o luxo e degustação de uísque de US$ 1 mi

A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF) que autorizou a oitava fase da Operação Compliance Zero na última terça-feira, revelou uma relação entre o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, que, segundo o ministro, ultrapassou qualquer limite institucional para se tornar um esquema de “expropriação do RioPrevidência” motivado por encontros de luxo e extravagâncias como degustação de uísque que custou mais de US$ 1 milhão em Nova York.

Castro anunciou nesta quinta-feira que desistiu de sua candidatura ao Senado para se dedicar plenamente à sua defesa.

Pelos autos, Castro e Vorcaro mantinham um “vínculo pessoal estreito”, marcado por uma rotina de conveniência financeira. A Polícia Federal destaca que houve “sincronismo” entre encontros pessoais e aportes bilionários do Estado no Master. Vorcaro não apenas organizaria, mas também custeava eventos e encontros em ambientes privados e no exterior para o então governador. Embora a decisão não detalhe itens específicos de cardápios, ela é enfática ao afirmar que esses momentos de proximidade pessoal, financiados pelo banqueiro, coincidiam com a liberação de recursos públicos.

Um dos episódios teria ocorrido em maio de 2024, durante viagem de Castro aos Estados Unidos. Conversas obtidas pela PF, extraídas de um dos celulares de Vorcaro, mostram que o ex-banqueiro convidou o então governador para uma degustação exclusiva de uísque em Nova York.

O banqueiro informa que haveria um “evento pequeno” reservado para apenas dez convidados. A investigação aponta que o encontro custou US$ 1,013 milhão, valor que supera R$ 5 milhões na cotação atual.

Segundo os investigadores, menos de 24 horas depois, o RioPrevidência realizou um aporte de R$ 80 milhões em Letras Financeiras do Master. Na sequência, outros dois investimentos foram autorizados, nos valores de R$ 80 milhões e R$ 70 milhões.

A PF também descreve outro encontro relevante para a investigação. Em maio de 2023, Castro participou de um jantar com Vorcaro em Nova York e a conta teria ultrapassado US$ 13 mil, valor equivalente a mais de R$ 60 mil na conversão atual.

A defesa de Cláudio Castro afirma que não existiu qualquer relação pessoal indevida entre o ex-governador e Daniel Vorcaro e sustenta que todos os encontros ocorreram dentro da normalidade institucional.

A retirada do sigilo sobre a autorização de Mendonça para a operação da PF praticamente inviabilizou politicamente a candidatura de Castro ao Senado. Nesta quinta-feira (28), ele publicou um vídeo em suas redes sociais anunciando a desistência da candidatura.

“Eu resolvi tomar a decisão mais difícil da minha vida, porque durante toda a minha trajetória, como assessor, como vereador, como vice-governador, como governador, eu jamais fugi de briga alguma, jamais fugi de luta alguma. Mas também eu tenho que entender em que momento a gente vive, como estão as coisas e em que momento elas estão da vida. Então, eu resolvi retirar a minha candidatura ao Senado Federal. Eu resolvi tirá-la para focar completamente na minha defesa”, afirmou.

O Master negou irregularidades e afirma que todas as operações com o RioPrevidência seguiram critérios legais, técnicos e regulatórios. A defesa de Vorcaro não se manifestou.

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Segundo a investigação, a despesa foi paga integralmente pelo ex-banqueiro.

Após o encontro, Castro enviou mensagem ao empresário, chamando-o de “amigo” e dizendo que “foi uma experiência incrível”. De acordo com a PF, os primeiros aportes do RioPrevidência no Master ocorreram cerca de seis meses depois. Inicialmente, foram aplicados R$ 40 milhões. Poucos dias depois, um novo investimento de R$ 80 milhões foi realizado pelo fundo previdenciário estadual.

A decisão de Mendonça descreve uma alteração na alta gestão do RioPrevidência em período imediatamente anterior ao início das destinações de recursos. Agentes específicos foram nomeados para cargos-chave para operacionalizar o que a PF chamou de um “almanaque de irregularidades”.

O resultado teria sido a destinação de quase R$ 3,7 bilhões do RioPrevidência no Master. Os investimentos ocorreram em duas fases e com diferentes momentos de aplicação, mas somaram R$ 970 milhões em Letras Financeiras e R$ 2,01 bilhões em fundos estruturados, utilizados para contornar entraves regulatórios.

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Segundo a PF, Castro e Vorcaro fizeram reuniões nos palácios do governo e alertas foram ignorados

Investigadores identificaram ainda outros encontros entre Castro e Vorcaro no Brasil. Um deles ocorreu na residência do banqueiro no bairro do Itaim Bibi, em São Paulo. Mensagens obtidas pela PF mostram os dois acertando detalhes da reunião privada.

A investigação também aponta encontros no Palácio Laranjeiras, residência oficial do governador do Rio, e no Palácio Guanabara, sede administrativa do governo estadual.

Em um dos diálogos, Vorcaro pergunta se poderia encontrar Castro “rapidamente” no Rio de Janeiro. O então governador responde que iria reorganizar compromissos oficiais para encaixar o encontro na agenda.

Outro ponto apontado nas investigações é que os investimentos do RioPrevidência continuaram mesmo após alertas internos da instituição e questionamentos sobre o aumento do risco financeiro envolvendo o Master.

Segundo a PF, a disposição do fundo estadual em manter os aportes não se sustentava em critérios técnicos ou em confiança consolidada do mercado. A investigação afirma que, após questionamentos apresentados por um deputado estadual ao Tribunal de Contas do Estado, o Master passou a oferecer novos formatos de investimento ao RioPrevidência. Os recursos que antes eram direcionados para Letras Financeiras foram migrados para fundos de investimento vinculados ao Master.

A mudança teria ocorrido como estratégia para reduzir o desgaste político e regulatório em torno das aplicações. Na operação desta semana, que mirou Castro e pessoas próximas ao ex-governador, o ministro André Mendonça autorizou busca e apreensão de obras de arte, joias e itens de luxo na tentativa de rastrear o caminho de supostas vantagens indevidas.

Investigadores da PF ficaram na casa de Castro, no Rio de Janeiro, por cerca de duas horas durante o cumprimento do mandado de busca e, entre os principais itens da apreensão estão dois celulares e um tablet pertencentes ao ex-governador.

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Outras autoridades também tiveram encontros luxuosos com Vorcaro

Os encontros de luxo entre Cláudio Castro e Vorcaro não foram episódios isolados. Vale destacar que em março deste ano veio a público a partir da CPMI do INSS a informação que o ex-controlador do Master também promoveu confraternizações milionárias com integrantes do Judiciário, do Executivo e do Congresso Nacional.

Um dos eventos teria sido em abril de 2024, em Londres, durante uma degustação exclusiva do uísque escocês em um tradicional restaurante em uma das regiões mais caras da capital britânica. O encontro, restrito a cerca de 30 convidados, custou quase US$ 641 mil, mais de R$ 3 milhões, e reuniu nomes como os ministros do STF Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, o então ministro da Justiça Ricardo Lewandowski, o procurador-geral da República Paulo Gonet, o diretor-geral da PF Andrei Rodrigues e o deputado Hugo Motta (Republicanos-PB).

Documentos enviados à CPMI apontaram que toda a programação ligada ao Fórum Jurídico Brasil de Ideias, realizado em Londres na ocasião e patrocinado pelo Banco Master, ultrapassou US$ 6 milhões, o equivalente a cerca de R$ 30 milhões.

O pacote incluiu hospedagens de luxo, transporte, jantares reservados, atrações privadas e experiências exclusivas, além de garrafas de uísque de presente distribuídas após a confraternização. Em mensagens obtidas pela investigação, Vorcaro chegou a comemorar sua proximidade com as autoridades. “Todos ministros do Brasil, do STF, STJ etc. E euzinho discursando”, escreveu o banqueiro à então namorada após participar do encontro.

Na época em que os fatos vieram a público, o ministro Alexandre de Moraes argumentou, durante discussões internas no Supremo, que a presença de integrantes do Judiciário e de outras autoridades em eventos sociais não configuraria impedimento para atuação em processos.

O ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski confirmou que atuou como advogado após deixar o STF, mas afirmou ter suspendido suas atividades na advocacia ao assumir o cargo no governo federal. Em nota, ele disse não manter vínculo profissional ativo no período em que participou do evento em Londres, embora o escritório administrado por seus filhos tivesse contrato com Vorcaro. Os demais não se pronunciaram.

Não há indícios de que nenhuma dessas autoridades que estiveram no jantar em Londres sejam investigadas nem apontadas como autora de irregularidades. O episódio ganhou ainda mais relevância após o evento aparecer em discussões internas no STF durante a crise que levou à saída de Dias Toffoli da relatoria do caso Master, posteriormente redistribuído ao ministro André Mendonça, que não participou da viagem a Londres.

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