Putin abre nova e perigosa fase na Guerra da Ucrânia

A decisão anunciada pelo governo de Vladimir Putin de escalar a guerra aérea contra Kiev coloca a Guerra da Ucrânia, iniciada pelo presidente russo há quatro anos e três meses, à beira de uma nova e perigosa fase.

Desde segunda-feira (25), quando a chancelaria russa pediu que estrangeiros deixassem a capital ucraniana, pois seriam alvejados centros de decisão, algo inédito até aqui, o clima é de expectativa de no mínimo a repetição do ataque da véspera, que empregou até dois supermísseis Orechnik.

“A situação na frente de batalha chegou a um impasse, e o avanço das Forças Armadas russas é mínimo. Era natural que Moscou recorresse ao que considera um último recurso para pressionar o inimigo. É o início da ‘guerra das cidades'”, disse à Folha Ruslan Pukhov.

Diretor de um dos mais prestigiosos institutos de estudos militares da Rússia, o privado Centro de Análise de Estratégias e Tecnologias, Pukhov é insuspeito de simpatias ocidentais, mas adota um tom realista pouco ouvido no país de Putin.

“A Rússia optou por continuar e aprofundar a guerra, já que Putin aparentemente ainda acredita que pode alcançar seus objetivos maximalistas —o que aparentemente implica estabelecer um protetorado sobre toda a Ucrânia”, afirmou.

Para Pukhov, a maior intensidade dos ataques com drones ucranianos, inclusive no episódio em que 21 estudantes foram mortos em um dormitório, obrigou “as autoridades a fazer algo que possa ser apresentado com uma resposta”.

“Esta lógica é típica de um conflito estagnado. Surpreendentemente, não foi feito antes”, disse, ressalvando que a campanha contra o sistema energético do adversário no inverno passado do hemisfério Norte tenha seguido o mesmo raciocínio.

Putin vinha celebrando avanços. O ano passado marcou seu maior ganho de território desde que recuou da tentativa de tomar Kiev na aurora do conflito, mas a situação foi equilibrada neste ano.

Kiev recuperou terreno em alguns pontos, ainda que a Rússia siga conquistando uma vila aqui, outra acolá todos os dias. Com isso, na avaliação do Instituto para Estudo da Guerra (EUA), há uma janela até para uma tentativa mais ousada das forças de Volodimir Zelenski.

A reportagem ouviu de um soldado russo, aqui identificado só como Pavel, um relato acerca das condições do combate ao longo da linha de contato em Donetsk, a mais contestada região ucraniana, que está talvez 80% nas mãos de Putin.

No fim de outubro de 2024, a Folha percorreu a frente de batalha do lado russo e, hoje, há pontos em que ninguém passa. “Está muito mais perigoso agora. E não se trata de mísseis ocidentais, são drones baratos e fáceis de desenvolver”, afirmou o militar, que vê risco para linhas de suprimento.

Concorreu também para o refluxo russo o apagão de comunicações duplo nas linhas de frente: primeiro, com o Starlink de Elon Musk sendo restringido para uso militar ucraniano sobre o país; depois, com o bloqueio do próprio governo a aplicativos de mensagens e VPNs.

Do lado ucraniano, a ameaça de Putin é tratada pelas autoridades e por aliados como um ato de desespero e de tentativa de intimidação. Apesar da retórica desafiadora, há preocupação entre os moradores de Kiev.

O domingo foi assustador, em especial porque usaram o Orechnik numa cidade perto daqui. Se decidirem lançar esse demônio sobre o centro de Kiev, não sei o que pode acontecer. Não há defesa possível”, disse o engenheiro Vitali Uchenko, com conhecimento de quem trabalhou em uma indústria aeronáutica.

“Mesmo que só atinjam com ogivas cinéticas, sem explosivos, o estrago é grande”, afirmou.

O Orechnik é um míssil balístico de alcance intermediário, até 5.500 km, desenvolvido para levar cargas nucleares a qualquer capital europeia. Ele foi lançado três vezes até aqui contra a Ucrânia. Segundo Zelenski, em uma carta enviada nesta quarta (27) a autoridades americanas, dois foram empregados no domingo passado (24).

“Meu verdadeiro medo é que a situação siga como está, com os dois lados se atacando cada vez mais. Não duvido que Putin possa usar armas nucleares táticas contra nós”, afirmou Uchenko, em referência a ogivas menos potentes de uso no campo de batalha.

De tempos em tempos, Putin saca a carta atômica. O ataque com Orechnik veio após o maior exercício nuclear desde a Guerra Fria, feito sem aviso, e do teste bem-sucedido do mais poderoso míssil intercontinental russo.

Além disso, houve uma escalada na troca de acusações entre Moscou e a Otan acerca de drones que atingiram países da aliança militar ocidental. E Zelenski diz que Putin se prepara para uma mobilização, algo que evita dada a impopularidade da medida, para invadir o norte ucraniano via Belarus.

Com toda essa tensão, o risco de uma elevação na mortalidade civil, algo que já vem acontecendo desde o ano passado, parece grande. O congelamento das negociações de paz impulsionadas por Donald Trump parece fechar o leque de Putin.

Com a guerra no Irã, o republicano parou de lidar com o conflito europeu, até então sua prioridade. Putin aufere lucros com a crise devido ao aumento do preço do petróleo, mas a falta de avanços encoraja o recrudescimento dos dois lados.

“O problema de qualquer negociação agora continua sendo os objetivos do lado russo. A impressão é de que, se Kiev concordar em retirar suas tropas do restante de Donetsk, Moscou exigirá ainda mais. Acredito que é por isso que os americanos não estão pressionando a Ucrânia a fazer isso”, avaliou Pukhov.

Para ele, “a questão fundamental de qualquer solução pacífica é o que Putin realmente deseja alcançar na Ucrânia”.

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