Venezuela: ex-embaixadora comenta terremotos

María Teresa Belandria, ex-embaixadora da Venezuela no Brasil, concedeu uma entrevista a Oeste, na qual discutiu os devastadores terremotos que atingiram o país em 24 de junho de 2026, com magnitudes de 7,2 e 7,5. Ela expressou sua angústia ao perder contato com familiares e criticou a resposta inadequada das autoridades, destacando a solidariedade do povo venezuelano que se mobilizou para ajudar.

O raciocínio era preciso. As respostas, quase sempre acompanhadas de referências históricas, conceitos de Direito internacional e explicações técnicas sobre terremotos. Advogada, professora universitária e embaixadora da Venezuela no Brasil durante o governo interino do presidente Juan Guaidó, de fevereiro de 2019 a dezembro de 2022, María Teresa Belandria concedeu a Oeste uma entrevista marcada pelo rigor analítico. Em alguns momentos, no entanto, a técnica deu lugar à emoção.

Com um pingente da Venezuela sobre o peito, María Teresa relembrou a angústia de perder o contato com familiares nas primeiras horas da tragédia que ocorreu em 24 de junho, criticou a resposta das autoridades e exaltou a solidariedade dos venezuelanos. Segundo ela, antes mesmo da chegada da ajuda internacional, homens e mulheres removeram pedras e escombros com as próprias mãos para salvar parentes, amigos e até mesmo gente desconhecida, como vizinhos.

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Na entrevista, María Teresa também detalha os fatores que agravaram a tragédia, comenta a atuação da comunidade internacional — com destaque para o hospital de campanha enviado pelo Brasil e as equipes de resgate de países como El Salvador e Israel — e explica por que, na sua avaliação, a reconstrução da Venezuela dependerá não apenas de obras de infraestrutura, mas também da recuperação de suas instituições.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Qual foi o impacto dos terremotos na Venezuela?

A Venezuela é um país sísmico. Há registros de grandes terremotos desde o período colonial, além de tragédias marcantes em 1812 e 1967. Por isso, os especialistas sabiam que, em algum momento, um grande terremoto voltaria a acontecer. O que ninguém consegue prever é quando. Nem os japoneses, nem os chilenos, nem os peruanos, que convivem com terremotos, conseguem dizer o dia em que um tremor ocorrerá. Depois do tremor de Caracas em 1967, o governo passou a adotar normas rigorosas de construção sismorresistente justamente porque havia consciência desse risco permanente. No dia 24 de junho, porém, ocorreram dois terremotos de grande intensidade em um intervalo de apenas 39 segundos. O primeiro teve magnitude 7,2; o segundo, 7,5. Além de muito fortes, foram a cerca de 10 quilômetros de profundidade, o que potencializou os danos. A terra permaneceu em movimento por quase um minuto, tornando a destruição ainda maior. Para quem nunca viveu um terremoto, basta imaginar o esse espaço de tempo em uma prancha na academia. Foi aproximadamente esse o período em que a terra não parou de tremer. Ninguém pode impedir um terremoto de acontecer, mas pode estar preparado para enfrentá-lo, o que não ocorreu no caso que testemunhamos na Venezuela.

Uma família recolhe seus pertences do lado de fora de um prédio danificado pelos terremotos de 24 de junho, em Catia la Mar, Estado de La Guaira , Venezuela, em 9 de julho de 2026 | Foto: Leonardo Fernandez Viloria/Reuters

O que aconteceu nos primeiros minutos depois dos eventos? Teve notícias de seus familiares?    

Desespero e angústia. Quem conseguiu sobreviver passou a procurar familiares e vizinhos sob os escombros. Imagine tudo isso em meio a um cenário no qual faltaram, imediatamente, energia elétrica, internet e comunicação telefônica. Em pouco tempo, foi necessário interromper o fornecimento de gás, visto que é encanada em boa parte da região afetada, sob risco de explosão. Minha família conseguiu falar comigo logo depois, mas perdemos a comunicação depois de uma hora. Esse é um dos momentos mais desesperadores, porque não se sabe onde estão seus familiares nem se eles sobreviveram. Ao mesmo tempo, começaram a surgir notícias de amigos, colegas e parentes desaparecidos. A esperança era que estivessem apenas incomunicáveis ou presos sob os escombros, aguardando o resgate. Infelizmente, em muitos casos, a confirmação que chegou depois foi a pior possível: os corpos foram encontrados sem vida. Essas primeiras horas são marcadas por uma mistura de angústia e esperança. São acontecimentos que, para mim, não têm explicação na Terra, apenas no céu.

Depois de quase um mês da tragédia, o que mais preocupa a senhora na situação enfrentada pelos venezuelanos?

A principal dificuldade é que ainda não há números confiáveis sobre a verdadeira dimensão da tragédia. O governo divulga estatísticas diariamente, mas ninguém sabe ao certo quantos prédios desabaram, quantas pessoas morreram, quantas continuam desaparecidas ou quantas seguem internadas. Em uma tragédia assim, existe um protocolo internacional para identificar cada vítima, localizar os desaparecidos e informar as famílias. Isso não está sendo feito de forma adequada. É preciso saber quantas pessoas moravam em cada edifício, quantas sobreviveram e quantas ainda podem estar sob os escombros. Ao mesmo tempo, milhares de pessoas seguem sem conseguir retomar a vida normal. Muitas perderam suas casas e vivem em barracas ou foram acolhidas por parentes. Em diversas regiões ainda faltam água potável, energia elétrica, combustível e atendimento médico. A reconstrução será longa e não termina quando os escombros forem retirados. Ela exige devolver às pessoas condições mínimas para voltar a viver.

Bandeira da Venezuela tremula enquanto equipes de resgate trabalham no local de um prédio que desabou depois dos terremotos de 24 de junho, em La Guaira, Venezuela — 5/7/2026 | Foto: Ricardo Arduengo/Reuters

Os protocolos internacionais estão sendo respeitados?

Não. A remoção dos escombros precisa ser feita com muito cuidado. Se ainda houver corpos soterrados e máquinas pesadas retirarem todo o material às pressas, parte dessas vítimas jamais será identificada. Não se trata apenas de limpar a área; trata-se de respeitar a dignidade de quem morreu e o direito das famílias de sepultar seus entes queridos. Um exemplo é o que ocorreu em Brumadinho (MG). O trabalho de identificação das vítimas levou anos, porque foi conduzido de maneira minuciosa, respeitando protocolos técnicos e humanos. Cada fragmento encontrado era analisado, para que as famílias tivessem a certeza de que tudo havia sido feito para localizar seus parentes. Na Venezuela, a impressão é que existe uma pressa para remover os escombros, mesmo quando familiares afirmam que ainda há pessoas desaparecidas sob os prédios. Isso causa uma dor adicional a quem continua esperando notícias de um filho, de um irmão ou de um pai.

Apesar da ajuda humanitária internacional, qual foi a principal lição que essa tragédia deixou para a senhora?

A ajuda internacional tem sido fundamental. El Salvador e os Estados Unidos foram os primeiros países a mobilizar equipes de apoio. O Brasil também teve um papel importante ao enviar um hospital de campanha da Marinha, além de bombeiros de Minas Gerais, São Paulo e Paraná. Israel e outras nações contribuíram com especialistas, equipamentos e assistência humanitária. Em uma tragédia dessa dimensão, toda ajuda salva vidas. Mas a imagem que mais me marcou foi outra. Na falta do Estado, o povo salvou o povo. As pessoas não esperaram por equipamentos nem por equipes especializadas. Com as próprias mãos, começaram a retirar pedras, ferros e escombros para tentar salvar quem ainda estava preso. Homens e mulheres entraram em prédios destruídos, colocando a própria vida em risco para resgatar desconhecidos. Essa solidariedade foi extraordinária. Nunca mais vou permitir que falem mal dos venezuelanos. Somos um povo solidário, porque estamos acostumados com o fato de que ninguém vai nos salvar. Quando o Estado não apareceu, foram os próprios venezuelanos que salvaram uns aos outros.

O que será necessário para reconstruir a Venezuela depois de uma tragédia como essa?

A reconstrução da Venezuela vai muito além dos prédios, das estradas e da infraestrutura. O mais urgente é reconstruir a vida das pessoas, para que elas possam voltar a trabalhar, morar com dignidade e retomar a rotina. Mas existe também outra reconstrução, que é a das instituições e da democracia. Neste momento, toda a atenção está voltada para a emergência humanitária, o que é natural. Ainda assim, o país precisará reconstruir suas bases para que tragédias como essa sejam enfrentadas com maior eficiência e responsabilidade. Apesar de toda a dor, acredito que o terremoto também mostrou algo importante: ele uniu os venezuelanos. Vejo um processo de reencontro, de reconciliação e de solidariedade que já vinha acontecendo e que se fortaleceu depois da tragédia. Tenho esperança de que esse espírito ajude a construir uma nova Venezuela.

Leia também: “Venezuela abalada”, reportagem publicada na Edição 330 da Revista Oeste

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