O governo boliviano revogou nesta quarta-feira (27) uma legislação de 2020 que dificultava a declaração de Estado de exceção pelo Executivo e o emprego das Forças Armadas para conter manifestações. A mudança foi autorizada pela Assembleia Nacional boliviana nesta terça-feira (26).
Com a revogação, o presidente Rodrigo Paz pode enviar um pedido de análise para Estado de exceção que deve ser autorizado em até 72 horas pelos parlamentares.
Governistas e opositores apoiaram a mudança, que vem na quarta semana de bloqueios de estradas e manifestações lideradas por apoiadores do ex-presidente Evo Morales e por líderes sindicais. Eles exigem a renúncia de Paz, um presidente de centro-direita.
Os distúrbios têm causado escassez de alimentos, combustível e medicamentos em La Paz e El Alto.
Em entrevista à agência de notícias AFP, Zulma Hinojosa chora ao relatar as dificuldades para encontrar medicamentos e levar o filho até o Hospital Infantil, partindo da cidade de El Alto, perto de La Paz, onde moram a 4.150 metros de altitude.
O menino, de 13 anos, sofre de asma e problemas cardíacos. Oxigênio e medicamentos são escassos nos hospitais na capital após quase um mês de bloqueios e protestos contra o governo boliviano.
“Não posso expô-lo ao estresse, a caminhar tanto, porque ele toma remédios”, e a viagem “é uma verdadeira odisseia”, diz a mulher de 44 anos.
Desde o início de maio, organizações de trabalhadores, agricultores, professores e transportadores têm bloqueado estradas para exigir que Rodrigo Paz, no poder há seis meses, tome medidas para enfrentar a crise econômica, a pior em quatro décadas, e renuncie.
Os bloqueios de estradas, que também afetam outras regiões da Bolívia, são mais intensos em El Alto e La Paz, capital do governo, onde medicamentos, alimentos e gasolina são escassos e os preços dispararam.
“Os medicamentos estão ficando mais caros, ou alguns estão acabando”, lamenta Hinojosa, que ganha a vida com dois empregos: faz empanadas e, ocasionalmente, cuida de doentes em casa.
No hospital público de Clínicas de La Paz, um dos mais antigos e maiores do país, o neurocirurgião Enrique Coritza, chefe da Unidade de Centro Cirúrgico, disse à AFP que o estoque atual de oxigênio do hospital durará apenas alguns dias.
“Não sabemos como estará a situação a partir de quinta, sexta ou sábado”, afirmou.
Segundo o governo, pelo menos quatro pessoas morreram porque os bloqueios nas estradas impediram atendimento médico em tempo hábil. Até o momento, não há dados sobre o impacto nos hospitais.
A grave escassez de alimentos na cidade de La Paz e nos arredores também afeta os hospitais.
“Não temos carne bovina, não temos frango, não temos frutas e verduras, o que causa deficiências nutricionais nos pacientes”, explica Christian Calle, diretor do setor de Farmácia do hospital.
A situação nos hospitais é semelhante em La Paz e El Alto, segundo um relatório divulgado na segunda-feira (25) pelo Ministério da Saúde boliviano.
Grupos de moradores protestaram nos últimos dias para exigir o fim dos bloqueios. “O povo não aguenta mais”, afirmava uma faixa em uma marcha realizada na terça.

