‘A Otan deveria ter acabado em 1991’, afirma autora pacifista americana

Mais de três décadas após o fim da União Soviética, a Otan continua de pé e, segundo Medea Benjamin, perdeu sua razão de existir. A escritora americana defende que a aliança militar deveria ter sido dissolvida em 1991, mas, tendo assumido um caminho contrário, hoje caminha para um processo de esgotamento.

Benjamin, 73, é voz do movimento pacifista nos Estados Unidos e autora de uma série de livros sobre política externa, direitos humanos e conflitos globais. Cofundadora da organização pacifista e feminista CodePink, criada durante a preparação para a Guerra do Iraque, ela construiu sua trajetória com críticas às intervenções militares feitas por Washington.

A autora vem ao Brasil para participar da Festa Literária Pirata das Editoras Independentes (Flipei), nesta sexta (8), e lançar seus livros “Otan: o que você precisa saber” e “Por Dentro do Irã, A verdadeira história política da República Islâmica”.

Em entrevista à Folha, Benjamin analisa o cenário internacional sob uma taxativa crítica do militarismo crescente que, nos últimos meses, tem dominado a pauta do governo republicano de Donald Trump.

Olhando para o Irã neste momento, qual a situação do regime em comparação aos últimos anos?

Está mais forte hoje por causa da guerra. Muitos iranianos que sempre foram contra o governo agora acreditam que precisam se unir e mostrar que vão lutar contra o governo Trump, que falou em varrê-los do mapa.

Certamente há muitos iranianos, especialmente na diáspora, como aqui nos EUA, que são monarquistas, que apoiam o filho do xá e gostariam de vê-lo voltar ao Irã, embora ele tenha dito que não quer morar no Irã. Mas eles parecem muito indiferentes em relação ao próprio povo.

Alguns desses grupos já disseram que o povo iraniano quer os bombardeios. Como é possível dizer que as pessoas querem ser bombardeadas?

Para que têm servido, então, os ataques?

Ficou claro que os bombardeios não vão derrubar o governo iraniano; é certo que tornam a vida das pessoas mais difícil, mas os iranianos vêm se preparando para essa guerra há décadas e demonstraram que estão prontos para uma longa luta.

E não acho que o povo americano também esteja. Eles votaram em Trump porque, entre outras razões, ele disse que acabaria com essas guerras intermináveis. Aqui estamos nós, em outra guerra interminável. Acho que isso fortaleceu o governo iraniano, mas é algo muito recente.

O contexto pré-guerra era mais oneroso para o regime iraniano?

O governo ficou bastante enfraquecido pela morte de manifestantes durante os protestos dos meses anteriores ao conflito, e isso voltará à tona depois que essa guerra terminar. É preciso haver algum tipo de prestação de contas pelo que aconteceu durante esse período.

Trump interpretou mal o poder do regime iraniano dentro do próprio país? É possível dizer que a análise dele ao iniciar a guerra foi equivocada?

Não sei se o Trump analisa alguma coisa. Acho que ele vai com aquele barrigão e simplesmente decide um dia: “Ok, vou dar ouvidos ao Bibi Netanyahu [premiê de Israel]”.

Ele calculou totalmente errado, achou que o povo iraniano se levantaria e que o governo seria derrubado. E não acho que ele tenha dado ouvidos à maioria de seus assessores porque, convenhamos, há de se acreditar que existem aqueles nas inúmeras agências de inteligência dos EUA que lhe deram informações de que isso simplesmente não iria acontecer.

Você diria que, neste momento, isso desafia Trump?

Agora Trump está em uma situação muito difícil, tentando descobrir como voltar ao ponto em que as coisas estavam antes de ele iniciar os bombardeios.

Ele é apenas um exemplo de um presidente imperial que tem esse senso irracional de importância e arrogância. É preciso dizer que há divisões reais dentro da Casa Branca em torno dessa questão.

Sabemos que há pessoas no Pentágono que não queriam entrar nessa guerra. Mas, infelizmente, Netanyahu tem um papel desproporcionalmente grande na tomada de decisões de Trump.

E com o contexto que agora se apresenta no Irã, a pressão militar contínua pode mudar algo no sistema político? O que, se não isso, tem poder de alterar a situação política do país?

O Irã tem uma estrutura de poder muito complicada, e vimos isso agora quando os EUA mataram o aiatolá e outros líderes de alto escalão, achando que isso faria o regime cair. Na verdade, o poder apenas desceu de nível, e a Guarda Revolucionária se fortaleceu. As pessoas agora olham para ela com muito orgulho e heroísmo por terem sido capazes de resistir a duas potências nucleares, os EUA e Israel.

Isso é perigoso para o futuro do Irã porque as pessoas mais voltadas para as reformas dentro do país foram deixadas de lado. Foram desmentidas uma vez que acreditavam ser possível negociar com os EUA, e isso não se mostrou verdade. Assim, os militares se fortaleceram. E, pelo menos no médio prazo, não é bom para a nação iraniana que os militares tenham tanto poder.

Essa descrença na possibilidade de negociar com os EUA muda o papel de liderança do país perante a comunidade global?

Há quem diga que os EUA são um império em declínio e que isso é apenas uma tentativa desesperada de se manter à tona. Outros dizem que não, que o país ainda é muito forte. E, se de fato ele vai deixar de ser um império, isso pode levar décadas para acontecer.

O que vemos é que a influência da China é muito forte em todo o mundo, especialmente na América Latina. A China tem agido de forma muito estratégica, possui reservas de petróleo muito vastas e, no conflito, ficou à margem, observando.

A reputação dos EUA, especialmente com Trump, sofreu uma queda vertiginosa, a ponto de pessoas em todo o mundo dizerem que o país é imprevisível, que tenta resolver conflitos por meio de perspectiva militar em vez da diplomacia e que, mesmo quando utilizam suas Forças Armadas, não obtêm sucesso.

O país está sendo visto cada vez mais como um tigre de papel. Os EUA estão realmente perdendo ao investir tanto dinheiro em suas Forças Armadas e ao não cuidar da população em seu próprio território. E o mundo percebe isso.

E o que essa mudança na reputação dos EUA pode significar para a Otan?

Não está nada claro qual será o futuro da Otan, pois, por um lado, enquanto Trump vem pressionando os países da Otan a destinarem muito mais recursos, isso ocorre em um momento em que a população europeia enfrenta grandes dificuldades para manter sistemas de saúde funcionando, por exemplo.

Há resistência contra esse apelo para gastar mais dinheiro com o militarismo, mas, ao mesmo tempo, há uma grande campanha de propaganda para fazer com que as pessoas na Europa temam que a Rússia não esteja apenas atacando a Ucrânia, mas que, se for bem-sucedida, passe a atacar outros países europeus. É ridículo que as pessoas na França, no Reino Unido ou na Suécia pensem que a Rússia vai invadi-las.

Como essa abordagem de Trump pode afetar a Europa a longo prazo? Isso deve efetivamente mudar o esquema de segurança da União Europeia?

Acho que o sistema terá de evoluir. A Otan deveria ter se dissolvido em 1991, quando a União Soviética se desintegrou, e esse teria sido o momento em que os países europeus e a Rússia se unissem para encontrar maneiras de avançar com base na cooperação.

Infelizmente, a Otan não se dissolveu; ao contrário, tornou-se mais forte e se envolveu em conflitos no exterior, começou a criar parceiros, e realmente se tornou uma aliança militar mais agressiva.

E acho que a Europa está agora em uma posição em que realmente não quer se envolver nesses conflitos no exterior. Embora tenham dado muito apoio à Ucrânia, por exemplo, há certamente uma sensação de que essa guerra precisa chegar ao fim e de que, em algum momento, devido à sua localização geográfica, eles terão de chegar a um modus vivendi com a Rússia. Portanto, a situação vai evoluir.

Acho que a Otan vai desaparecer, ela vai se dissolver. Não é possível prever quando, mas essa é a trajetória esperada.

E qual o papel da ONU nesse cenário?

Este tem sido um período vergonhoso para as Nações Unidas, que demonstram sua incapacidade e falta de vontade de se envolver de forma positiva na resolução de conflitos, inclusive pelo desequilíbrio estrutural existente no Conselho de Segurança, com os cinco membros permanentes que detêm o direito de veto. A organização é disfuncional e o problema vai muito além disso.

Vemos a ONU incapaz de fazer qualquer coisa para resolver os conflitos do Oriente Médio e, além disso, os EUA têm feito tudo o que podem para tentar destruir as instituições da organização que lidam com o Estado de Direito —como nas tentativas de destruir o Tribunal Penal Internacional. É muito lamentável.

O ambiente de hoje é propício para que novas lideranças possam emergir no cenário global?

É um momento em que vemos na América Latina tanta interferência por parte dos EUA. Por isso, espero que, à medida que avançamos, vejamos a região se unindo como um continente forte e afirmando não apenas sua soberania, mas um poder em escala continental que não permita que potências externas, sejam os EUA ou a China, exerçam influência indevida em seus assuntos internos.

E espero que vejamos o mesmo na Ásia e na África, pois precisamos de alianças regionais fortes que façam parte desse novo sistema multipolar que precisamos criar. Meu conselho para os governos da América Latina e de outros lugares é: não vejam os EUA como um país estável, porque não é. Para o futuro, é muito melhor ter várias alianças diferentes que sirvam de contrapeso ao poder americano.

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