Eva Campos: Faça sua parte, seja como o beija-flor

 

É comum ver muita gente reclamando das mais variadas coisas. Tem gente que se lamenta do calor, dos preços altos, da falta de emprego, dos professores que tem. Gente que critica os amigos, os vizinhos, os funcionários públicos, a falta de oportunidade. Para estas pessoas o mundo é um poço de imperfeição.

 

Estes dias, pensando sobre estas questões, lembrei de uma antiga e aparentemente ingênua história de um beija-flor que tenta apagar o incêndio na floresta usando seu bico para carregar água. A imaginada tolice do pássaro faz com que a situação pareça ridícula e inútil. Todavia, o pequeno colibri dá uma lição de cidadania, de responsabilidade e atitude, quando aceita que pode não apagar o incêndio, mas que fará a sua parte.

 

Não dá para ficar passivamente julgando o mundo. Esta atitude é acomodada demais para ser merecedora de outra sorte. É fácil também direcionar a responsabilidade das transformações para o outro.

 

Oportunamente falando do processo eleitoral, ainda me assusta ver a quantidade de pessoas que se submetem às ações pontuais dos políticos. Após ver o resultado da inoperância do sistema, reclama, e reclama, e reclama. É como se o beija-flor apenas voasse para longe, e seguramente protegido por um frondoso galho, olhasse o incêndio destruir a floresta.

 

Para que o mundo mude, há gente corajosa, que enfrenta dificuldades, desconhece os obstáculos e leva a vida em frente. Mas se esta transformação tiver a grata participação de mais pessoas, tudo fica mais fácil e tem resultados impressionantes.

 

A degradação do planeta é um ótimo exemplo para falar de atitude. Há algo acontecendo no mundo de forma perigosa. Mas como o problema não nos atinge muito, vamos deixando para lá. Faz de conta que não é muito importante fazer a nossa parte. Deixa que no futuro as pessoas se preocupam e buscam soluções. Esse é o silencioso pensamento que permeia as atitudes de quem joga lixo no chão, faz queimadas indevidas, desperdiça água e outros pecados mais contra o degradado planeta Terra. É como se soubéssemos que o incêndio ainda vai acontecer, mas mesmo assim acendemos a faísca.

 

Chega de esperar que o outro faça o que você espera que lhe beneficie! Esta lógica vai de encontro inclusive aos preceitos cristãos. Em João 2:15, Jesus, indignado, confecciona um chicote para banir do templo o que considera errado. Não se trata de um amor manso, que a tudo acata. É antes um amor de atitude, de força e fibra.

 

E o astucioso comportamento individualista, ilude pela possibilidade de maximização de resultados. Efeitos normalmente passageiros. Entretanto, a atitude pelo social edifica conseqüências sustentáveis. Saldos que servirão a mim, aos outros, no presente e no futuro. A atitude voltada para o social resulta em parâmetros capazes de serem avaliados e melhorados. Normalmente são documentados, legitimados democraticamente. O modo individual de resolução de problemas é parco, fugaz e volátil. Serve a você, tornando o seu problema resistente e imperecível.

 

Portanto, não custa imitar o beija-flor. E não se preocupe qual o tamanho de sua tarefa. O bem prevalece e normalmente se torna um hábito, quando feito de coração. E fazer o bem está inevitavelmente associado ao fazer pelo outro.

 

Plante sua árvore, economize água, não jogue lixo nas ruas. Vote consciente, denuncie os desmandos. Pense no amanhã, queira por você e por outras pessoas também.

 

Não inventaram régua para medir sofrimento nem uma escala justa de aferição. Minha dor não é maior nem menor que a dos outros. Mas quando as atitudes começam a enxergar um pouco mais no plural, os verbos são mais fartos e mais duradouros.

 

Faça sua parte sem esperar que ela seja tão sua. Conjugar em terceira pessoa do plural faz bem.

 

Termino por citar Mário de Andrade:

 

Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa…

 

Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade.

 

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,

 

O essencial faz a vida valer a pena.

 

E para mim, basta o essencial!

 

Pense nisso!

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As opiniões expressas pelos colunistas não representam, necessariamente, a linha editorial do Portal OKariri.

 

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