O primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, afirmou em reunião de gabinete nesta terça-feira (12) que não pretende renunciar, apesar da pressão crescente dentro do Partido Trabalhista após a derrota histórica da legenda nas eleições locais do fim de semana.
Convocado em caráter emergencial, o encontro ocorreu um dia após renúncias de assessores e secretários de seu governo, além de pedidos de parlamentares trabalhistas para que ele deixe o cargo, num processo de fritura do premiê.
No cargo há menos de dois anos, Starmer repetiu que, embora assumisse a responsabilidade por uma das piores derrotas eleitorais do Partido Trabalhista, não houve nenhum movimento oficial para iniciar uma disputa pela liderança. Vários ministros leais expressaram apoio a ele.
Apesar das falas, três secretários de governo anunciaram sua saída nesta terça.
A reunião de gabinete foi a mais recente promessa de Starmer de seguir adiante com um governo que tem sido marcado por escândalos e mudanças de política desde que conquistou uma ampla maioria nas eleições nacionais de 2024.
Na segunda-feira, após a crise estourar de vez, ele prometeu agir de forma mais ousada para enfrentar os problemas que afetam a política britânica e tentar fortalecer seu futuro político.
Em referência ao aumento dos custos de empréstimos, impulsionado pelo temor de nova turbulência política no país, o premiê afirmou que “as últimas 48 horas foram desestabilizadoras para o governo” e tiveram “um custo econômico real para o país e para as famílias”.
“O Partido Trabalhista possui um processo para desafiar um líder, e isso não foi acionado”, disse Starmer ao gabinete. “O país espera que continuemos governando. É isso que estou fazendo e o que devemos fazer como gabinete.”
Ao deixar Downing Street, ministros aliados reiteraram apoio ao premiê. Pat McFadden (Pensões) afirmou a jornalistas que ninguém desafiou Starmer durante a reunião.
Já integrantes do governo apontados como favoráveis à saída do premiê, como os ministros Wes Streeting (Saúde) e Shabana Mahmood (Interior), deixaram o local sem comentar o assunto.
Parlamentares trabalhistas que defendem a saída de Starmer esperavam que algum ministro importante renunciasse para acelerar a crise. Nesta terça, mais deputados do partido passaram a pedir publicamente sua saída. Mais de 80 parlamentares já defenderam que o premiê anuncie uma data para deixar o cargo e permita ao partido organizar a sucessão.
A situação contrasta com o cenário de 2020, quando Starmer assumiu a liderança trabalhista após o pior resultado eleitoral do partido desde 1935 sob Jeremy Corbyn. Na época, ele era visto como um nome moderado capaz de reposicionar os trabalhistas ao centro político.
Nas eleições de 2024, Starmer conquistou uma das maiores maiorias parlamentares da história recente britânica prometendo estabilidade após anos de turbulência sob os conservadores, que tiveram cinco primeiros-ministros em oito anos e deixaram, segundo os trabalhistas, um “buraco negro” nas contas públicas.
Os mercados reagiram com preocupação à possibilidade de saída de Starmer e da ministra das Finanças, Rachel Reeves. Investidores temem que um sucessor mais à esquerda amplie os gastos públicos em um momento de forte pressão sobre as finanças britânicas.
“Não consigo ver como ele sobrevive ao dia”, disse um parlamentar trabalhista à Reuters, sob condição de anonimato. “Se já temos mais de 70 deputados nessa posição, o número dos que acham que ele deve sair, mas ainda não falaram publicamente, é facilmente o dobro.”
Apesar da pressão, remover um premiê trabalhista costuma ser mais difícil do que no Partido Conservador. Embora dezenas de parlamentares tenham demonstrado insatisfação, ao menos 81 deputados precisam se unir em torno de um único nome para desencadear formalmente uma disputa pela liderança.
Dos que pediram sua saída, cerca da metade pertence à ala esquerda do partido, enquanto pouco mais de um quarto é mais centrista, segundo levantamento da Reuters. Isso sugere que ainda não há um candidato que reúna apoio suficiente.
Jenny Chapman, secretária do Ministério das Relações Exteriores, afirmou que a maioria dos 403 parlamentares trabalhistas “não quer caos”.
Caso Starmer seja forçado a deixar o cargo ou anunciar uma data de saída, o principal beneficiado pode ser Wes Streeting, visto por aliados como um comunicador mais eficiente e representante da ala mais à direita do partido.
Outros possíveis candidatos, como o prefeito de Manchester, Andy Burnham, e a ex-vice-primeira-ministra Angela Rayner, enfrentam obstáculos. Burnham não possui atualmente um assento no Parlamento, enquanto Rayner ainda tenta resolver questões fiscais que motivaram sua renúncia no ano passado.

