Rússia bane último partido contrário à guerra de eleição

A Suprema Corte da Rússia decidiu banir nesta segunda-feira (10) o último partido legal no país com uma agenda abertamente contrária à Guerra da Ucrânia do pleito parlamentar de 20 de setembro.

O Iabloko, cujo nome é um acrônimo com as iniciais de seus três fundadores e significa maçã em russo, respondia a acusações feitas pela pequena sigla nacionalista Rodina (pátria) de que seus candidatos eram traidores que recebiam dinheiro do exterior.

O chefe do partido, Nikolai Ribakov, afirmou em nota que irá recorrer da decisão dentro do prazo de cinco dias estipulado pelo tribunal. Ele negou o financiamento externo e disse que seguirá apoiando a paz com a Ucrânia, invadida por Vladimir Putin em fevereiro de 2022.

No esquema do poder russo, o Iabloko integrava a oposição consentida pelo Kremlin, com liberdade teórica de criticar e se opor a política de Putin, mas cujos limites agora ficam evidentes. Esta será a primeira eleição legislativa federal desde a eclosão do conflito.

O Partido Comunista, por exemplo, se diz de oposição, mas defende a guerra e usualmente apoia em votações o governo, liderado na Duma (Câmara baixa do Parlamento) pela sigla Rússia Unida.

A ação contra o Iabloko, fundado em 1993 e mais antigo partido liberal da Rússia pós-soviética, foi protocolada após a Comissão Eleitoral Central surpreender o mundo político russo aprovando 404 candidatos da sigla para disputar uma cadeira na Duma.

Com o apoio à guerra em seu nível mais baixo nos quase quatro anos e meio de conflito, ainda que em altos 66% segundo o independente Centro Levada, analistas políticos começaram a especular se o Iabloko teria a chance de emplacar alguns nomes no plenário de 450 deputados.

A tarefa em si seria árdua, dada a ossificação do sistema político russo em torno do Rússia Unida, maior partido da Casa com 315 parlamentares. O Iabloko chegou a ter 45 representantes eleitos no pleito de 1995, mas definhou desde então.

Já não tinha nenhum deputado havia quatro eleições, desde 2007. Hoje, tem meros 5 de 3.928 deputados em Legislativos de regiões russas. Ainda assim, segue tendo alguma influência entre parte da classe média intelectualizada de Moscou, e politicamente causava incômodo por sua posição pacifista.

Se o enterro eleitoral gerou um raríssimo protesto em frente à Suprema Corte, com mais de 500 jovens segurando maçãs, símbolo da sigla. Eles queriam entrar no prédio, cujo plenário só comporta 150 pessoas.

Gritando “Vergonha”, foram dispersados pela polícia, mas não houve violência. Segundo uma testemunha ouvida pelo site RusMedia, eles foram ameaçados de alistamento forçado para lutar na Ucrânia se permanecessem no local.

O movimento consolida o engessamento progressivo da política russa, sob o comando de Putin desde 1999. Se é fato que ele tem 74% de aprovação segundo o Levada, desde 2011 o país vem apertando a legislação para dificultar o registro de partidos ou candidatos independentes contrários ao Kremlin.

O ápice dessa confrontação foi na emergência de protestos nacionais contra corrupção liderados pelo ativista Alexei Navali, em 2017. Figura polêmica, ele passou a entrar em conflito políticos pró-Kremlin e, ao fim, com Putin.

Sem nunca ter densidade eleitoral nacional, ele criou um sistema descentralizado para apoiar candidatos locais contra nomes chancelados pelo governo.

Ao fim, obteve apenas sucessos pontuais, e sua história acabou em tragédia. Ele foi envenenado durante uma campanha local em 2020, acusando o FSB (Serviço Federal de Segurança) e o próprio Putin pela ação, algo que eles negam.

Ao voltar de tratamento médico no exterior para a Rússia, foi preso e acabou condenado a 30 anos de cadeia, morrendo em circunstâncias não esclarecidas numa prisão no Ártico em 2024. Ainda que nunca tivesse atraído eleitorado em pesquisas independentes, virou um símbolo da opressão à vida política sob Putin.

Antes da guerra, isso já estava em curso também pela criação de leis criminalizando progressivamente entidades e pessoas com contatos no exterior. Com o conflito, uma crítica às Forças Armadas pode render até 15 anos de cadeia a depender da interpretação da Justiça. Focando ONGs e jornalistas, as leis também atingiram os partidos.

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