Câncer contagioso é descoberto pela primeira vez em peixes

Pesquisadores da Universidade de Vermont identificaram, pela primeira vez, um câncer contagioso entre bagres da espécie Ameiurus nebulosus no lago Memphremagog, que fica entre os Estados Unidos e o Canadá. A descoberta, publicada na revista Nature em 22 de julho, revela que células de melanoma se transferem de um peixe para outro, agindo como um parasita. A investigação começou após uma contagem entre 2014 e 2017, que mostrou manchas pretas em 37% dos bagres.

Uma descoberta inédita no lago Memphremagog, localizado entre os Estados Unidos e o Canadá, chamou a atenção da comunidade científica. Pela primeira vez, pesquisadores identificaram um câncer contagioso entre peixes, especificamente bagres da espécie Ameiurus nebulosus.

A pesquisa, liderada por cientistas da Universidade de Vermont, foi publicada na revista Nature na quarta-feira 22. Ela revelou que as células do melanoma se transferem de um animal para outro, fenômeno antes restrito a poucos grupos de animais.

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Diferente de infecções provocadas por vírus, como o HPV em humanos, este tipo de câncer envolve a mesma célula tumoral migrando entre hospedeiros, mantendo o DNA original e agindo mais como um parasita. Esse comportamento nunca foi registrado em seres humanos, sendo até então observado apenas em cães, diabos-da-tasmânia e moluscos bivalves.

O caso começou a ser investigado depois de uma contagem feita entre 2014 e 2017, que apontou manchas pretas em até 37% dos bagres do lago.

O bagre, que vive em ambientes escuros e sem escamas, apresentava lesões que não podiam ser explicadas apenas por fatores ambientais ou exposição solar. O lago, que fornece água para mais de 175 mil pessoas, já havia enfrentado problemas de poluição depois da tempestade tropical Irene em 2011. Isso levou os pesquisadores a suspeitarem inicialmente da água contaminada como causa.

Genética revela origem comum do câncer

Lago Memphremagog
Lago Memphremagog, localizado entre os EUA e o Canadá | Foto: Reprodução/Google Images

Para esclarecer a origem do problema, os cientistas sequenciaram o genoma dos tumores e tecidos saudáveis dos mesmos peixes. O resultado surpreendeu: o DNA das células cancerígenas era mais parecido entre os tumores de diferentes animais do que com os tecidos saudáveis do próprio hospedeiro.

Segundo o oncologista Stephen Stefani, do Grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, “o sequenciamento mostrou que o melanoma de um peixe era mais parecido com o melanoma dos outros peixes do que com o próprio animal que o carregava”.

Na análise, 59% das alterações genéticas eram idênticas em quase todos os tumores examinados. Enquanto isso, nos tecidos saudáveis, 83,4% das mutações eram exclusivas de cada peixe.

Para comparação, em melanomas humanos, 94% das mutações são únicas para cada paciente, evidenciando que, no caso dos bagres, os tumores têm uma origem comum e se espalham entre os peixes do lago.

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Testes para vírus e bactérias não apontaram nenhum agente infeccioso associado às lesões, deixando como responsável pela transmissão apenas a própria célula tumoral. Outros três exemplos conhecidos de câncer transmissível são registrados em cães, onde um tumor venéreo circula há milhares de anos, em diabos-da-tasmânia, com tumores faciais letais, e em moluscos bivalves, com câncer semelhante à leucemia. O caso do bagre é o primeiro desse tipo em peixes e em água doce.

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