STJ investiga desembargador de Roraima acusado de estupro

Uma sindicância aberta no Superior Tribunal de Justiça (STJ) apura a conduta do desembargador Almiro José Mello Padilha, vice-presidente do Tribunal de Justiça de Roraima (TJ-RR), acusado de estuprar uma servidora da Corte durante um jantar realizado em 2019, na residência da funcionária, em Roraima.

A denúncia, formalizada em junho de 2025, tramita sob sigilo no STJ, sob relatoria do ministro Antonio Carlos Ferreira. A Polícia Federal (PF) também investiga os crimes de estupro, violação sexual mediante fraude e assédio sexual, de acordo com informações do jornal Folha de S.Paulo.

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Segundo o relato da servidora à PF e à Corregedoria do TJ-RR, o encontro foi organizado sob a justificativa de compromissos institucionais ligados a uma visita do magistrado a uma comarca do interior do Estado. Ela afirma que a assessora jurídica Daniela — nome fictício usado no processo — pediu que preparasse um jantar para recepcionar o desembargador.

Diálogo extraído de celular da vítima em perícia da Polícia Federal

Diálogo extraído de celular da vítima em perícia da Polícia Federal
Diálogo extraído de celular da vítima em perícia da Polícia Federal | Foto: Reprodução/Folha de S.Paulo

“Foi a primeira vez que eu o vi. A Daniela chegou primeiro, e ele chegou depois em um carro do tribunal, com os ingredientes para cozinhar e um vinho”, declarou a servidora à Folha.

De acordo com a denúncia, cerca de duas horas depois do início do jantar, a servidora foi para o quarto e teria sido seguida pela assessora. Ela afirma que as duas começaram a se beijar e, em seguida, Padilha entrou no cômodo e tentou beijá-la.

“Inicialmente, eu fiquei só empurrando, porque primeiro ele ficava tentando me acariciar”, relatou. “Acho que foi a Daniela que me colocou na cama e, quando eu já estava na cama, ele veio para cima. Foi aí que eu comecei a dizer que não.”

A mulher afirmou ainda que o desembargador insistiu na relação sexual sem preservativo. “Ele ficava tentando me convencer, falando para eu não me preocupar, que ele era ‘limpinho’”, disse. Segundo a denunciante, ela se sentiu “encurralada” durante o episódio.

Diálogo extraído de celular da vítima em perícia da Polícia Federal | Foto: Reprodução/Folha de S.Paulo

Em depoimento à PF, a servidora afirmou que, durante a relação sexual, Padilha agradeceu à assessora por ter apresentado os dois e falou sobre uma fotografia enviada previamente por ela. “Nesse momento, eu consigo sair da cama, vou correndo para o banheiro e me tranco”, declarou. “Fiquei parada chorando até eles irem embora.”

A assessora Daniela confirmou em oitiva ter presenciado a relação sexual, mas afirmou que tudo ocorreu de forma consensual.

O relatório parcial da PF sustenta a hipótese de que o jantar teria sido articulado “sob o falso pretexto de um evento profissional”, com o objetivo de aproximar o magistrado da servidora. Segundo os investigadores, as conversas extraídas do celular da denunciante mostram que ela demonstrava desconforto antes do encontro e relatou sofrimento emocional logo em seguida.

A perícia feita pelo Setor de Inteligência da PF atestou a autenticidade de mensagens trocadas entre o desembargador e a servidora. Em um dos diálogos, enviado na noite seguinte ao jantar, Padilha escreveu: “Foi um privilégio conhecer uma mulher jovem, tão inteligente, segura, focada e linda”.

Sede do STJ, em Brasília | Foto: Crédito: Max Rocha/STJ operação condorSede do STJ, em Brasília | Foto: Crédito: Max Rocha/STJ operação condor
Sede do STJ, em Brasília | Foto: Crédito: Max Rocha/STJ

Três dias depois, a servidora respondeu: “Obrigada pelo jantar, mas encerrou de uma forma que eu não desejava, não me senti confortável e não quero que se repita. Espero que possamos manter uma boa relação profissional”.

Na sequência da conversa, o desembargador pediu desculpa e afirmou que, “se pudesse voltar no tempo”, faria diferente. Em outro trecho, escreveu que não repetiria a situação “sem avançar o sinal”.

Segundo a PF, as mensagens e os relatos feitos pela mulher a familiares e amigos compõem um quadro de “prova indireta contemporânea aos fatos”, com registros de “choro e incômodo com o ocorrido”.

A decisão do STJ que autorizou a abertura da sindicância destacou que, em casos de estupro, o depoimento da vítima possui “especial relevância”. O tribunal também determinou medida cautelar que proíbe Padilha de manter contato com a denunciante ou se aproximar dela a menos de 100 metros.

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O relatório parcial da PF afirma que a gravidade do caso “se agrava pelo contexto”, por envolver integrante da cúpula do Judiciário estadual e possível “aproveitamento de assimetria de poder”.

À época dos fatos, Padilha exercia o cargo de corregedor-geral do TJ-RR, função responsável justamente pela fiscalização disciplinar de magistrados e servidores. Integrante da Corte desde 2001, ele presidiu o tribunal em duas ocasiões e também comandou a seccional da Ordem dos Advogados do Brasil em Roraima.

A servidora afirmou que demorou a formalizar a denúncia por medo de represálias profissionais e por receio de que a acusação não avançasse. Ela foi exonerada do tribunal em março de 2024 e retornou posteriormente. Segundo seu relato, a decisão de denunciar ocorreu depois de reencontrar o magistrado em uma visita ao Palácio da Justiça de Roraima, situação que teria reavivado os traumas.

Agentes da Polícia Federal (PF), em alusão à nota sobre a prisão do primo de Daniel Vorcaro, ex-banqueiro do Banco MasterAgentes da Polícia Federal (PF), em alusão à nota sobre a prisão do primo de Daniel Vorcaro, ex-banqueiro do Banco Master
Polícia Federal (PF) sustenta a hipótese de que o jantar teria sido articulado “sob o falso pretexto de um evento profissional” | Foto: Divulgação/Agência Brasil

Desembargador nega acusação de estupro

Em nota enviada à Folha, o desembargador classificou as acusações como “absurdas e infundadas, pois não têm respaldo em provas legais”. A defesa afirmou ainda que a versão da denunciante apresenta “inconsistências”, incluindo “contradições sobre deslocamentos mencionados”.

O magistrado declarou que o processo administrativo inicialmente foi considerado improcedente por falta de elementos, mas houve recurso, e a tramitação segue no TJ-RR. A nota também sustenta que o caso deve ser tratado “com responsabilidade, respeitando o devido processo legal e a presunção de inocência”.

O Tribunal de Justiça de Roraima informou que adotou “todas as medidas legais” e que há apuração administrativa em curso “sob rigoroso sigilo”.

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