Terremoto na Colômbia faz moradores do Eixo Cafeeiro reviverem trauma de 1999

Para Manizales, uma das cidades mais afetadas pelo terremoto desta segunda-feira (10) na Colômbia, uma lembrança inevitável veio à tona assim que os prédios começaram a tremer: o sismo do Eixo Cafeeiro de 25 de janeiro de 1999. Aquele desastre natural deixou mais de 1.100 mortos e marcou todas as famílias da região.

Eu tinha seis anos e também estava dentro de um prédio. Lembro-me de pouca coisa, por causa do pânico, mas o medo causado pelo trauma voltou hoje de forma brutal. Durante anos, 1999 foi mais uma história de família do que uma lembrança minha.

Esta segunda-feira foi diferente. Aos 33 anos, compreendi fisicamente o barulho de uma estrutura se movendo ao nosso redor, a incerteza de não saber quanto falta para acabar e a necessidade imediata de encontrar as pessoas que amamos. É simples.

O terremoto me pegou de surpresa no 17º andar por causa de um relógio esquecido. Pouco antes das 7h30, eu havia descido para a academia do meu prédio, em Manizales. Quando cheguei à esteira, percebi que estava sem o relógio e voltei ao apartamento. Assim que saí do elevador, senti um empurrão violento. Corri até a minha porta.

Lá dentro, os livros começaram a cair. Ouviam-se vidros quebrando e gritos. O prédio parou de sacudir e começou a balançar de um lado para o outro. Apoiei-me entre duas cadeiras e esperei. Eram 7h34 da manhã.

Quando terminou, desci os 17 andares pelas escadas a toda velocidade, mas pareceu uma eternidade.

Do lado de fora, havia trabalhadores, vizinhos, famílias inteiras ainda de pijama. Nos primeiros minutos, faltou energia elétrica, e os dados móveis e o sinal de celular ficaram fora do ar. Ninguém sabia ainda a extensão do terremoto ou o tamanho dos danos.

Horas depois, o Serviço Geológico Colombiano informou que o sismo teve magnitude 7,4 e epicentro próximo a San José del Palmar, no departamento de Chocó, a cerca de 100 quilômetros de profundidade. O tremor foi sentido em grande parte da Colômbia e também no Equador, no Panamá e na Venezuela.

Durante a tarde, o governo contabilizava ao menos 111 mortos e 87 feridos. Em Caldas, o jornal La Patria noticiava cinco mortes: quatro em Manizales e uma em Villamaría. Os números continuavam mudando enquanto as equipes de resgate procuravam pessoas entre estruturas que haviam desabado.

Saí para percorrer Manizales quando boa parte da cidade ainda permanecia fora dos prédios, com medo de tremores secundários, comuns nesses casos. Para uma segunda-feira, a Avenida Santander —principal artéria comercial da cidade de meio milhão de habitantes— parecia paralisada. Havia estabelecimentos fechados, vidros nas calçadas e fragmentos de fachadas na rua.

Em frente à Universidade Católica de Manizales, a menos de um quilômetro do meu apartamento, uma edificação havia desabado. Mais adiante, em El Cable, uma das áreas comerciais e universitárias mais movimentadas, trabalhadores tentavam salvar o que podiam de vários estabelecimentos.

Paula Mejía chegou ao consultório odontológico onde trabalhava. A polícia permitiu que ela entrasse para verificar os danos. “Meu consultório, foi tudo embora, não sobrou nada”, disse-me, abalada e com os dentes cerrados. Ela ainda parecia estar em choque.

Cerca de 300 metros dali, parte de um muro do complexo Parque Médico caiu sobre a rua e soterrou um carro estacionado. Outro fragmento se desprendeu perto da entrada de um estacionamento. Jorge García, segurança de um prédio vizinho, estava a cerca de quatro metros. “Ouvi um estrondo muito forte”, contou. Não havia carros entrando nem pedestres naquele momento. “Sou calmo e tranquilo, mas fiquei com um pouco de medo.”

Os danos também atingiram a Catedral Basílica Metropolitana, que sofreu danos em suas torres, especialmente na torre nordeste. Para uma cidade acostumada a avistar seus campanários a partir de quase qualquer ponto do centro, a imagem teve um peso diferente de qualquer balanço oficial, pois a catedral, construída na década de 1940, é o principal símbolo de Manizales.

A profundidade do terremoto ajuda a explicar por que a energia alcançou um território tão extenso e por que o tremor foi forte em cidades distantes do ponto de origem. Nos edifícios altos, foi sentido como um longo vaivém. O que ainda precisará ser estudado é por que algumas estruturas foram gravemente afetadas enquanto outras, mesmo próximas, permaneceram de pé.

Durante a tarde, os tremores secundários continuaram. O Serviço Geológico havia registrado 33 até as 16h29, com magnitudes entre 1,4 e 4,8, mas nenhuma foi sentida em Manizales até a conclusão deste texto.

Nas ruas, porém, as consequências também apareciam em cenas menores. Perto da Rua 62, encontrei fechada uma farmácia que normalmente funciona 24 horas. Um homem chegou procurando medicamentos de que precisava naquele mesmo dia e teve de voltar para casa.

Assim começa a parte menos visível de um terremoto: quando os danos deixam de ser medidos apenas pelas paredes derrubadas e começam a alterar as rotinas que mantêm uma cidade viva.

No fim, não comecei a correr na esteira da academia. O relógio esquecido me impediu. Horas depois, caminhando entre prédios isolados e pessoas que ainda procuravam seus familiares, deixou de importar o que teria acontecido se eu não tivesse voltado para buscá-lo.

Em Manizales, nesta segunda-feira, o tempo acabou sendo medido de outra maneira: em segundos de pânico, medo e dor.

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