
A longa espera por internação em hospitais públicos no Ceará tem outra motivação, além da carência de leitos, do aumento populacional e do crescimento da procura: a falta de atualização da tabela do Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo o médico Luiz Aramicy Bezerra Pinto, presidente da Associação dos Hospitais do Estado do Ceará, nos últimos 10 anos, 31 hospitais particulares conveniados ao SUS fecharam as portas ou simplesmente interromperam o atendimento público por conta dos baixos valores pagos pelo Ministério da Saúde.
“O valor está um longo período desatualizado, não cobre nem os custos. Os hospitais ficavam no negativo quanto tinham de atender pacientes do SUS e muitos deles acabaram falindo”, diz o presidente. O POVO mostrou ontem a carência de 6.336 leitos na rede pública e filantrópica do Ceará. A quantidade de leitos existentes no Estado é de 15.179, de acordo com o Ministério da Saúde, distante da ideal, que seria, no mínimo, 21.515.
O POVO solicitou ao Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (Datasus), do Ministério da Saúde, a quantidade de leitos privados, conveniados ao SUS, que foram encerrados ao longo dos últimos 10 anos. Até o fechamento desta reportagem, os dados não foram repassados.
Atualmente, o SUS paga R$ 43,70 para cada dia de internação. “O valor não arca nem com os custos da hotelaria. Porque o hospital é como um hotel, mas muito mais caro porque tem os profissionais, os equipamentos e os medicamentos”, diz Luiz Aramicy. O congelamento da tabela do SUS tem uma razão. A intenção do Ministério da Saúde é diminuir o atendimento em leitos conveniados, na medida em que haja a criação de novos leitos.
A demora no atendimento é a consequência do fechamento dos leitos da rede privada conveniada ao SUS e da não criação de vagas públicas a contento, conforme aponta o presidente do Sindicato dos Médicos do Ceará, José Maria Pontes. “A população está crescendo e os governos não conseguiram acompanhar a demanda. O poder público fica responsável em criar mais leito quando fecham uma vaga privada. Mas não é isso que tem acontecido”, informa.
José Maria acrescenta que, na medida em que se fecha um leito privado de atendimento pelo SUS, é obrigação dos governos criar novas vagas. Outro motivador para a redução dos leitos conveniados é o atraso no repasse do dinheiro do SUS pelas prefeituras. “As prefeituras usam o dinheiro para outros gastos, não necessariamente com a saúde”, denuncia o médico.
Professor do curso de Mestrado em Saúde Pública da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Marcelo Gurgel, diz que houve uma troca de prioridades. “Tivemos a questão das tabelas de pagamento. Uma derrocada financeira, que não cobriu os gastos que a instituições tinham”. Antes, diz ele, havia predomínio de leitos privados em todo País. “Mas os leitos foram extintos ou deixaram de ser interessante pelos custos”, afirma.
O Povo

