“Em Tijuana é mais barato se drogar do que comer”, conclui o jornalista argentino Leonardo Tarifeño, radicado no México há mais de uma década, ao fim de uma conversa em um café no centro de São Paulo.
Falava com certa angústia sobre a dificuldade que teve para escrever “Não Volte”, livro em que reúne histórias de mexicanos deportados dos Estados Unidos. Especialista em música e cultura, Tarifeño diz ter se sentido deslocado no início, mas conta ter passado um ano acompanhando com o coração na mão as histórias de vidas interrompidas pela necessidade de migrar.
Tenho a sorte de conhecer esse talentoso colega desde antes de ele trocar Buenos Aires pela Cidade do México. Durante anos, muitas de nossas conversas giraram em torno do exílio, da sensação de estar fora do lugar, do que pode ser considerado o lugar de uma pessoa no mundo. Via em Leonardo o exemplo de um imigrante decidido, alguém para quem a saudade ou o desenraizamento pareciam temas superados.
Hoje tenho diante de mim um escritor maduro, agora profundamente marcado pela questão dos deslocados, de gente empurrada para longe de casa pela fome, pela violência, pela necessidade econômica ou simplesmente pela impossibilidade de continuar vivendo onde nasceu.
Tarifeño lança agora “Não Volte” no Brasil, pela editora Kipuka, resultado de centenas de entrevistas com deportados mexicanos. O autor falará sobre o livro na próxima quinta-feira (28), no Rio de Janeiro, na livraria Janela, e no domingo (31), na Feira do Livro de São Paulo.
É impossível entender a obra sem mencionar duas influências centrais: os mexicanos Sergio González Rodríguez (1950-2017) e Juan Villoro.
O primeiro transformou em literatura jornalística a investigação das violências extremas do México —degolações em massa promovidas por cartéis, desaparecimentos, feminicídios e o drama das valas coletivas. Rodríguez antecipou um tema que hoje ganha nova dimensão com o endurecimento das operações migratórias nos EUA: famílias separadas, trabalhadores arrancados de seus empregos e deportados deixados à deriva na fronteira.
Já Villoro, generoso padrinho de uma geração de cronistas latino-americanos, ofereceu a Tarifeño uma chave mais íntima: partir da própria experiência. O argentino, há anos vivendo no México ao lado de sua companheira mexicana, voltava de viagens carregado de histórias de violência, fome e abusos contra imigrantes. Até que um dia ela lhe disse: “Basta, não aguento mais ouvir essas histórias”.
Foi então, contou-me, que percebeu que precisava escrever o livro. “Se nem alguém tão próximo a mim conseguia suportar essas histórias, imagine o quanto elas precisavam ser contadas.”
Sob a inspiração de Rodríguez, Tarifeño chegou ao centro da questão: já não existe apenas um mundo de fronteiras; o próprio mundo se “fronteirizou”. O México inteiro tornou-se uma fronteira.
E talvez também este centro de São Paulo onde conversávamos num sábado barulhento à tarde, cercados por haitianos, venezuelanos e migrantes de tantas outras origens tentando sobreviver, fazendo bicos ou pedindo esmolas. Estão aqui os mesmos temas do desenraizamento, do desamparo e da desumanização daqueles que vivem fora do sistema.
“Escrever sobre essas pessoas é o que posso fazer, e é muito, pois é mais que necessário expor essas situações”, disse. “Conto suas histórias não para entristecer ninguém. Busco na tristeza o poético, não para amenizar o drama de ninguém, mas porque assim atingir o humano e sensibilizar. Não podemos viver num mundo onde reine tanta crueldade.”

