Peru terá 2º turno entre Keiko Fujimori e Pedro Sánchez – 15/05/2026 – Mundo

Após mais de um mês em apuração, a eleição presidencial do Peru teve seu 2º turno definido nesta sexta-feira (15): Keiko Fujimori (17,18%), filha do ditador Alberto Fujimori (1990-2000), enfrentará o psicólogo Roberto Sánchez (12,03%), herdeiro de um projeto político oposto ao do seu pai, o do ex-presidente Pedro Castillo.

Com o resultado, a administradora de empresas enfrentará o ex-ministro do professor rural preso por tentar um autogolpe em 2022. A definição veio a apenas 23 dias da rodada definitiva, que deve ocorrer em 7 de junho.

Keiko se manteve na liderança durante todo o período de apuração, marcado por atrasos subsequentes e acusações de irregularidades. O segundo lugar, no entanto, foi disputado voto a voto: Sánchez ultrapassou nos primeiros dias de contagem o candidato Rafael López Aliaga, que terminou em terceiro por uma diferença de 21.210 votos (0,137%).

Ainda durante o período de apuração, Sánchez foi acusado de dar falsas declarações e fornecer informações falsas ao serviço eleitoral sobre contribuições de campanha entre 2018 e 2020. O Ministério Público peruano solicitou uma pena de prisão de cinco anos e quatro meses para o candidato e ainda pediu que ele seja impedido de ocupar o cargo de presidente do seu partido, o Juntos pelo Peru.

Sánchez negou todas as acusações. “Há anos tentam espalhar mentiras para me desacreditar politicamente. Os tribunais já rejeitaram as acusações referentes ao suposto uso pessoal de fundos partidários, porque nunca houve fraude ou desvio de verbas”, declarou.

A Justiça peruana deve decidir no próximo dia 27 se o caso seguirá para julgamento ou será arquivado.

De todo modo, o arranjo final deste segundo turno é uma reedição das eleições de 2021, quando Castillo foi eleito presidente após derrotar Keiko. Na ocasião, o antifujimorismo foi suficiente para eleger o adversário da candidata, mas não para mantê-lo no poder —no ano seguinte, Castillo tentou dar um autogolpe para se livrar de uma destituição do Congresso, mas acabou preso.

A demora da apuração coroou uma jornada eleitoral repleta de percalços. No primeiro turno, os problemas no pleito obrigaram as autoridades a atrasar em uma hora o fechamento das urnas e reabrir, no dia seguinte, os 13 centros de votação na região metropolitana de Lima que haviam permanecido fechados na véspera por falta de material eleitoral, afetando mais de 50 mil eleitores.

O número de votos, embora pequeno diante da população, importava no contexto de alta fragmentação do país e proximidade entre o segundo e o terceiro colocados.

O caos na votação foi o pretexto que faltava para López, um ultradireitista que pretendia ser o Trump peruano, denunciar uma fraude no pleito que ainda não conseguiu provar. “Dou 24 horas para declarar esta fraude eleitoral absolutamente nula e sem efeito”, afirmou o político a centenas de apoiadores que, convocados por ele, reuniram-se em frente ao Conselho Nacional de Eleições dias depois das eleições.

Nesta sexta, López pediu a convocação de novas eleições em um prazo de 48 horas, após ameaçar não reconhecer os resultados que o excluíram do segundo turno. O ex-prefeito de Lima liderou uma nova passeata de centenas de pessoas para contestar os resultados.

Dentro do prazo, a autoridade eleitoral pretende proclamar oficialmente os resultados do primeiro turno, que foi marcado por falhas logísticas. “No dia em que declararem a lista fajuta, vamos contestá-la (…) a única maneira de me derrotar foi com trapaças e um governo ilegítimo não deve ser reconhecido”, acrescentou o candidato derrotado.

“Sabem a tremenda fraude que estão cometendo, atas foram perdidas, que processo é esse, fizeram tudo errado”, afirmou. O protesto, o quinto liderado por ele, percorreu várias ruas e terminou diante da sede do Júri Nacional de Eleições, no centro histórico de Lima.

Uma declaração preliminar dos observadores da União Europeia, emitida dias após o pleito, não mencionou fraude e afirmou que os órgãos eleitorais “demonstraram um firme compromisso com a transparência e a neutralidade” e “mostraram sua determinação em fortalecer a confiança do público e dos candidatos no processo eleitoral”.

A presença de Keiko no segundo turno não foi uma surpresa —além de Castillo em 2021, a ultradireitista já enfrentou o banqueiro Pedro Pablo Kuczynski em 2016 e o ex-militar Ollanta Humala em 2011. Em nenhum momento, porém, a sua ascendência pareceu tão providencial para a conjuntura do país.

A taxa de homicídio no Peru duplicou em dez anos, chegando a 10,7 a cada 100 mil habitantes em 2025 e fazendo a violência virar o principal problema do país para mais da metade da população, que saiu às ruas para protestar contra a falta de segurança no ano passado.

Keiko pretende resgatar a política de tribunais com “juízes sem rosto”, medida usada por seu pai nos anos de 1990 que levou à prisão de centenas de inocentes, de acordo com organizações de direitos humanos. Ela prometeu ainda construir mais prisões e, assim como seu pai, sair da Corte Interamericana de Direitos Humanos —a mesma que rejeitou a decisão do Tribunal Constitucional do Peru de libertar o ditador em 2023.

Keiko também absorveu a agenda anti-imigração, repaginando o radicalismo de seu pai para a ultradireita do século 21. “Expulsaremos os cidadãos sem documentos”, afirmou ela, que é neta de imigrantes japoneses, à AFP. A comunidade venezuelana no Peru, a mais numerosa do país, conta com 1,6 milhão de pessoas —14% sem residência autorizada.

Pesa contra ela, no entanto, o protagonismo que assumiu no Congresso, uma instituição rejeitada por 87% da população, de acordo com uma pesquisa do Instituto de Estudos Peruanos, e frequentemente apontada como responsável pelo caos político que o país vive com a destituição em série de presidentes.

Mesmo diante desse Legislativo hipertrofiado que deu pouca margem de manobra para Castillo, Sánchez, adversário de Keiko, apostou em uma campanha na qual emula seu padrinho político —inclusive usando o típico sombreiro pelo qual o sindicalista ficou conhecido.

O candidato de esquerda foi o único ministro a sobreviver no gabinete do ex-presidente nos menos de dois anos que durou seu mandato. Todo o restante acabou substituído nas diversas trocas realizadas pelo governo para tentar se manter no poder em meio à instabilidade política.

O candidato promete a “refundação da pátria” com uma nova Constituição, um Estado plurinacional com maior autonomia para as regiões e o aumento do controle estatal sobre recursos naturais, embora essa possibilidade seja remota no cenário atual da política peruana.

A posse do vencedor deve ocorrer em julho.

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