousseff, a verba para a perfuração e recuperação de poços nos municípios atingidos pela estiagem está finalmente disponível aos órgãos responsáveis.
No Ceará, o Departamento Nacional de Obras contra a Seca (Dnocs), o Exército Brasileiro e o Serviço Geológico do Brasil (CPRM) vão executar a instalação e recuperação de 210 poços, além da construção de outros três poços profundos de grande vazão. A previsão do Ministério da Integração Nacional é de que equipamentos estejam prontos para o uso até o final de 2013.
No Estado, o maior número de poços ficará a cargo do Dnocs. O órgão recebeu R$ 5,6 milhões para a revitalização de 95 poços em 25 municípios cearenses e para a perfuração de outros 75 em 15 cidades. “A nossa prioridade é a recuperação dos poços que já estão instalados, mas não funcionam. Não tem sentido esses poços ficarem abandonados. Os outros vão ser construídos de acordo com as demandas dos municípios”, explica a especialista em infraestrutura do Ministério do Planejamento no Dnocs, Thereza Rêgo. Segundo Thereza, o recurso já se encontra disponível e deve ser descentralizado para as coordenadorias estaduais ainda nesta semana. A especialista relatou que as licitações já estão sendo preparadas e devem ser lançadas nos próximos 30 dias.
Exército
O Exército Brasileiro informou, por meio de nota, que será responsável pela perfuração de 40 poços artesianos nos municípios de Acopiara, Crateús, Canindé, Icó, Madalena, Massapê, Paraipaba, Piquet Carneiro, São Gonçalo do Amarante, Tamboril e Tianguá. Segundo a instituição, a operação no Estado deve começar ainda em julho ou em agosto.
O Exército também relatou que um procedimento licitatório para a aquisição de novas máquinas perfuratrizes já está em andamento. A expectativa é que cada estado receba três equipamentos até outubro. Até lá, o órgão entregará uma perfuratriz a cada unidade.
A Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) também está na lista dos que receberam verba do Governo Federal para a perfuração de poços. Nenhum dos equipamentos previstos para o órgão, no entanto, será construído no Ceará. Por meio de assessoria de imprensa, a Codevasf informou ter recebido, na última semana, um repasse de R$ 40,5 milhões do Ministério da Integração para a instalação e recuperação de mil poços nos estados da Bahia, Minas Gerais, Pernambuco e Piauí.
Diário do Nordeste / O Povo

